O custo invisível do adoecimento mental na empresa

Por Lays Azevedo
Introdução
Quando a saúde mental se fragiliza no trabalho, o impacto raramente aparece como uma “conta” isolada. Ele se espalha em perdas pequenas e contínuas, difíceis de rastrear: decisões piores, falhas de comunicação, atrasos, conflitos e, em cenários críticos, aumento de incidentes e acidentes. Por isso, fatores de riscos psicossociais não são só tema de bem-estar, são tema de gestão de risco e de segurança do trabalho, com efeito direto na confiabilidade do negócio.
Onde o custo realmente aparece: efeitos diretos, indiretos e operacionais
Os custos diretos tendem a ser mais visíveis: afastamentos, substituições, horas extras e contratações emergenciais. Já os indiretos costumam “passar batido”, embora sejam determinantes: presenteísmo (a pessoa comparece, mas produz muito abaixo do normal), retrabalho, queda de qualidade, mais erros e desgaste do clima. Em ambientes operacionais, isso pesa ainda mais porque atenção, percepção de risco e tomada de decisão são funções sensíveis a estresse crônico, fadiga e sobrecarga.
A prevenção fica mais efetiva quando a empresa trata risco psicossocial como risco ocupacional, e não como algo “de RH”. Esse olhar puxa o foco para o desenho do trabalho: metas e prazos, autonomia, previsibilidade, papel claro, apoio da liderança, justiça organizacional e canais de escuta. É exatamente a lógica de um sistema de gestão: a ISO 45001 organiza o ciclo de planejamento, controle e melhoria contínua em SST, e a ISO 45003 detalha diretrizes para identificar, avaliar e controlar riscos psicossociais dentro desse mesmo sistema.
No Brasil, esse movimento também ganha forma regulatória: a NR-01 passou a mencionar explicitamente fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, elevando o nível de exigência sobre identificação, registro e acompanhamento das medidas. Quando isso entra no PGR com método e evidência, o ganho é duplo: protege pessoas e reduz variabilidade operacional, fortalecendo adesão a padrões críticos, aprendizagem com desvios e estabilidade de performance.
Conclusão
O “custo invisível” do adoecimento mental não é intangível: ele aparece como perda de desempenho, aumento de erros e fragilização de controles. Integrar riscos psicossociais à segurança do trabalho na organização tira o tema do discurso genérico e coloca no lugar certo: governança, gestão de riscos e melhoria contínua. Empresas que fazem isso com seriedade tendem a ser mais seguras, mais previsíveis e mais sustentáveis no longo prazo.
Referências (ABNT)
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR ISO 45001:2018: Sistemas de gestão de saúde e segurança ocupacional — Requisitos com orientação para uso. Rio de Janeiro: ABNT, 2018.
INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 45003:2021: Occupational health and safety management — Psychological health and safety at work — Guidelines for managing psychosocial risks. Geneva: ISO, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on mental health at work. Geneva: WHO, 2022.
WORLD HEALTH ORGANIZATION; INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Mental health at work: policy brief. Geneva: WHO/ILO, 2022.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-01: Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Brasília: MTE, 2025.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho. Brasília: MTE, 2025.

Lays Azevedo
Engenheira de Produção e Administradora, com pós-graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho, Ergonomia, Higiene Ocupacional e Gerenciamento de Projetos
Possui mais de dez anos de experiência no setor offshore, onde gerenciou operações de segurança em hotelaria marítima





