A guerra

O Homo sapiens, pelo que se sabe, vive em guerra desde o seu surgimento na face da Terra. Diversos fatores — entre os quais instinto de sobrevivência, medo, cobiça, violência, ódio e preconceito — são os “filhos da mãe ignorância” que levam o ser humano a pelear, atacar, espoliar, colonizar e escravizar os seus semelhantes sem dó nem piedade. No início, atacavam uns aos outros com tacapes, lanças, pedras e outros artefatos que se tinha à mão.
Segundo a lenda hebraica, Caim matou seu irmão Abel por pura inveja ao ser preterido por Deus. De lá para cá, sucederam-se as contendas tribais e as guerras entre povos e nações pelos mais variados motivos. Talvez Hobbes tenha razão ao afirmar que a natureza do homem é perversa e que “o homem é o lobo do próprio homem”, ou, segundo Rousseau, ele nasce bom e a sociedade o corrompe. Seja como for, a luta continua. Antes entre gregos e troianos; hoje, entre israelenses e estadunidenses contra iranianos.
Segundo alguns pensadores, os conflitos se acentuaram com o conceito de propriedade privada. A questão religiosa também adquire relevo quando um determinado povo se intitula escolhido por Deus — sem falar na questão da etnia e da nacionalidade, que se entrechocam em batalhas ideológicas sem fim. O quadro caótico se intensifica na medida em que se aprimora o aparato tecnológico de guerra, com armas nucleares, mísseis, foguetes e drones riscando os céus para todo lado, num descompasso gritante entre o nosso salto tecnológico e a nossa estagnação emocional.
Neste jaez, a guerra deixou de ser apenas territorial para ser identitária e digital. E eu aqui, pasmo! Do alto de minha total insignificância, fico tentando entender esta “porra toda” e pensando o que foi que deu errado. Onde foram parar os ideais de igualdade com equidade, fraternidade com justiça e liberdade com responsabilidade, tão alardeados no passado?
Para agravar a situação, não se vê uma luz no fim do túnel, na medida em que estamos em guerra com o pior inimigo de todos. Isto mesmo: estamos em acirrado conflito interno, num processo disruptivo, com uma destruição de conceitos e valores sem precedentes na história. Vibramos numa polarização doméstica, num looping sem fim, e mergulhamos de cabeça no “mundo fluido” de Bauman, onde instituições e crenças estão sendo questionadas e colocadas em xeque. Brigamos com a família, com os amigos e com os vizinhos por qualquer coisa, e nada mais está bom ou presta. Vivemos o que Freud chamava de “mal-estar na civilização”.
Mergulhamos de cabeça na era do ressentimento, sem avistar janelas para um horizonte mais alvissareiro. Planejamos viajar para Marte, mas, no íntimo, ainda permanecemos os mesmos velhos selvagens de outrora: egoístas e sanguinários. Será?





