Tragédia, crianças assassinadas a machadinha — Parte II

Cada Criança importa. O segredo de justiça lhe confere a invisibilidade, a criança não é protegida

Há, nesse momento, uma grande mobilização em torno do título “Segurança nas Escolas”. São comissões especiais, reuniões, muitos palpites, muitas protóteses, quase todas baseadas no óbvio com a tonalidade de defesa por armamento, negligenciando-se o fato de um possível combate e abate de algum ou de alguns agressores que se insurgissem tentando adentrar uma escola. Com o testemunho das crianças, incluindo o risco das balas perdidas que já vêm encontrando seus corpos nos seus trajetos.

Aceitamos afirmações sem critério, mas, que, seguem o gênero. Se, é homem e cometeu ato inaceitável, fala-se que ele “surtou”, e, circunscrito àquela situação, fica por conta de uma crise mental incontrolável. Se, é mulher, fala-se que é louca descredibilizando-a. Se, é uma menina de seis anos, espancada por três meninos da mesma idade, a Escola abafa e passa pano, como se diz hoje. E, como nos casos de violência sexual que a culpa é da menina que estava com a saia curta, ou da mãe que rompeu o casamento, cansada de apanhar e é morta porque ele não se conformou com o término da relação, aparecem até (pasmem!) os comentários que defendem o predador: “essa menina foi jogar futebol com os meninos, então tinha que estar preparada”. Preparada para ser espancada, ser jogada no chão, ser chutada até no rosto?


Não raro, encontramos agressores de hoje que têm um curriculum extenso de violências cometidas contra crianças e mulheres. Muitas vezes violências levadas à autoridade policial, com o devido B.O. (boletim de ocorrência), alguns com rápidas prisões, outros, em menor número, com condenações e penas afrouxadas, como manda a lei, por bom comportamento. E, esses indivíduos, seguem repetindo o comportamento agressivo que adoece crianças e mulheres, encarcerando-as, em prisão perpétua, no ciclo da opressão, no ciclo do medo.

Se a machadinha, que reduziu crianças a pedaços de madeira, nos chocou e perturbou todo o País, que se uniu em torno de saídas, é preciso pensar que também as crianças que foram, individualmente, torturadas e mortas por predadores perversos, comoveram, mas não mobilizaram o País para buscar uma saída. Por isso, se repetem os casos de crianças que serviram de objeto de perversidade, foram assassinadas sob longos períodos de tortura, desassistidas pelo Sistema de Justiça, desamparadas por toda a sociedade.


Joanna Marcenal, Isabella Nardoni, Bernardo Boldrini, João Vítor, Andrei, os irmãos Lucas e Mariah, Henry Borel, mais recentemente Quênia, são apenas algumas das crianças que tiveram seus Direitos de Proteção Integral vilipendiados. No caso Joanna, por exemplo, até hoje o suspeito não foi a júri.

Ela foi morta com vários sinais de tortura, em 2010. Além de não haver julgamento, há inúmeros casos em que o processo criminal é arquivado porque invertem-se as provas. No meio disso, há projétil que faz o trajeto inverso na cabeça da criança, ou seja, entra na fronte, abrindo o crânio e sai no alto da cabeça provocando, na saída, uma queimadura do couro cabeludo, para se “concluir” que o menino cometeu suicídio, com o arranjo de uma pistola nas mãos, voltada para seu rosto. Como se fosse possível, considerando a Física, que depois de disparar a arma continuaria nas mãozinhas da Criança, não aconteceria o deslocamento pelo disparo. Mas, é esta “perícia” que é validada.

Por outro lado, também é trágico, quando uma afirmação que consta em muitas perícias realizadas no I.M.L., atestando a conjunção carnal adversa, terminologia usada para descrever atos libidinosos sofridos por uma criança, é invertida, por profissional não médico, em lesão por masturbação anal em criança da primeira infância. E esta interpretação do fato constatado pelo médico legista concursado, é aceita e validada.

Essas são tragédias que não saem na mídia porque são protegidas pelo segredo de justiça. A criança não é protegida. Com base nesse tipo de crueldade profissional, resta a condenação da mãe por alienação parental, e a criança seviciada é entregue ao seu agressor em Guarda Unilateral. A perversidade de alguns, sentados em seus gabinetes, também tortura e mata crianças.

Cada Criança importa. Uma Criança importa. O segredo de justiça lhe confere a invisibilidade, mas a tatuagem na alma desses invisibilizados está impressa, fermentando. Nenhum agressor de Criança veio de Marte. Eles cresceram aqui entre nós. Eles estão aqui.
O serial killer da machadinha, que invadiu a creche/escola, depois de matar quatro crianças e ferir mais cinco, saiu, com os gritos nos ouvidos e sangue nas mãos, parou, tomou um copo de água e fumou um cigarro para, segundo ele, diminuir a adrenalina, e foi se entregar num quartel próximo. Surtado?

Não. Penso que não sabemos explicar um comportamento desses. Nem o que pratica a tortura com seus filhos, dentro de casa. Não conseguimos sentir o que sentem. Talvez, por isso, tenhamos tanto medo e escolhemos negar. Negar que existe bem perto de nós. Negar a gravidade disso que não nos parece humano. Mas, essa perversidade é praticada por humanos e, muitas vezes, humanos que amamos.