Economia Transporte & Logística

Falta de motoristas de caminhão já afeta 88% das empresas de transporte

Por Andrea Ramos

O transporte rodoviário de cargas no Brasil enfrenta um dos seus maiores gargalos estruturais que é a falta de motoristas. Dados da pesquisa da NTC&Logística mostram que 88% das empresas têm dificuldade para contratar motoristas ou agregados, um problema que já impacta diretamente a operação e o crescimento do setor. Além disso, a escassez de mão de obra aparece como um dos principais limitadores do mercado, ao lado da piora da demanda interna. Ao mesmo tempo, o cenário se agrava porque parte significativa das transportadoras convive com veículos parados justamente por falta de profissionais. Esse contexto pressiona custos, reduz a eficiência operacional e amplia a competição por motoristas experientes.
A dificuldade de contratação não se resume à falta de candidatos. Na prática, o setor enfrenta um conjunto de fatores que desestimula a entrada de novos profissionais e dificulta a permanência dos atuais. De acordo com a pesquisa, a mão de obra já representa um dos principais custos do transporte, ao lado de combustível e veículos, respondendo por uma fatia relevante da estrutura operacional. Ainda assim, mesmo com a relevância estratégica da função, o número de motorista disponível não acompanha a demanda.

Nesse sentido, transportadoras relatam que o problema afeta diretamente a produtividade. Além disso, a combinação de exigências operacionais mais rígidas e condições desafiadoras de trabalho contribui para aumentar a rotatividade. Diante desse cenário, empresas intensificam iniciativas para atrair e fidelizar profissionais. A Mahnic Operadora Logística, por exemplo, aposta em valorização e proximidade com os motoristas.
Segundo a diretora comercial e operacional, Ludymila Mahnic, a empresa atua em várias frentes. “Temos programas de bonificação e premiação que valorizam bons resultados operacionais, como consumo de combustível, uso correto de EPI e cuidado com os veículos”, afirma. Além disso, a executiva destaca que a renovação da frota também cumpre papel importante. “Investimos gradualmente em caminhões mais modernos para oferecer mais conforto e segurança, o que ajuda na retenção”, explica.

Ao mesmo tempo, a empresa mantém acompanhamento próximo dos profissionais. Assim, fortalece o relacionamento e aumentando a fidelização. Apesar dos esforços, contratar continua sendo um desafio. Ludymila aponta que a escassez de motoristas qualificados, especialmente entre os mais jovens, preocupa. “Muitos não permanecem por muito tempo na função”, diz.
Outro fator relevante envolve as exigências dos clientes. Hoje, operações com horários restritos, maior controle e regras mais rígidas nem sempre são bem aceitas pelos motoristas. Como resultado, parte dos profissionais migra para empresas com condições mais flexíveis. Além disso, a concorrência entre transportadoras intensifica o problema. “Há ofertas constantes para atrair motoristas experientes, o que aumenta a rotatividade”, completa.
Na ABC Cargas, a estratégia passa pela formação de novos profissionais, bem como pela valorização da carreira. O presidente da empresa, Danilo Guedes, afirma que o desafio exige uma abordagem estruturada.

A falta de motoristas profissionais é hoje um dos maiores desafios do transporte. Por isso, investimos em formação, valorização e desenvolvimento”, destaca.

Um dos pilares é a Academia do Motorista, que já está na nona edição. O programa prepara motoristas com foco em segurança, tecnologia e profissionalização. Além disso, a empresa mantém uma plataforma digital de treinamento contínuo, o MotoraFlix, com conteúdos de capacitação e boas práticas. Ao mesmo tempo, iniciativas voltadas à diversidade também ganham espaço. A companhia participa de programas de formação de motoristas mulheres, com apoio durante o início da carreira. “Essas ações são fundamentais para renovar a categoria e garantir o futuro do setor”, afirma Guedes.
Mesmo com iniciativas de capacitação, o setor enfrenta desafios estruturais relevantes. De acordo com Guedes, três fatores explicam a dificuldade de contratação. O primeiro é o envelhecimento da categoria. A idade média dos motoristas no Brasil é alta, enquanto poucos jovens ingressam na profissão. Em paralelo, o custo de formação também pesa. “Habilitação, cursos e experiência exigem investimento, o que se torna uma barreira”, explica.

Ademais, problemas históricos da logística brasileira continuam afastando profissionais. Longos períodos de espera, burocracia e falta de infraestrutura em pontos de apoio impactam diretamente a atratividade da carreira. Com isso, a falta de motoristas deixa de ser apenas um problema operacional e passa a ser um entrave estratégico. A própria pesquisa mostra que a escassez de mão de obra já figura entre os principais fatores que limitam o crescimento das transportadoras.
Enquanto isso, empresas seguem investindo em tecnologia, treinamento e valorização profissional. No entanto, o setor sinaliza que será necessário um esforço conjunto. Ou seja, envolvendo empresas, entidades e políticas públicas para tornar a profissão mais atrativa. Caso contrário, o risco é claro. Mesmo com demanda por transporte, parte da capacidade continuará parada por falta de quem esteja ao volante.

Fonte: Transporte Mundial

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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