Petróleo, Gás & Energia

Ouro negro, a força dos campos maduros que voltam a produzir riqueza

A produção de petróleo onshore no Brasil concentra-se em campos maduros, principalmente no Nordeste e no Espírito Santo

Enquanto os olhos do mundo se voltam para as águas ultraprofundas do pré-sal, uma revolução silenciosa e acelerada acontece sob o solo firme do interior brasileiro. O ‘boom’ do petróleo onshore (em terra) não é apenas sobre recordes de extração; é sobre a ocupação estratégica de espaços deixados por gigantes, a eficiência de operadoras independentes e, acima de tudo, o renascimento econômico de regiões que aprenderam a extrair prosperidade de cada gota de óleo recuperada.
A produção de petróleo onshore no Brasil concentra-se em campos maduros, principalmente no Nordeste (BA, RN, SE, AL) e no Espírito Santo, utilizando tecnologias específicas e de menor custo que o offshore. A produção em terra de petróleo e gás natural vem crescendo no Espírito Santo. Atualmente, o Estado possui a 5.ª maior reserva de petróleo e a 8.ª maior de gás natural onshore do país.
A extração no solo capixaba está concentrada em quatro municípios do nordeste: Conceição da Barra, São Mateus, Jaguaré e Linhares. Os dados são do Anuário de Petróleo e Gás Natural do Espírito Santo, produzido pelo Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), com o apoio do Fórum Capixaba de Petróleo, Gás e Energia.
O setor vive uma fase de revitalização de poços, principalmente na Bahia, no Espírito Santo, no Rio Grande do Norte e em Sergipe. A produção brasileira de petróleo e gás natural nos campos terrestres deverá crescer 29% até 2028 em relação a 2024, conforme projeção da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Para explanar mais sobre o tema e a importância do setor para o desenvolvimento do país, a Aço5.0 traz uma entrevista exclusiva com Caetano Machado, 53 anos, CEO da Mandacaru Energia e presidente do Grupo Ubuntu. Casado e pai de dois filhos, Caetano formou-se na primeira turma de petróleo do Brasil, em 1997, no município de Campos de Goitacazes/RJ, na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), e já atuou como professor universitário e de ensino médio. Pela Petrobras internacional, trabalhou em alguns países africanos como Angola, Líbia, Nigéria e África do Sul.
Em 2000, voltou para o Brasil para trabalhar na PetroReconcavo, quando estava iniciando, junto à Petrobras, no contrato de curva básica de produção, dando início à sua trajetória na exploração de petróleo em terra. Dois anos depois seguiu o caminho do Onshore quando aceitou a posição de gerente de operações na Koch Petróleo, empresa que operava os ativos de Ponta do Mel e Redonda na pequena cidade de Areia Branca no RN. Após o nascimento de seu primeiro filho, e por decisão familiar, voltou ao Rio de Janeiro para trabalhar na Smith International como engenheiro de campo em algumas atividades offshore.

Em 2010 a Schulumberger adquiriu a Smith, onde novas oportunidades o levaram a diversos países da América Latina, como Colômbia, Peru e Trinidad. Em 2012, foi para os Estados Unidos, também pela Schulumberger para ser gerente no onshore nos EUA/Canadá para entender a cadeia do onshore verdadeiro e pujante que os USA oferecem.
A experiência internacional, segundo Caetano, serviu como referência para ver como ainda estamos atrasados em relação aos maiores países produtores. “Para efeito de comparação, só o estado do Texas, nos EUA, na Bacia do Permiano, tem mais de um milhão de poços perfurados e o Brasil tem menos de 30 mil em todo o território, sendo menos de 10 mil em operação. Estamos vivendo hoje uma fase que eles viveram há cerca de 40 anos, na qual as grandes companhias passavam ativos de menor produção, de menor lucratividade e de maior dificuldade operacional para as empresas menores, que são os ‘junior oils’”, compara.
Quando retornou ao Brasil, Caetano juntou-se a Leonardo Pacheco, hoje um dos seus sócios, que achou que era hora de empreender e, assim, nasceu a Mandacaru Energia. Inicialmente era uma consultoria na área de engenharia e serviços, mas, em 2016, subiram mais um degrau, tiveram a oportunidade de comprar campos maduros e marginais, ativos que não tinham donos, da ANP. Naquele momento, os sócios estavam à procura de oportunidades e acabaram juntando-se a outros dois interessados, Peter Jackson e Cezar Pinheiro, o que possibilitou aquisição de dois campos marginais, um no norte do Espírito Santo, chamado Rio Mariricu, na região de São Mateus e outro no Rio Grande do Norte, numa cidade chamada Pendências.
Como o Espírito Santo é um estado que tem uma característica especial, em que só a Petrobras operava, acabou gerando uma certa dificuldade, mas o grupo acabou fazendo boas parcerias com órgãos ambientais estaduais e, seguindo todas as exigências, conseguiu as licenças necessárias para as intervenções no poço de São Mateus.
Com muito esforço e investimentos, hoje, a Mandacaru tem uma força de trabalho com dezesseis pessoas no ativo de Mariricu, que só não avançou mais porque a Petrobras fez um desinvestimento no Espírito Santo que acabou vendendo o pacote inteiro para uma empresa com capital internacional, que opera até hoje. O que impediu a Mandacaru de ter mais ativos na região e levou-a a focar mais no Rio Grande do Norte (RN). “Atualmente, são os dois estados nos quais operamos, com mais ativos no RN”, diz Caetano.
Caetano explica que a empresa tem classificação “C” da ANP. Com dois blocos exploratórios e 15 concessões operadas onshore, ou seja, são 17 ativos junto à ANP, no qual respondem como operadores. No mar (offshore), no Parque dos Doces, tem 23,5% de participação, mas a operação é da BW Energia. Trata-se de um consórcio que deve iniciar as operações de produção em 2030 ou 2031.

(Foto: Unsplash)

Quais as dificuldades enfrentadas pelos produtores independentes no Brasil?
Veja, além da falta de capital de investimento, o crédito, junto aos bancos, é difícil. Os bancos brasileiros não oferecem linhas de crédito para reserva que tem debaixo da terra, diferentemente de outros países, que as oferecem. Posso ir ao banco e dizer que temos mais de 10 milhões de barris em reservas 1P e a pergunta que eles fazem é: ‘quanto a empresa faturou no ano passado, se pode ver o balanço patrimonial’, ou seja, a reserva não é garantia para os bancos brasileiros.
Outra situação é que não perfuramos poços, compramos ativos com poços que já produziram e que não estão produzindo mais e, ao adquiri-los, fazemos com que eles voltem a produzir. Para isso, é necessário um equipamento chamado sonda de produção terrestre (SPT), uma ferramenta que retira e coloca tubos, entra e limpa os poços, tudo isso a 500, 700, 2000 ou até 2500 metros abaixo da terra. O risco de um poço parar por questões operacionais é muito grande e, se isso acontecer, a produção para imediatamente, elevando o custo e reduzindo o fluxo de caixa.
A ausência de profissionais competentes para operar, que acreditem no projeto e que não tenham uma visão imediatista de retorno é outra dificuldade que enfrentamos. O Brasil ficou sem formar profissionais por muitos anos. A Petrobras era a grande operadora e, durante muito tempo, houve uma defasagem na formação de mão de obra onshore porque, para a estatal, a produção offshore era mais rentável.
Nossa empresa vem conseguindo preencher essa lacuna porque sempre encontramos pessoas boas e competentes e fazemos com que elas acreditem que, um dia, possam fazer mais. Temos uma rotatividade de profissionais muito pequena porque a escolha é feita a dedo. Buscamos pessoas que gostam de pessoas, somos um grupo de gente que gosta de gente. Sempre que tenho oportunidade, digo que “gente precisa de gente para ser gente melhor”.
O meu diretor de operações, Alexandre Gonçalves, que chamamos carinhosamente de Biro-Biro, mora em Mossoró, onde está a minha maior operação, ele é um cara que está comigo há 20 anos, foi meu aluno na faculdade e acreditou no projeto. Começou como engenheiro estagiário e hoje é o diretor de operação. A maioria dos nossos engenheiros são formados pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Campus de São Mateus.
No Espírito Santo, especificamente, temos dificuldade de produzir. Existem blocos exploratórios que são blocos que não têm poço, precisaríamos perfurar, o que exige CAPEX intenso e que tem um prêmio muito maior, mas o risco também é muito grande. Pode ser uma reserva muito interessante, mas, também, ser um poço seco, composto de água pura. Nosso negócio não tem espaço para especulação, tudo precisa ser muito controlado.

Quais as oportunidades existentes no estado capixaba?
O Espírito Santo é uma região espetacular para fazer negócios, tem uma estrutura onde os órgãos de governo funcionam muito bem para o nosso tipo de operação, seja o ambiental ou de suporte. Temos uma boa relação com os bancos de fomento, apesar de nunca ter conseguido efetivar um projeto com o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), mas existe uma boa relação entre nós. É um estado estruturado, que pode fazer muito mais. Tenho orgulho de ser capixaba e admiro muito a forma que os capixabas recebem os produtores de petróleo.

Poderia falar um pouco dos avanços regulatórios?
O Brasil cobra igualmente a taxa de licenciamento ambiental tanto de um poço que produz cinco barris quanto ao que produz mil barris de óleo. Acredito que, se mantivermos essa cultura de não ter tratamento especial aos poços de baixa produtividade, a gente cria uma dificuldade operacional e acaba tirando esses poços que produzem cinco barris e que geram empregos e pagam royalties, geram receita para os municípios, além de oferecer segurança ambiental tanto quanto os de maiores produtividade.
Quando você tem um campo de baixa lucratividade, que está à margem da economicidade e não trata-o como campo marginal, reduzindo custo operacional, fica inviável explorá-lo. Os campos, hoje, produzem com mais de 90% de água, de cada carreta com 200 barris de produção total, só 10% são óleo. Para eu produzir 40 barris de óleo, eu produzo 12 vezes de água. Nesse processo, preciso tratar a água e a operação se torna de alto custo. Qualquer redução de custo na operação nesses campos, você aumenta a vida útil do ativo e mantém a cultura de produção por mais tempo gerando riqueza regional.
Atualmente, têm alguns trabalhos em andamento e a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo (Abpip) — da qual sou conselheiro, e Márcio Félix, o presidente — está atenta. Talvez, zerar ou reduzir o valor de royalties pode ser um bom caminho. Se você tira 5% ou 10% dos custos, que são de royalties, você aumenta a longevidade do campo, consegue antecipar a produção, paga royalties ao superficiário, mantém os poços com licença e paga mais gente, paga os impostos, ou seja a roda financeira gira. É importante frisar que esses poços estão localizados em alguns dos municípios de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país. Imagina São Mateus, Linhares, Pendências e o agreste do Rio Grande do Norte sem produção de petróleo?
Acredito que as discussões seriam redução de taxas ambientais, simplificação de financiamentos, bancos de fomentos com uma linha de crédito específica, para eliminar as garantias que são tão exigidas em financiamento a longo prazo, e colocar nossas concessões e reservas como garantia. Precisamos de incentivos do governo para ter acesso aos recursos de capital para ampliarmos as operações.

Sustentabilidade é custo ou oportunidade?
Acho que não dá mais para discutirmos nenhum tipo de operação industrial sem discutir ESG. Todas as nossas operações de hoje são montadas considerando a relação de governança, ambiental e social. Anos atrás não existia essa clareza, montávamos o projeto e, só depois, íamos ver como nos adequar à regulação. Como eu ia me adequar à sustentabilidade, à regionalidade dos moradores próximos, ao comércio, ao governo local e aos empresários? Hoje, o projeto tem que contemplar todos esses elementos num grande núcleo que está sempre andando com você até o final.
É muito claro que, quanto mais robusta for a operação, maior a facilidade teremos de cumprir com a nossa obrigação de respeito à ESG.

(Foto: Magnific)

Que oportunidade você enxerga para engenheiros, técnicos e empresas especializadas?
Esse, é o assunto do momento, porque os ativos que foram da Petrobras ficaram algum tempo sem manutenção, sem inspeção, sem um programa de segurança industrial adequado. Tem a questão da segurança industrial, operacional, pessoal, regional, ambiental, social, ou seja, essa parte da segurança está toda ligada à integridade dos ativos e para recuperar toda essa estrutura você precisa, necessariamente, de recursos e pessoas competentes.
Temos uma relação muito boa com a Ufes. Patrocinamos eventos de engenharia, dou palestras, tenho parceria com os alunos, levo estagiários e engenheiros formados para outras operações da nossa empresa. Muitas vezes, a nossa limitação de produção é infraestrutural, não é nem a reserva de petróleo.

Qual o conselho você daria para as empresas brasileiras que desejam se posicionar como fornecedoras estratégicas para os produtores independentes?
Essa pergunta é muito relevante. Sempre me perguntam nos eventos como eles podem fornecer para a Mandacaru ou outra empresa independente. Respondo que a primeira coisa é estudar o que fazemos. Os fornecedores do onshore não tinham uma cultura muito boa porque a Petrobras fazia todos os processos de determinado produto e dizia o que queria, devido à sua grande estrutura.
Mas, nós, produtores independentes, não temos grande estrutura, precisamos de parcerias que resolvam os problemas. Nós não precisamos de alicates da Nasa, precisamos de praticidade e custo baixo. De uns anos para cá melhorou muito, os fornecedores de campos maduros precisam entender os problemas da operação e nos trazer soluções.
Não conseguimos dar atenção para todos, mas os que insistem, perseveram e são resilientes, entendem o que a gente faz, e estão fornecendo para os produtores independentes. O detalhe é, venha me fornecer, persista, porque, de fato, nem sempre na primeira conversa você consegue, se qualifique nas oportunidades que tem. Hoje já há qualificações em instituições como o Senai e Sebrae. O Sistema S, no geral, já tem muita qualificação de fornecedores, é interessante utilizar isso. Eu participo de várias etapas e eventos que discutem isso. Tragam para nós, produtores, se qualifiquem, mas, principalmente, entendam as nossas necessidades.

Qual a mensagem você deixa para os empresários do ES?
Acredito muito no Espírito Santo. Faço parte de um grupo de empresários capixabas chamado IntegrES e esse grupo vem buscando novas oportunidades no estado. Os capixabas são pessoas muito competentes e interessadas, que conhecem a operação. O estado é perfeito para desenvolvermos novos negócios. De todas a federações brasileiras diria que, sem dúvida nenhuma, a capixaba é a mais preparada para receber novas oportunidades. Os empresários são muito legais, são interessados e conseguem encontrar gente capaz e competente para fazer acontecer. Têm universidades fantásticas. Se melhorarmos um pouco mais essa parte do fomento, o estado tem tudo para voar.

Haroldo Filho

Jornalista – DRT: 0003818/ES Coordenador-geral da ONG Educar para Crescer

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