Buraco negro estraçalha ‘super Sol’ e cria uma das maiores explosões do Universo
Evento raro, batizado de Whippet, liberou quantidade abissal de energia ao transformar uma estrela massiva em “alimento” para um buraco negro
Por Pedro Spadoni
Astrônomos observaram algo surpreendente. Um buraco negro não só destruiu uma estrela maior que o nosso Sol como transformou esse processo num espetáculo de luz e energia. O evento recebeu o apelido de Whippet e entrou para os registros como AT2024wpp, fenômeno tão intenso que superou até as supernovas mais poderosas já observadas.
Por um breve período, a energia liberada chegou a cerca de 400 bilhões de vezes a luminosidade do nosso Sol. Esse tipo de explosão rara pertence a uma classe ainda pouco compreendida, os Transientes Ópticos Azuis Rápidos e Luminosos (LFBOTs, na sigla em inglês). São eventos que surgem rápido, brilham muito e desaparecem antes que os telescópios consigam reagir. No caso do Whippet, porém, os cientistas conseguiram acompanhar o processo quase em tempo real. Isso abriu uma janela inédita para a física extrema dos buracos negros.
Fenômeno Whippet redefine escala de destruição cósmica ao triturar um ‘super Sol’
O que aconteceu foi um desequilíbrio cósmico levado ao limite. Um buraco negro imenso capturou uma estrela grande. À medida que ela ficou perto demais, a gravidade fez o resto. A estrela foi estraçalhada e, depois, virou um disco de detritos girando ao redor do buraco negro, que passou a se “alimentar” desse material. Pelo menos, é assim que descreve o astrofísico Daniel Perley, autor principal do paper a ser publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.
Descobrimos o que acreditamos ser um buraco negro se fundindo a uma estrela companheira massiva, triturando-a num disco que alimenta o buraco negro. É um fenômeno raro e impressionante”, disse, em comunicado publicado pela Liverpool John Moores University.

A primeira pista surgiu quando a astrônoma Anna Ho detectou um brilho incomum usando o Zwicky Transient Facility, sistema projetado justamente para flagrar explosões rápidas no céu. A intensidade e a velocidade do sinal deixaram claro desde o início que não se tratava de uma explosão estelar comum. Pouco depois, a equipe confirmou a natureza excepcional do evento. Observações feitas com o Telescópio Liverpool e com o satélite Swift, da Nasa, mostraram duas marcas: o objeto era extremamente azul (sinal de temperaturas altíssimas) e emitia raios X intensos, algo típico de matéria sendo engolida por um buraco negro.
Medições de distância feitas por equipes da Caltech e da UCLA fecharam o diagnóstico. Mesmo ocorrido a milhões de anos-luz da Terra, o Whippet liberou mais energia do que qualquer supernova típica já registrada. As temperaturas extremas medidas no processo reforçaram a conclusão: algo maior e mais violento do que qualquer explosão estelar conhecida estava em ação.
Onda de choque em alta velocidade e sinais químicos tardios intrigam cientistas
À medida que o disco de matéria girava e caía em direção ao buraco negro, ele não apenas brilhava. O processo gerou um vento poderoso de gás, lançado para fora em alta velocidade. Esse vento colidiu com material que a própria estrela havia expelido antes de ser destruída, o que produziu um brilho intenso nos primeiros dias do evento.
O impacto foi tão forte que criou uma onda de choque que se propagou pelo espaço a cerca de um quinto da velocidade da luz. Esse front avançou por meses, até desaparecer subitamente ao alcançar o limite de uma bolha de gás ao redor do sistema. Isso ocorreu cerca de meio ano depois do início da explosão.
Um dos aspectos mais intrigantes veio depois, quando o brilho já diminuía. No primeiro mês, não havia qualquer assinatura química clara. Mais tarde, porém, surgiram sinais fracos de hidrogênio e hélio. É algo inesperado para um evento desse tipo, especialmente tão tarde no processo. O maior enigma está no hélio. Ele foi detectado se movendo a mais de seis mil quilômetros por segundo, o que sugere que uma estrutura densa do núcleo da estrela pode ter sobrevivido parcialmente à destruição e sido lançada em nossa direção. Outra hipótese, ainda mais especulativa, é que esse material venha de um terceiro objeto no sistema, atingido pela radiação e pelo vento gerado pelo buraco negro.
Independentemente da explicação final, o Whippet já deixou um legado. Eventos como esse oferecem uma nova forma de mapear onde buracos negros existem, como crescem e como interagem com estrelas massivas. Mais do que uma explosão rara, o Whippet virou um laboratório natural para entender como o Universo lida com seus próprios extremos.
(Foto de capa: Luzimara Fernandes/ ChatGPT/Fatos & Notícias)
Fonte: Olhar Digital









