Petróleo, Gás & Energia

Fachada de prédios podem virar usina e ainda ajudar contra o calor

Estudo aponta que painéis solares em fachadas podem gerar 732,5 TWh por ano e ainda reduzir demanda de resfriamento dos edifícios

Por Hemerson Brandão

Painéis solares instalados nas paredes externas de edifícios podem fazer mais do que gerar eletricidade. Segundo um estudo publicado na revista Nature Climate Change, essa solução também pode reduzir a necessidade de resfriamento dos prédios, cortar emissões de carbono e trazer ganhos econômicos em boa parte das áreas urbanas analisadas. O resultado chama atenção porque aproveita uma superfície imensa que, até hoje, costuma ficar subutilizada: a fachada dos edifícios.
A tecnologia analisada pelos pesquisadores é chamada de FIPV (sigla em inglês para Fotovoltaica Integrada à Fachada). Na prática, trata-se de integrar painéis solares às paredes externas dos prédios. Hoje, a energia solar em áreas urbanas costuma se concentrar nos telhados. O problema é que essa estratégia deixa de lado grandes áreas verticais expostas ao sol. Em cidades densas, onde o espaço horizontal é limitado, isso representa uma oportunidade perdida. Foi esse ponto que uma equipe liderada pelo professor Yao Ling, do Instituto de Ciências Geográficas e Pesquisa de Recursos Naturais da Academia Chinesa de Ciências, decidiu investigar em escala global.
Os pesquisadores criaram um modelo global para estimar os impactos energéticos e climáticos das fachadas solares. Para isso, cruzaram dados sobre geometria dos edifícios, área exposta e condições meteorológicas. Com essas informações, o time simulou quanta eletricidade essas fachadas poderiam gerar no mundo todo. Depois, avaliou como essa instalação alteraria a demanda de aquecimento e resfriamento dos prédios.

O passo seguinte foi ligar geração e consumo hora a hora. Dessa forma, permitiu estimar não só a produção de energia, mas também os efeitos sobre emissões de carbono, adaptação climática e custos ao longo da vida útil dos sistemas. No cenário considerado mais plausível, as fachadas solares poderiam gerar cerca de 732,5 TWh de eletricidade por ano no mundo. É um volume expressivo, principalmente porque viria de superfícies que hoje quase não entram no mapa da geração distribuída.
Além disso, o estudo indica que a demanda de eletricidade dos edifícios poderia cair, em média, 8,1%. Parte desse ganho vem do efeito direto de geração. Outra parte aparece porque os painéis ajudam a reduzir a carga térmica nas fachadas, o que pode aliviar o uso de sistemas de resfriamento. Mais de 80% dos distritos simulados apresentaram redução nos gastos líquidos com eletricidade ao longo da vida útil do sistema.

À medida que o aquecimento global intensifica ondas de calor, eventos extremos e o consumo de eletricidade nas cidades, soluções urbanas com dupla função ganham peso. Nesse caso, a fachada solar não só produz energia como também ajuda o prédio a lidar melhor com o calor. Ou seja, esse tipo de estratégia pode se tornar relevante principalmente em centros urbanos, onde edifícios respondem por uma parcela importante do consumo energético e das emissões.
O estudo estima que a redução acumulada de emissões pode chegar a 37,7 Gt de CO₂ se a adoção máxima de FIPV for alcançada até meados do século. Mas os autores deixam claro que esse potencial não se realiza sozinho. Para chegar lá, serão necessárias políticas direcionadas, planejamento adaptativo e estratégias ajustadas à realidade local. Isso porque o desempenho varia conforme a forma da cidade, o clima, as características dos edifícios e as condições socioeconômicas. Ou seja, a tecnologia parece promissora. Porém, o sucesso depende de como cada cidade vai encaixá-la no mundo real.

Fonte: Giz Brasil

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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