Cultura Política

O pão e circo nosso de cada dia

Que o Brasil está indo ladeira abaixo a passos larguíssimos todos nós sabemos, ou pelo menos, deveríamos saber. Mas a verdade é que há uma grande parcela da população que ainda dorme em berço esplêndido. Inflação galopante, custo de vida insustentável, saúde e segurança públicas um caos. A educação então, nem se fale. No país das injustiças, em todas as suas vertentes, a corrupção reina em todas as esferas. Mas, ainda assim, há brasileiros levando a vida como se fosse uma festa.
E por falar em festa, no último sábado (3), o Rio de Janeiro recebeu o show de uma “estrela” pop internacional. Isso mesmo, o Rio de Janeiro de tantas mazelas e desigualdades, um retrato fiel do Brasil contemporâneo. Um estado atolado em uma das piores crises sociais da história, sequestrado pelo crime organizado e uma das piores unidades da federação nos desserviços públicos prestados ao cidadão.

Os emocionados gabam-se do gestor da capital fluminense, que proporcionou espetáculo de ‘tamanha grandeza’ gratuitamente, atraindo milhares de turistas — que consumiram e movimentaram a economia — para a cidade. No entanto, é preciso esclarecer que a presença da tal estrela internacional não saiu de graça como querem nos fazer pensar. Pelo contrário, o cachê e toda a estrutura proporcionados à estrela e ao seu espetáculo, saíram do nosso bolso, por meio dos altíssimos impostos que pagamos diariamente. Impostos estes que deveriam ser reinvestidos em saúde, educação, segurança pública, na qualidade de vida do pagador de impostos, você e eu. Tudo que o carioca, e o brasileiro em geral, não tem.

A palavra cultura deriva do latim, colere, que tem como significado literal “cultivar”, ou seja, é algo que faz bem para uma sociedade como um todo. A cultura faz bem a qualquer sociedade e é importante que o povo tenha acesso a ela. Mas, também, é preciso que o gestor público ou o agente promovedor ajam e atuem com responsabilidade, sem causar prejuízos à população na prestação dos serviços básicos e essenciais.

A Constituição Federal, em artigo 215, caput nos garante esse direito “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e difusão das manifestações culturais”. Mas o que temos visto neste Brasil atual é que a cultura tem sido tratada com um viés totalmente invertido. São tantos absurdos que é quase impossível denominá-los. Vide o despropósito de finalidade que se tornou a Lei Rouanet, que se tornou um meio legalizado de desvio de verbas públicas.

Charge: Agência RBS/Reprodução

O show em Copacabana escancara a situação medíocre e vergonhosa que vivemos em terras tupiniquins. Onde o povo é jogado na arena das injustiças e da corrupção, enquanto um seleto grupo de sanguessugas arranca-nos a última gota de sangue até deixar-nos inertes e alheios aos fatos que realmente nos interessam e aplaudamos o imponderável. Foi assim na Roma Antiga, do imperador Otávio Augusto, que instituiu a política do pão e circo, uma prática que consistia na distribuição de pão e trigo na cidade de Roma e na realização de eventos, como lutas de gladiadores e corridas de bigas no Coliseu e no Circo Máximo.

Quando uma nação carente de tudo — do essencial para a sobrevivência — aplaude um artista, um show ou um espetáculo financiados com o dinheiro que fará muita falta na saúde, no saneamento básico, na segurança e na educação, algo está muito errado com esse povo.

Do Império Romano até hoje a sociedade passou por profundas transformações, mas algumas coisas parecem que jamais mudam. Assim como a condição de vida enfrentada pelos plebeus aumentava a possibilidade de rebeliões, e a política do pão e circo buscava exatamente evitar que isso acontecesse, a nação brasileira vive a mesma situação. A comida e a diversão, ainda hoje, têm o mesmo objetivo de alienar o povo, despolitizando-o e mantendo-o alheio aos problemas da sociedade. Fazendo com que a classe mais baixa permaneça distante dos assuntos políticos, aceitando as condições de vida na qual se encontra. Esse é o Brasil atual.

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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