Comportamento & Equilíbrio

Quando começamos a pensar sobre a morte? — Parte II

Quando a morte chega ao mundo afetivo da criança, além da dor da perda de alguém que lhe é muito importante e necessário, precisamos considerar a faixa etária da criança

Como falamos na última semana, é necessário que a criança tenha adquirido a noção de irreversibilidade para que ela comece a pensar na ideia de morte, pois a morte é a irreversibilidade por excelência. É quando a criança começa a saber um pouco sobre o morrer. Mas entre a ideação da morte e a vivência da morte e do morrer, guardam uma grande distância.
Cada variável que é possível ser incluída no raciocínio torna o pensamento mais complexo e mais preciso. O pensamento lógico segue a sequência do desenvolvimento cognitivo, cada fase dando lugar à próxima, porque precisa das aquisições sucessivas. E é assim que a criança vai se capacitando a aceder a um pensar cada vez mais complexo.
Quando a morte chega ao mundo afetivo da criança, além da dor da perda de alguém que lhe é muito importante e necessário, precisamos considerar a faixa etária da criança. Com seu pensamento seguindo o raciocínio concreto, a criança vai alocar a morte daquela pessoa de referência dentro de uma localização concreta. Frequente é a resposta que atribui o novo endereço numa estrela. Ou o genérico céu. Estas respostas de onde a pessoa está, no entanto, pode se transformar num ponto de angústia, contrariando a intenção de romancear a dor da perda. Um romance concretizado, o que contempla a fase cognitiva. Lembro a menina de quatro anos que se apresentava como aquela que quando nasceu a mãe foi lá para o céu. Mas quando ocorria uma tempestade, a menina entrava em pânico porque pensava que era a mãe que estava zangada e o céu podia quebrar e cair em cima dela. Os relâmpagos e trovões passaram a ser uma ameaça de punição porque havia uma culpa velada.
Essa concretude invadindo a ideia de morte também pode vir na crítica à irmã mais nova, com doença terminal, por ela não ter ainda preparado os brinquedos que deve levar no caixão, para brincar quando ficar sozinha. Se por um lado parece ter a noção de que a morte da irmã vai afastá-la, “ficar sozinha”, por outro esta ideia parcial da morte convive com a concretude do levar os brinquedos preferidos para brincar na morte. Assim, a convivência da ideia abstrata com o concreto evidencia a ainda impossibilidade da noção de morte, pela não aquisição do conceito de irreversibilidade. Portanto, a morte na proximidade afetiva, além da dificuldade que acompanhará pela vida toda a mente da criança, estará diretamente atrelada à fase do desenvolvimento psicológico.

A morte no entorno pode estar ligada ao animal de estimação da criança (Foto: Olena Klymenok/Getty Images/iStockphoto)

A morte no entorno pode estar ligada ao animal de estimação da criança. O sofrimento se equipara à perda de uma pessoa da família, porquanto os bichinhos são muito humanizados pelas crianças. Esta relação com o bichinho é muito rica. O animal serve para a projeção de todo tipo de emoção e sentimento. E com a vantagem que a retribuição de afeto é garantida. O pet não guarda rancor, e aguenta tudo, quase tudo.
Mas quando a morte vem buscar a criança, muitas vezes, ela nos surpreende. É uma violência que a natureza comete. Somos mal preparados para perder nossos pais, e somos, completamente, despreparados para perder nossos filhos. Assim como, para a criança, todo mundo nasce, cresce, fica grande, fica velhinho e morre. Esta é a lógica infantil. No inconsciente coletivo, criança não morre. Mas, talvez, pela imaturidade e pela incompletude cognitiva, a criança com doença grave é capaz de caminhar no final com uma força admirável. O olhar do entorno fala o que as palavras não dizem. Mas é o olhar que a criança lê. Ela aprende a lidar com esta expectativa da morte, de uma maneira surpreendente quando ela tem suas perguntas respondidas. É perda de tempo se pensar que se engana alguém que está no último corredor, mesmo que seja uma criança. Para muitos que têm uma grande dificuldade de aceitar o que está se desenhando na criança, a saída é mentir, porque negam a realidade. A religiosidade conforta ao oferecer uma continuidade. Mas a irreversibilidade, descoberta em torno dos sete anos, se impõe. Novamente aqui, teoria e vivência se confrontam e é preciso conciliar estes dois vetores paralelos da vida. Se isto é difícil para a mente adulta, com todos os seus recursos, para a criança é ainda mais difícil. Difícil só de pensar. A criança, sob a ameaça de morte ou de morrer, não deve ter minimizada sua angústia. E, pior, rir de seu medo, ridicularizando-o. Nunca. O medo da morte é constitutivo da vida. O impulso de vida nos faz chorar para abrir os pulmões no primeiro momento de vida para evitar a morte ali. E será este medo da morte que nos manterá vivos. Mas, precisamos ajudar a criança a tornar a irreversibilidade, a noção abstrata de morte, única certeza concreta da vida, mais palatável. Com verdades, com acolhimento, sem enganação, mas do tamanho dos pequenos, verdades compatíveis com seu desenvolvimento.

Ana Maria Iencarelli

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

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