Cultura

O posto mal-assombrado

Hoje me lembrei, saudoso, da década de 80, quando era cadete em pleno Curso de Formação na Brigada. Tempos áureos de trabalho e estudo que contribuíram demais para a minha formação profissional e humana. Época em que conheci novos lugares e culturas, além de aproveitar para namorar um pouco e fazer belas amizades que guardo até hoje no “baú do tesouro” do coração.
Foram três anos árduos de instrução, serviço e aprendizado que ficaram registrados na memória. Mas o que mais gosto de lembrar são as histórias do aquartelamento. E esta que passo a narrar é, no mínimo, curiosa…
Havia um posto no Quartel com fama de mal-assombrado. Tinha cadete que não tirava serviço lá “nem que a vaca tossisse”! 🐄🚫 Não eram raros os relatos de colegas abordados por almas penadas de todo tipo: as descrições eram bizarras, incluindo espíritos com corpo e capuz, mas literalmente sem cabeça.
Diante do impasse, alguns companheiros preferiam pagar aos colegas mais corajosos para substituí-los quando escalados naquele lugar macabro. Lembro de uma madrugada em que um cadete entrou correndo, desesperado e aos berros no alojamento, alegando que uma alma o perseguia. Na agonia da fuga, o coitado abandonou o posto, o fuzil e o capacete! 🏃💨

Eu nunca fui muito corajoso, mas eram tempos de “vaca magra” e eu precisava de dinheiro. Lembrando do meu saudoso pai e de suas histórias de caserna, eu logo alardeava: “que medo que nada! Eu lá tenho medo de morto? Eu tenho medo é de vivo!”.
Peguei as “pratinhas” do colega temeroso e parti para mais um turno. Acontece que o local era sinistro mesmo… Era um ginásio de esportes antigo e afastado do prédio principal, pouco visitado à noite pela fama de horror. Rezava a lenda que ali funcionara um antigo paiol que pegou fogo, morrendo alguns militares queimados.
Lá estava eu, na madrugada, envolto em pensamentos e assoviando uma velha canção dos Beatles para matar o tempo e driblar o sono. 🎶
De repente, do nada, comecei a ouvir barulho de mato queimando e alguns gritos. Não havia cheiro de nada, mas, por via das dúvidas, resolvi averiguar. Engatilhei o fuzil e dei a volta no quarteirão inteiro. Nada. As histórias de assombração começaram a martelar na mente e confesso que já estava meio “acabrunhado”. Logo depois, ouvi sons de equipamentos de ginástica sendo usados. Eu pensava: “como pode isso, em plena madrugada, com o ginásio totalmente fechado?”. 🏋️♂️👻

Distraído em minhas cogitações, quase morri do coração quando uma mão tocou meu ombro e uma voz grave perguntou.
“Tudo bem aí, aluno?”.
As pernas tremeram e senti a alma abandonando o corpo! Já me preparava para correr quando a voz arrematou: “fica frio, sou eu, o rondante!”. 👮♂️
P*** que pariu! O fiscal quase me matou de susto!
Depois, é claro, fui muito zoado ao relatar o ocorrido para os colegas, que deram muitas risadas. Mas, por via das dúvidas, também preferi não tirar mais serviço naquele lugar esquisito. Não que eu tenha medo de espíritos… mas o seguro morreu de velho! 😂
E você? Teria coragem de tirar serviço à noite, sozinho, no posto do ginásio mal-assombrado?

Mário Vieira

Capixaba, casado, autor e advogado

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