Atuação dos produtores independentes na cadeia do petróleo

Uma nova configuração energética em curso
Por Haroldo Filho e Willians Lima
O setor de petróleo e gás no Brasil vive um momento de reconfiguração silenciosa, porém estrutural. À medida que grandes operadoras concentram esforços em ativos estratégicos e de maior escala, um conjunto de empresas independentes assume protagonismo na revitalização de campos maduros, no fortalecimento de economias regionais e na ampliação da cadeia industrial nacional.
À frente dessa articulação está a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (ABPIP), presidida por Márcio Félix. Com atuação consolidada em diversas regiões do país, a entidade tem sido peça central na construção de um ambiente regulatório mais equilibrado, na defesa da segurança jurídica e na integração entre operadoras e fornecedores.
Nesta entrevista exclusiva à Revista AÇO 5.0 BR, o presidente da entidade destaca os desafios da consolidação dos produtores independentes no cenário nacional, a importância da integração com a cadeia industrial, o papel estratégico do gás natural na transição energética e a relevância da integridade das instalações em ativos maduros.
Mais do que um segmento complementar, os produtores independentes se consolidam como vetor de desenvolvimento técnico, econômico e social em diversas regiões do Brasil.
1) Visão estratégica da ABPIP e do setor
● Qual é o principal desafio enfrentado pelos produtores independentes de petróleo e gás no Brasil atualmente e o maior avanço regulatório dos últimos anos?
Nosso principal desafio é ser percebido como empresa independente. Atuamos em campos maduros, campos antigos, que já produziram e que as grandes empresas já não veem economicidade. A exploração desses campos precisa de empresas mais ágeis, de soluções e contratações locais. São campos maduros com volumes remanescentes, cuja viabilidade depende de operação enxuta e controle rigoroso de custos, dada sua economicidade marginal.
A Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo (ABPIP) surgiu há dezenove anos, mas a categoria só se tornou forte mesmo, nesses últimos cincos anos por isso, acredito que esse tenha sido nosso maior desafio. Concluir a categorização como independente, com royalties mais adequados, foi necessário. Com isso, surgiu o mercado e hoje, a RedePetro está espalhada em quatorze estados, atuando em regiões carentes na parte terrestre (onshore), onde praticamente todos os ativos, excetuando áreas da Petrobras, são de empresas independentes, no mar estamos numa ascendência.
● Como a ABPIP tem atuado para garantir segurança jurídica e previsibilidade em um setor historicamente marcado por instabilidades regulatórias?
A ABPIP vem atuando para garantir a segurança jurídica e previsibilidade num país que tem suas instabilidades. Mas costumo dizer que, se olhamos o Brasil de forma imediatista, vimos grande oscilação, mas quando olhamos no horizonte, de cinco ou dez anos, enxergamos uma certa estabilidade, daí o motivo de muitas empresas estrangeiras investirem a longo prazo aqui. Outra coisa, temos a tradição de honrar contratos e isso tranquiliza qualquer investidor.
● O Brasil vive um momento de reconfiguração do seu parque produtor. Qual o papel real dos produtores independentes nesse novo cenário energético nacional?
Trabalhamos juntos ao Congresso Nacional e com o governo federal e buscamos também a opinião pública, nos estados que atuamos para que a gente seja notado como ente que ajuda no desenvolvimento socioeconômico.
Nessa rearrumação do arranjo produtivo na área de petróleo, temos a Petrobras e empresas internacionais, todas de grande porte, mas temos também empresas brasileiras e estrangeiras, de portes menores, que atuam de maneira independente.

2) Cadeia industrial, fornecedores e grandes empresas
● Empresas como Imetame e Seatrium têm papel relevante na construção, manutenção e integração de ativos industriais. Como a ABPIP avalia a relação entre produtores independentes e grandes fornecedores industriais?
O Espírito Santo tem fornecedores com serviços relevantes à cadeia de petróleo e gás, não só para o estado, mas para o Brasil como um todo. Temos, na nossa associação, sócios, onde metade deles são de empresas operadoras, contratantes de serviços e a outra metade, formada por fornecedores de bens e serviços.
● Existe espaço para uma maior aproximação entre produtores independentes e estaleiros, metalúrgicas e empresas de engenharia pesada?
A ABPIP promove essa relação interna, mas não fica só nisso. Precisamos nos aproximar mais, temos um perfil diferente. Na realidade, a grande contratante do país de estaleiros e empresas de engenharia pesada é a Petrobras, ela que carrega grande parte das contratações.
Mas nós também temos nossas necessidades, tanto que algumas empresas internacionais que atuam no Brasil e em outros locais têm a oportunidade de exportar essa competência brasileira.
● Como o senhor avalia o nível de competitividade e qualificação técnica da cadeia industrial brasileira hoje e se a padronização excessiva herdada das grandes operadoras ainda impacta negativamente os produtores independentes?
Considero que nossa competitividade e a qualificação técnica são muito boas, mas o grande desafio é o custo Brasil e a cultura que ficou, por décadas, fornecendo somente para a Petrobras criando, assim, uma competitividade.
Costumo brincar, dizendo que o comercial das empresas fornecedores precisam atuar como verdadeiros “caixeiros viajantes”. Aquele cara que vai atrás dos compradores, participa das diversas feiras, de Norte a Sul do país, buscando oportunidades de se aproximar das operadoras e promovendo ambientes de diversidades com maior competitividade.
● A RedePetro ES tem sido uma ferramenta importante de integração entre operadores e fornecedores regionais
As chamadas RedePetro, que atuam às vezes com nomes diferentes, em estados que têm atividade petro no Brasil — onde o Espírito Santo se destaca, e que tive a honra de participar de sua criação — é realmente uma ferramenta de integração muito importante entre operadoras e fornecedores regionais.
Precisa diversificar mais, envolver outras associações que congregam diversos operadores como o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás e Biocombustível (ABP), a Associação Brasileira das empresas de Serviços de Petróleo (ABESPetro), a Associação Brasileira de Pesquisa e Desenvolvimento em Petróleo e Gás (ABPG), são várias associações que precisam, de alguma maneira, conversar entre si e buscar maior sinergia.
4) Gás natural e transição energética
● O gás natural é frequentemente citado como combustível da transição energética. Qual é o papel dos produtores independentes nesse processo e se o Brasil está aproveitando corretamente seu potencial de produção e monetização do gás natural?
O gás natural é o grande equilibrador do sistema elétrico brasileiro. Temos espaço para energia eólica, solar — setor que o Brasil cresceu muito — hidrogênio, nuclear, as hidrelétricas e temos o gás como equilíbrio. Essas coisas estão espalhadas pelo Brasil todo e interligadas, e o gás entra em campo para manter o equilíbrio porque ninguém quer que falte energia em nenhum momento.
Além de ser menos poluente, pode ser utilizado no modelo de captura de carbono. A sua estocagem, coisa que está se iniciando pelos independentes, tem várias possibilidades. Quanto à regulação, tem evoluído bastante, com a nova lei do gás, o mercado vem se transformando. Não podemos esquecer que o gás ajuda a conciliar a agenda ambiental e ainda proporciona segurança energética.

5) ESG, sustentabilidade e percepção pública
As empresas associadas à ABPIP, principalmente as que estão próximas às comunidades, as terrestres (onshore), é importante dizer que, quem dá o licenciamento social para operar, é a comunidade. Os independentes buscam sempre atuar em harmonia com a sociedade, gerando emprego de qualidade, cuidando do meio ambiente e do social.
6) Futuro do setor e mensagem final
Temos uma agenda estratégica da ABPIP onde, de forma resumida, o que queremos é a licença para operar em todos os ambientes. O Brasil tem um grande potencial de reservatórios não convencionais, esperando que seja equacionado e autorizado, em áreas pesquisadas e estudadas, para que possamos ser competitivos. O petróleo tem muitas discussões e uma delas é quanto tempo vai durar… Há mais de 40 anos, ouço isso, mas diria que vamos atravessar esse século com o petróleo com a importância que tem para o mundo. Claro que de forma cada vez mais sustentável, responsável, com captura de carbono que é o que a gente vem olhando.
Olhando para o futuro, se alguém deseja entrar hoje na indústria do petróleo, pode sim, se aposentar, trabalhando seus 30 ou 35 anos. A cadeia vai continuar demandando técnicos, engenheiros, empresas especializadas e integridade das instalações que é um fator fundamental. Nós trabalhamos com estruturas mais antigas, então nosso investimento em integridade é muito significativo, com manutenção e inspeção industrial.
Em suma, concluo essa entrevista dizendo aos leitores da revista AÇO 5.0BR, que olhem com carinho esse setor porque há muitas oportunidades nele.








