Meio ambiente

Ave selvagem mais velha do mundo completa 70 anos

Wisdom, uma albatroz que sobreviveu a tsunamis, viveu mais que a maioria de seus companheiros e gerou mais de 40 filhotes, está ultrapassando os limites de idade que acreditávamos serem possíveis às aves

Ela poderia ser qualquer uma dos um milhão de albatrozes-de-laysan que retornam a cada outono ao Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Atol Midway, um arquipélago de três pequenas ilhas formadas por recifes de corais no norte do Pacífico. Nesse refúgio, mais de 1,6 mil quilômetros ao norte de Honolulu, no Havaí, dezenas de aves marinhas de cor branca brilhante pontilham os campos expostos das ilhas, cada uma sobre um único ovo do tamanho de uma lata de refrigerante. Tanto os machos quanto as fêmeas apresentam as mesmas manchas pretas nos olhos e asas de cor marrom-chocolate, com envergadura de até dois metros.
Mas uma ave se destaca: Wisdom. Portando a anilha vermelha Z333 no tornozelo, ela completa no mínimo 70 anos neste ano, a ave silvestre mais velha conhecida da história.
“Sempre dou um suspiro de alívio quando Wisdom aparece”, afirma Jon Plissner, biólogo do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos que estuda a longevidade dos albatrozes em Midway.
Os cientistas já conhecem Wisdom muito bem. Sabem que ela foi anilhada em 1956, como parte de um projeto de pesquisa em longo prazo que identificou mais de 260 mil albatrozes individualmente desde o fim da década de 1930. Eles conhecem seu local de nidificação favorito. E sabem que ela botou um ovo no fim de novembro do ano passado, assim como fez ao menos em oito dos 11 últimos anos, e que esse ovo eclodiu em um filhote fofo em 1º de fevereiro.
Mas ainda há muito sobre Wisdom e sua espécie que os cientistas desconhecem, a começar por uma pergunta óbvia: por quanto tempo ela pode viver?
“Não fazemos a mínima ideia”, afirma Plissner. “Também não sabemos se ela é uma exceção. Ela é provavelmente a ave mais velha da qual temos conhecimento”.
Nos últimos 15 anos, Plissner e sua equipe colocaram anilhas em filhotes de albatroz-de-laysan e registraram os números das anilhas de albatrozes em nidificação em uma área de 2,5 mil metros quadrados, dados que um dia fornecerão mais informações sobre expectativa de vida. O desafio, segundo ele, é que os albatrozes têm uma vida tão longa que podem facilmente viver mais que os pesquisadores.
Foi o que ocorreu com Wisdom. Chandler Robbins, biólogo do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos que a anilhou, morreu em 2017 aos 98 anos.

Sylvia Earle, Exploradora Residente da National Geographic, senta-se ao lado de Wisdom na Ilha Sand, parte do Atol Midway, em janeiro de 2012 (Foto: Susan Middleton)

Uma ave sábia

Também é provável que Wisdom tenha mais de 70 anos; em 1956, uma estimativa conservadora atribuía a ela cinco anos, a idade mais precoce em que um albatroz-de-laysan pode atingir a maturidade sexual.
Em 2002, Robbins retornou a Midway e notou um albatroz com uma anilha desgastada que precisava ser substituída. Logo teve duas surpresas: ele havia feito a anilhagem da ave em 1956 e, aos 51 anos, ela era uma recordista. Os biólogos da época estimavam que o tempo de vida de um albatroz-de-laysan seria de 40 anos.
Por enfrentar durante tantos anos os perigos letais de ser um albatroz — tubarões e tsunamis perigosos, para citar apenas alguns exemplos — além das ameaças mais recentes representadas pela humanidade, como o aquecimento dos mares devido às mudanças climáticas, a poluição por plásticos e as linhas de pesca, ela recebeu o nome de Wisdom, que significa sabedoria em inglês.
Desde então, Wisdom se tornou a queridinha da internet, tanto em sua ilha natal quanto fora. No Havaí, o albatroz-de-laysan, conhecido como mōlī, ocupa um lugar de destaque na cultura indígena como um símbolo do deus Lono, que representa a chuva e a agricultura.
Sua fama chamou a atenção para os perigos enfrentados por aves marinhas e pelos albatrozes-de-laysan em especial, afirma Beth Flint, bióloga do Serviço de Pesca e Vida Selvagem em Honolulu.

“Ela é uma ave com uma longevidade comparável à humana”, destaca Flint. “Acredito que sua maior contribuição seja o interesse que despertou nas pessoas, atraindo-as para a ciência”.

Mãe discreta

Todo outono no Hemisfério Norte, quando o albatroz-de-laysan retorna a Midway após meses no mar para começar sua próxima temporada de reprodução, o céu acima das ilhas, antes relativamente vazio, fica repleto de aves sobrevoando as lagoas azul-turquesa, com as asas longas e delgadas estendidas.
Aproximadamente 70% da população global de albatrozes-de-laysan, estimada em 1,6 milhão de indivíduos, fazem seus ninhos em Midway, uma base militar da Segunda Guerra Mundial com pouco mais de cinco quilômetros quadrados, transformada em refúgio nacional da fauna silvestre. Os biólogos contaram cerca de 492 mil ninhos em 2020, um aumento discreto em relação ao ano anterior.
Cada casal de albatrozes-de-laysan faz um ninho profundo na terra raspando galhos, folhas e areia em um círculo de aproximadamente um metro de diâmetro. Depois que a fêmea bota um único ovo, o casal divide as tarefas como pais, revezando-se durante dias e semanas para alimentar o filhote com uma pasta regurgitada de peixes e lulas.

Foto de capa: Wisdom, que completou 70 anos neste ano, choca ovo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Atol Midway, em novembro de 2020 (Jon Brack/Amigos do Atol Midway NWR/USFWS)

Fonte: National Geographic Brasil

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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