Chile quase trocou Ilha de Páscoa com nazistas na Segunda Guerra
O presidente Arturo Alessandri tentou negociar a ilha dos Moais com a Alemanha e o Japão para reforçar o arsenal aéreo chileno na pré-guerra
Por Edgardo Martolio
Militarmente, o Chile fortaleceu a Marinha e, durante toda a guerra, temendo um ataque japonês que nunca aconteceu, protegeu as ilhas de Páscoa e Juan Fernández, distantes 3.700 e 670 quilômetros de Valparaíso, na costa continental chilena, respectivamente. Páscoa esteve nos planos bombardeiros do Japão, em 1942, mas não foram levados adiante. A ilha era considerada um ponto estratégico vital no Pacífico Sul, funcionando como uma sentinela avançada que poderia servir de base de reabastecimento para frotas transoceânicas.
A propósito da ilha Rapa Nui, o nome indígena de Páscoa, dois anos antes da guerra, em 1937, ela quase foi traspassada à Alemanha nazista, após também ser oferecida aos EUA, que tinham o hábito de comprar ilhas, como fizeram em 1917 com as Virgens do Caribe (Saint Thomas, Saint John e Holy Cross), adquiridas à Dinamarca por US$ 25 milhões. A negociação das Ilhas Virgens serviu de precedente histórico para que o governo chileno considerasse o território insular como um ativo financeiro e diplomático em tempos de crise.
Oferta a Hitler
Nesse ano de 1937, o Chile comprou 29 aviões militares da Itália e 36 da Alemanha, e pretendia adquirir mais dois cruzeiros para reforçar seu arsenal aéreo. O presidente Arturo Alessandri propôs ao Terceiro Reich como moeda de câmbio a ilha dos Moais, mas Hitler não aceitou e foram oferecidas ao Reino Unido e ao Japão, que também rechaçaram a oferta. A recusa alemã deveu-se, em parte, à análise técnica de que a manutenção de uma base tão isolada exigiria um suporte logístico naval que a Alemanha ainda não possuía no Hemisfério Sul.
O subsecretário de Relações Exteriores da época, Benjamin Cohen, foi um dos articuladores dessas sondagens silenciosas. O governo de Arturo Alessandri enfrentava uma pressão interna severa para modernizar as Forças Armadas sem desequilibrar o orçamento nacional, que ainda se recuperava dos efeitos da Grande Depressão. A ideia de ceder a soberania de um território tão distante parecia, aos olhos da cúpula chilena, um sacrifício aceitável em nome da segurança do continente.
Prisões e exílio
E por aí ficou tudo. Já a ilha de Juan Fernández, popularizada pelo romance “Robinson Crusoe” de Daniel Defoe, foi utilizada pelo Chile em vários momentos da história como prisão de dissidentes (Páscoa, antes de ser turística, também chegou a ter esse uso). O isolamento geográfico dessas ilhas as tornava locais ideais para o confinamento político, longe dos olhos da opinião pública e de possíveis tentativas de resgate. Historiadores apontam que, durante o período colonial e os primeiros anos da República, figuras que desafiavam a ordem estabelecida eram enviadas para as cavernas e acampamentos de Juan Fernández.
A referência de Daniel Defoe baseou-se na história real de Alexander Selkirk, um marinheiro escocês que sobreviveu quatro anos em isolamento absoluto na ilha. Esse caráter inóspito e solitário reforçava a função penal que o governo chileno atribuía a esses territórios. Durante a Segunda Guerra Mundial, o medo de que espiões do Eixo ou prisioneiros de guerra pudessem utilizar as ilhas como pontos de apoio levou a um monitoramento constante, embora a infraestrutura local permanecesse precária e dependente dos navios de suprimento vindos de Valparaíso.
Geopolítica do Pacífico
A expansão do interesse japonês pelo Pacífico forçou o governo chileno a uma neutralidade equilibrada até quase o final do conflito. Documentos diplomáticos revelam que a oferta de Páscoa ao Japão, embora breve, causou calafrios nos estrategistas de Washington, que viam com horror a possibilidade de uma base japonesa a poucos milhares de quilômetros do Canal do Panamá. O Japão, focado em suas campanhas na China e no Sudeste Asiático, considerou a proposta de Arturo Alessandri geograficamente inviável para o momento.
O episódio da tentativa de venda de Rapa Nui permanece como uma das notas de rodapé mais curiosas da diplomacia sul-americana. Ele ilustra como países periféricos tentaram navegar as águas turbulentas da pré-guerra, usando todos os recursos disponíveis — inclusive seu próprio patrimônio geográfico — para garantir sobrevivência e poder de fogo. Hoje, os Moais que Arturo Alessandri quase entregou a Hitler permanecem como patrimônio da humanidade, protegidos não por aviões alemães, mas por sua própria história milenar.
Fonte: Aventuras na História







