A nova crise do cacau brasileiro

Por Luzimara Fernandes e Haroldo Filho
O setor cacaueiro brasileiro tem passado por uma crise quase silenciosa, mas profunda, que vem se arrastando desde novembro do ano passado para desespero dos produtores. A situação vem escalonando a uma velocidade que, se nenhuma medida for tomada urgentemente, os desdobramentos serão catastróficos para toda a cadeia da cacauicultura. É um alerta que faz o presidente da Espírito Cacau, Paulo Gonçalves, sobre a entrada desordenada de cacau da África, no mercado brasileiro.
“Além da crise de preço e da bolsa de valores nós temos as indústrias pagando abaixo da bolsa, ou seja, um deságio. Isso desestimula a produção do cacau brasileiro porque nós temos um custo muito mais alto do que o produtor africano”, explica Paulo.
A disputa do cacau brasileiro com o que vem da África chega a ser desleal uma vez que, no Brasil, a legislação é bastante rígida e os produtores têm que ter muitos critérios para lançar o produto no mercado. Gonçalves acrescenta que a alta carga tributária castiga e penaliza o produtor brasileiro. Na contramão do processo nacional, as amêndoas africanas não têm comprovação de qualidade, de cuidados sanitários e do uso de mão de obra bem duvidoso. Além das questões ambientais que, no Brasil, têm uma legislação bem definida enquanto na África não se tem controle de absolutamente nada.
“Imagina você pagar R$ 800 numa saca, e ainda ter que arcar com encargos como férias, 13.º salário, Fundo de Garantia, descontados sobre essa saca de cacau e depois vêm os insumos para produzir. Além disso, tem a energia, a água tratada, tudo isso tem um custo muito maior que na África, porque lá não tem nenhuma infraestrutura, além de não ter qualidade como fermentação adequada do cacau, não tem estufa para secá-lo (eles secam até no asfalto), são essas coisas que a gente precisa olhar. Da forma como estamos caminhando, daqui a pouco o produtor, o meeiro não vão querer produzir mais cacau. Como já disse, não existe infraestrutura nenhuma é como o Brasil de sessenta anos atrás, sem estrutura de casa, sem banheiro, sem água, sem energia elétrica, a produção é precária, o processo é arcaico. Tem um ditado que diz que ‘quando começa a bater a fome num trabalhador, a primeira coisa que ele vai fazer é derrubar uma árvore para sobreviver’ e aí caímos na sustentabilidade, o lado florestal. Hoje, só temos Mata Atlântica na região de Linhares, na margem do Rio Doce, porque produzimos cacau”, cita. “Então, esse despejo indiscriminado das amêndoas africanas no mercado interno é extremamente prejudicial aos produtores brasileiros. Tudo isso tem um custo Brasil muito alto”, afirma Paulo.

O agravamento da crise na cadeia produtiva do cacau é marcada por distorções de preços, insegurança regulatória e riscos sanitários. O governo brasileiro, até agora tem tido uma ação abaixo da crítica. Embora tenha enviado uma missão técnica à África, que identificou inconsistências nos fluxos de exportação para o Brasil, culminando na decisão do Ministério da Agricultura pela suspensão das importações, só isso não elimina impactos recentes sobre preços internos.
O Ministério da Agricultura e Pecuária publicou, na última terça-feira (24), o Despacho Decisório n.º 456/2026, que determina a suspensão imediata e temporária das importações de amêndoas fermentadas e secas de cacau provenientes da República da Costa do Marfim. A decisão fundamenta-se no risco fitossanitário decorrente do elevado fluxo de grãos oriundos de países vizinhos para o território marfinense, o que possibilita a mistura de amêndoas nas cargas destinadas ao Brasil.
O presidente da Espírito Cacau explica que o mercado brasileiro tem reagido como pode para minimizar os impactos dessa situação. Ele diz apoiar, internamente, o movimento SOS Cacau Brasil, iniciativa que mobiliza produtores em defesa da cacauicultura nacional, lutando contra o “deságio” no preço do cacau, exigindo maior valorização (mínimo de 35% de teor de cacau) e denunciando importações que prejudicam a renda local. A pauta busca valorizar o produtor, garantir transparência e proteger o futuro do setor.
Estamos divulgando para os consumidores finais qual a vantagem econômica de comprar o chocolate feito com o cacau brasileiro. É importante fazer com que a cadeia produtiva una todos os lados porque isso deixa renda no seu município, no seu estado e, com isso, fazer o Brasil voltar a crescer de novo. Com o preço do cacau baixo, os grandes comércios nas regiões cacaueiras estão fechando porque não têm consumidor. O consumidor, que é o produtor de cacau, o trabalhador rural, não têm, hoje, como se sustentar”, lamenta.
A África é o maior produtor mundial de cacau. Embora o cacau seja originário da região amazônica, isso não faz do Brasil o principal produtor do mundo. O país ocupa, hoje, o sexto lugar na lista, com uma produção de 273 mil toneladas em 2022, segundo informações do IBGE. O primeiro colocado no ranking é a Costa do Marfim, com 1,85 milhão de toneladas por ano, número equivalente a 38% da produção mundial do fruto. Na sequência aparece Gana, com 600 mil toneladas. Os dados são da estimativa para a safra 2024/25 da Organização Internacional do Cacau (ICCO).
Outro ponto mencionado por Paulo Gonçalves é a característica da matéria-prima vinda da África e que incide em um produto de péssima qualidade, além da grande possibilidade de trazer pragas e doenças para a lavoura brasileira. “Além de não existir qualidade, usam inseticida sem controle, principalmente agora com o aparecimento do broto inchado, uma doença que está dizimando o cacau dos países produtores. Além de termos um cacau inviável de comer pela falta de estrutura, temos um produto altamente perigoso.
Esse é o cacau que está sendo despeado no Brasil por intermédio de grandes empresas, moageiras de cacau como a Barri, a Cagil e Olan, beneficiando e jogando para o mercado”, alerta.
O setor convive hoje com uma combinação de fatores que ameaça diretamente o equilíbrio econômico da atividade. A retração da demanda por cacau figura entre as principais preocupações. Parte desse movimento decorre de mudanças estruturais na indústria, especialmente a substituição do cacau e da manteiga de cacau por gorduras vegetais alternativas em produtos comercializados como chocolate. Em muitos casos, observa-se apenas a alteração da denominação para “sabor chocolate”, reduzindo significativamente o uso efetivo da amêndoa.
Paulo afirma que esse momento crítico da cadeia cacaueira não atinge apenas os produtores, mas, também, o consumidor final porque acaba recebendo um produto de péssima qualidade e é importante que o consumidor seja consciente. “Hoje, o que está entrando no mercado interno é palha de cacau, isso beira ao absurdo, pois o Brasil tem um cacau de excelente qualidade e essa importação desenfreada está destruindo a qualidade do nosso cacau. O produto final das amêndoas produzidas no Brasil tem valor agregado por tudo o que já foi citado acima, mas, infelizmente, as nossas políticas públicas têm sido falhas ou inexistentes”.

Espírito Santo
No Espírito Santo, terceiro maior produtor do Brasil, a situação não é diferente e requer uma atuação conjunta de poder público e produtores. É o que explica a presidente do Sindicacau ES, Maíra Wellerson.
“O impacto da importação de cacau africano na produção capixaba é profundo e desestabilizador no curto prazo, especialmente no que tange à viabilidade financeira das famílias rurais. A desvalorização da saca para níveis abaixo do custo de produção gera um risco real de abandono de lavouras e retrocesso nos avanços de produtividade conquistados na última década.
Em contrapartida, as orientações institucionais divergem para criar uma rede de proteção e evolução: enquanto o Sindicacau (Indústria) acredita na inovação, na saudabilidade e nos produtos de valor agregado visando ao mercado consumidor final, as entidades de produtores (ACAU/FAES) focam na defesa fitossanitária, na regulação das importações e na mobilização política para garantir preços justos e segurança biológica.
O futuro da cacauicultura no Espírito Santo dependerá do equilíbrio entre essas duas forças. A suspensão temporária das importações pela Costa do Marfim em 2026 sinaliza que o governo federal começou a ouvir os alertas sobre riscos sanitários. Contudo, a sustentabilidade de longo prazo exigirá que o cacau capixaba consolide sua posição como uma amêndoa de excelência, sustentável e segura, diferenciando-se definitivamente das commodities de baixo custo e alto risco provenientes do mercado internacional’, alerta Maíra.
Quanto à inspeção, o que vem sendo feito?
“Por isso, estamos esperando. Antigamente o Ministério da Agricultura ia até o país de origem para não trazer para o Brasil algo que pudesse colocar em risco a nossa lavoura, era tudo bem controlado. Além disso, todo cacau que vinha de lá passava por análise de metais pesados, química, para saber se era um produto pronto para consumo. Hoje, sinceramente, não sei como as coisas têm acontecido”, finaliza Paulo.








