Liderança e riscos psicossociais, o papel dos gestores na prevenção

Por Lays Azevedo
Os riscos psicossociais têm ganhado espaço nas agendas de Saúde e Segurança no Trabalho por afetarem, simultaneamente, pessoas e resultados. Em muitos ambientes, não são as máquinas ou os agentes químicos que iniciam o problema, mas o modo como o trabalho é organizado e conduzido no dia a dia. Nesse ponto, a liderança ocupa uma posição decisiva: a forma como gestores definem prioridades, distribuem demandas, dão feedback e lidam com conflitos pode reduzir tensões ou, ao contrário, ampliar fatores de estresse, insegurança e adoecimento. Assim, tratar riscos psicossociais como parte do gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO) implica reconhecer que liderança é uma barreira de prevenção, capaz de influenciar segurança, engajamento e saúde mental.
Estilos de liderança e seus efeitos sobre segurança e saúde mental
A liderança impacta o risco psicossocial principalmente por três vias: clareza, justiça e suporte. Quando o gestor comunica expectativas com coerência, organiza o trabalho de modo previsível e mantém critérios transparentes, o trabalhador tende a perceber maior controle e estabilidade. Esse cenário favorece engajamento e reduz a carga mental gerada por incerteza e retrabalho. Por outro lado, lideranças com comunicação ambígua, mudanças constantes de prioridade, cobrança sem critério e foco exclusivo em resultado de curto prazo tendem a aumentar ansiedade e sentimento de impotência, ampliando risco de esgotamento e conflitos.
Do ponto de vista da segurança, estilos de liderança também interferem na qualidade das decisões. Em ambientes com liderança punitiva, é comum que incidentes e quase incidentes sejam subnotificados, o que enfraquece o aprendizado organizacional e reduz a capacidade de prevenção. Já lideranças que estimulam diálogo, tratam erros como oportunidade de melhoria (sem perder o rigor) e praticam presença em campo constroem confiança. Com confiança, surgem informações reais sobre condições de trabalho, desvios e fragilidades de barreiras, permitindo ação preventiva com mais precisão.

A literatura de SST e comportamento organizacional sugere que lideranças eficazes para prevenção combinam: apoio ao trabalhador, consistência de regras, participação na solução de problemas e equilíbrio entre metas e recursos. Na prática, isso significa ajustar demandas ao dimensionamento, garantir pausas e revezamentos quando necessários, reduzir ruídos de comunicação entre turnos, dar feedbacks objetivos e reconhecer comportamentos seguros. Também significa preparar lideranças para conversas difíceis — por exemplo, ao identificar sinais de fadiga, irritabilidade persistente, queda de desempenho ou isolamento. Nesses casos, o papel do gestor não é “diagnosticar”, mas encaminhar, apoiar e ajustar o trabalho, articulando RH, SESMT e canais de suporte.
Para integrar liderança à prevenção no GRO, é recomendável tratar o tema com método: incluir riscos psicossociais na avaliação de riscos; definir responsabilidades claras por nível hierárquico; capacitar gestores em comunicação, gestão de conflitos e fatores psicossociais; e acompanhar indicadores como rotatividade, absenteísmo, horas extras, clima, queixas formais, além de indicadores de segurança (relato de quase incidentes, participação em diálogos de segurança, qualidade de tratativas). Dessa forma, a liderança deixa de ser um fator “intangível” e passa a ser um elemento gerenciável no sistema.
Conclusão
A prevenção de riscos psicossociais depende de processos, mas se concretiza no cotidiano da gestão. Estilos de liderança que combinam clareza, justiça e suporte tendem a fortalecer confiança, engajamento e segurança, reduzindo fatores associados ao adoecimento. Em sentido oposto, lideranças inconsistentes e centradas apenas em pressão por resultados podem ampliar estresse, fragilizar a comunicação e reduzir a aprendizagem após desvios. Ao reconhecer a liderança como barreira preventiva e incorporá-la ao GRO com critérios, capacitação e indicadores, a organização avança para um modelo mais maduro: aquele em que performance e saúde caminham juntas.

Referências
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YUKL, G. Leadership in organizations. 8. ed. Boston: Pearson, 2013.

Lays Azevedo
Engenheira de Produção e Administradora, com pós-graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho, Ergonomia, Higiene Ocupacional e Gerenciamento de Projetos
Possui mais de dez anos de experiência no setor offshore, onde gerenciou operações de segurança em hotelaria marítima




