Petróleo, Gás & Energia

Tenho petróleo, mas não tenho vento

A recente sanção do marco legal das eólicas offshore, a Lei n.º 15.097/2025, gerou uma onda de euforia no mercado capixaba. Muitos empresários já sonham com os guindastes e as grandes obras. Mas, na minha visão, focar apenas na fase de construção é um erro estratégico. É pensar no curto prazo.
Vamos direto ao ponto: a verdadeira captura de valor neste novo mercado não está no aço que se instala uma única vez, mas no contrato de serviço que se fatura por 25 anos. Relatórios da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) confirmam que os custos de Operação e Manutenção (O&M) representam entre 25% e 30% do custo total de um parque eólico offshore ao longo de sua vida útil. A pergunta que o empresário local deveria se fazer não é “como vou participar da obra?”, mas sim: “como minha empresa vai garantir essa receita recorrente por duas décadas?”.

1. O jogo da disponibilidade
No ambiente offshore, a métrica que realmente importa para o operador — seja Shell, Petrobras ou Equinor — é a disponibilidade da turbina. Uma falha simples, que em terra seria resolvida em minutos, no mar pode significar dias de paralisação por mau tempo ou falta de uma embarcação. E é exatamente aí que mora a oportunidade para a engenharia capixaba. O jogo não é mais vender “manutenção corretiva” ou a famosa “hora-homem”. É vender gestão de ativos. É vender a garantia de que a turbina não vai parar.
O grande diferencial da cadeia de O&G capixaba não é apenas técnico; é cultural. As empresas que hoje atendem o pós-sal — campos de petróleo em águas profundas já em operação — já vivem sob a lógica de que “o poço não pode parar”. Essa cadeia conhece intimamente o que é urgência operacional e precisão em ambientes críticos. As multinacionais europeias trazem a tecnologia da turbina, mas elas precisarão comprar de um parceiro local a garantia de que ela vai girar. E esse parceiro precisa respirar essa cultura.

(Foto: Pixabay)

2. “Compliance” como vantagem competitiva
Para muitos gestores, normas regulamentadoras são apenas um passivo, uma dor de cabeça. Mas, na estratégia de negócios, elas funcionam como um “fosso” que protege quem já está no jogo.
O Espírito Santo sedia a operação de gigantes como o Parque das Baleias, um complexo de sete campos de petróleo e gás na Bacia de Campos, e o Campo de Golfinho, que está em produção desde 2007. As empresas locais que atendem a esses contratos já superaram a barreira do CRCC da Petrobras e dominam as complexas NR-10 (Segurança em Instalações e Serviços em Eletricidade) e NR-37 (Segurança em Plataformas de Petróleo). Esse conhecimento não é trivial. É um ativo.
Enquanto um concorrente de fora precisaria investir tempo e muito dinheiro para qualificar sua equipe do zero, a empresa capixaba já fez esse investimento. Em uma licitação, isso significa que o custo para mobilizar a equipe é muito menor. Na prática, permite entrar com um preço mais agressivo ou garantir uma margem de lucro que o concorrente simplesmente não consegue alcançar.

3. A sinergia que ninguém viu
O futuro dos projetos no nosso litoral depende de uma ideia simples: o compartilhamento de infraestrutura. Os novos portos, como o Imetame Logística Porto em Aracruz, com operações previstas para 2026, e o Porto Central em Presidente Kennedy, que iniciou suas obras em 2024, se vendem como hubs industriais. A aposta inteligente para o fornecedor local é a “dualidade”.
Se sua empresa já tem uma base logística, um almoxarifado ou uma oficina em Vitória ou Aracruz, por que não a adaptar para atender tanto o mercado de petróleo quanto o eólico? A lógica é simples: diluição de custos fixos. Imagine o mesmo barco de apoio que leva suprimentos para o campo de Golfinho levando, na mesma viagem, peças para o parque eólico ao lado. Esse modelo ainda não existe, mas quem o desenhar primeiro terá um argumento de venda imbatível: a redução do custo operacional (o famoso OPEX) do cliente final.

O desafio para o empresário capixaba
A transição energética não exige que a indústria do Espírito Santo abandone sua identidade. Pelo contrário. Ela exige que a gente refine o que já fazemos de melhor. O conhecimento acumulado em décadas de exploração de petróleo é a base para a nova era da energia eólica.
O Brasil já ocupa a sexta posição no ranking mundial em energia eólica. Essa posição pode ser consolidada — e ampliada — se a cadeia capixaba entender onde está a verdadeira oportunidade. Então, aqui vai o meu desafio para você, empresário do setor: pare de sonhar com o guindaste e comece a desenhar o contrato de 25 anos. A verdadeira oportunidade não está em construir as torres, mas em garantir que elas continuem girando. É ali, na complexidade da manutenção recorrente, que a boa engenharia se transforma em lucro de verdade.

(Foto de capa: ChatGPT)

Francisco Neto

Francisco Neto Engenheiro eletricista da Conexa Engenharia Transformo soluções inteligentes em energia, eficiência e segurança @eng.fneto

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