Paleo & Arqueologia

Nora: a antiga cidade na Sardenha ocupada por romanos, fenícios e piratas

Embora seja menos conhecida que Pompeia ou Éfeso, a cidade de Nora oferece um raro panorama de ocupaões de vândalos, romanos, fenícios, cartagineses e até piratas

Por Éric Moreira

Localizada no sul da ilha da Sardenha, a antiga cidade de Nora é uma região de destaque entre estudiosos e viajantes interessados em arqueologia por oferecer um raro panorama contínuo de diferentes civilizações que ocuparam o Mediterrâneo ao longo de mais de um milênio. Embora menos conhecida do que destinos como Pompeia ou Éfeso, o assentamento preservado se destaca pela diversidade de influências culturais e pela possibilidade de observar escavações ainda em andamento.
Situada na extremidade de uma estreita península, Nora está diretamente exposta às condições naturais do litoral — vento, sol e maresia e, ao longo de sua história, também enfrentou ameaças humanas, como ataques de piratas. Sua localização privilegiada, com vista para o Mar Mediterrâneo, contribuiu para que se tornasse um importante centro comercial já no século 8 a.C. A cerca de 43 minutos de carro de Cagliari, o sítio oferece um panorama pouco comum da vida em uma cidade antiga que atravessou diferentes períodos históricos.
Grande parte das estruturas visíveis atualmente remonta ao domínio romano, entre 238 a.C. e o século 5 d.C. Entre os vestígios preservados estão um teatro, um mercado, um complexo termal, além de ruas e templos que ajudam a reconstruir a organização urbana da época. No entanto, a história de Nora é mais antiga e complexa. Antes da chegada dos romanos, a região já era habitada por diferentes povos. Durante a Idade do Bronze, a ilha foi ocupada pela civilização nurágica, conhecida por suas estruturas de pedra em formato de torre, chamadas nuragues. Embora não haja vestígios diretos dessa cultura em Nora, pesquisadores acreditam que esses grupos foram os primeiros a habitar a área.

Ruínas em Nora (Foto: Getty Images)

Segundo a guia Maria Paola Loi, uma das teorias sugere que essas populações formavam uma espécie de rede marítima no Mediterrâneo. “[Por volta da Idade do Ferro], essas culturas megalíticas desapareceram por razões inexplicáveis”, conta Loi a Hannah Singleton, do National Geographic.
A partir do século 8 a.C., Nora começou a se consolidar como um entreposto comercial fenício. Ao longo dos séculos seguintes, o controle da cidade passou por diferentes povos: fenícios, cartagineses e, posteriormente, romanos. Mais tarde, foi ocupada por vândalos no século 5, pelos bizantinos a partir de 535 d.C. e, finalmente, abandonada por volta do século 8, em meio a ataques árabes. Durante seu auge, Nora chegou a abrigar cerca de oito mil habitantes e desempenhou um papel estratégico no Mediterrâneo Ocidental. Sua posição geográfica, relativamente próxima de regiões como Itália continental, Sicília, África e Espanha, favoreceu intensas trocas comerciais e culturais. Para o arqueólogo Jacopo Bonetto, que coordena pesquisas no local desde 1990, essa característica faz de Nora um espaço privilegiado para compreender as interações entre diferentes civilizações.

Nora, como nenhuma outra cidade antiga, está a uma distância mínima entre a Itália, a Sicília, a África e a Espanha”, afirma. “Por esse motivo, é o melhor local para estudar como as relações entre diferentes culturas e civilizações construíram a história”.

Antigo teatro romano em Nora (Foto: Getty Images)

A partir da Idade Média, no entanto, a dinâmica da região mudou significativamente. A vulnerabilidade costeira tornou Nora alvo frequente de piratas vindos do Norte da África e do Mediterrâneo Oriental. Ao mesmo tempo, áreas alagadas próximas à cidade favoreceram a proliferação de mosquitos, contribuindo para a disseminação da malária. Diante dessas condições, os habitantes migraram para o interior da ilha, abandonando o assentamento.
Esse deslocamento populacional, vale mencionar, teve impactos duradouros. A cidade de Pula, localizada em uma área mais protegida, conseguiu prosperar, enquanto Nora permaneceu desabitada. A ausência de ocupação moderna sobre o sítio arqueológico acabou contribuindo para sua preservação, permitindo que grande parte de suas estruturas permanecesse intacta para estudos futuros.

Área de estudos
Desde sua redescoberta, em 1952, Nora tem sido objeto de escavações contínuas. O trabalho arqueológico no local segue ativo, revelando novos elementos sobre sua história. Diferentemente de outros grandes sítios, onde as áreas de escavação costumam ser isoladas, em Nora é possível observar os pesquisadores em atividade.
Entre as descobertas mais relevantes está um antigo cemitério do período fenício-púnico, com tumbas subterrâneas preservadas e objetos funerários intactos, como cerâmicas e joias. Bonetto descreve o achado como “o testemunho mais importante da fundação e da vida do assentamento fenício”. A necrópole é considerada única na Sardenha por ter sido escavada com métodos científicos modernos.
Outros artefatos encontrados no local, como a chamada Estela de Nora, estão atualmente expostos no Museu Arqueológico Nacional de Cagliari. Em uma das escavações, arqueólogos também encontraram um conjunto de 18 moedas de prata em excelente estado de conservação dentro de um templo romano. A continuidade das pesquisas faz de Nora um sítio arqueológico dinâmico, onde novas descobertas seguem sendo incorporadas ao entendimento histórico da região. Segundo Bonetto, trata-se de um local raro em que “a história da cidade é escrita — e reescrita — todos os dias”.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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