Ksar Draa, a misteriosa cidadela localizada no meio do Deserto do Saara

Ksar Draa representa um grande mistério: não se sabe ao certo quem a construiu, nem mesmo quando foi erguida
Por Giovanna Gomes
A pequena cidade de Ksar Draa é cercada de mistérios. Pouco conhecida pelo público, essa antiga fortaleza argelina localizada no meio do Deserto do Saara, especificamente na província de Timimoun, chama atenção por sua estrutura circular monumental. E não para por aí: ninguém sabe ao certo quem a construiu, nem mesmo quando foi erguida ou por que acabou abandonada.
Visto de longe, o local mais parece uma miragem emergindo da areia. Construída com argila, areia, palha e pedra, a estrutura revela um nível impressionante de planejamento e engenharia: as muralhas possuem mais de nove metros de altura e cerca de dois metros de espessura, características que ajudariam tanto na proteção contra invasores quanto contra as violentas tempestades de areia e o calor intenso do deserto. Outro detalhe que chama atenção de pesquisadores é que Ksar Draa possui apenas uma entrada principal, o que tornaria o local muito mais fácil de defender.
Hoje, o interior da cidadela está reduzido a ruínas, mas arqueólogos e historiadores acreditam que o espaço já tenha abrigado residências, cozinhas comunitárias, escolas e uma grande mesquita. Ainda assim, não há quase nenhuma certeza sobre o local. Mesmo sua idade é uma grande incógnita. Especialistas acreditam que Ksar Draa tenha pelo menos 700 anos, embora possa ser ainda mais antiga. O problema é que não existem inscrições, documentos ou hieróglifos capazes de revelar sua origem ou função original.
Pistas encontradas
O próprio nome do local oferece algumas pistas. Como explica uma matéria do portal All That’s Interesting, “Ksar” é um termo usado no Norte da África para designar aldeias fortificadas tradicionais, especialmente associadas aos berberes, povo que habita a região há milhares de anos. A fonte destaca que esses assentamentos normalmente eram compostos por casas interligadas, depósitos comunitários e estruturas defensivas. Ao mesmo tempo, a palavra também pode ser traduzida do árabe como “castelo” ou “fortaleza”, e essa definição parece combinar perfeitamente com Ksar Draa.
Apesar disso, a estrutura foge bastante do padrão de outros ksares conhecidos. Enquanto muitos assentamentos berberes foram construídos em regiões montanhosas e possuem aparência semelhante à de conjuntos de casas agrupadas, Ksar Draa se destaca por seu formato circular quase perfeito e por sua localização isolada em pleno Saara.

Essas diferenças alimentaram inúmeras teorias ao longo dos anos. Uma das hipóteses sugere que Ksar Draa poderia ter funcionado como uma prisão. Cercada por dunas aparentemente intermináveis e protegida por muralhas gigantescas, a fortaleza tornaria praticamente impossível qualquer tentativa de fuga. Outros estudiosos, porém, acreditam que o local talvez tenha sido uma comunidade adaptada às condições extremas do deserto. Nesse cenário, as muralhas serviriam para proteger os moradores do clima hostil e dos ataques de saqueadores. Há ainda uma terceira teoria bastante aceita entre pesquisadores: a possibilidade de Ksar Draa ter sido um caravanserai.
Os caravanserais eram grandes hospedarias fortificadas construídas ao longo das rotas comerciais do mundo islâmico e asiático. Funcionavam como pontos de descanso para mercadores, peregrinos e viajantes que cruzavam desertos durante longas jornadas.
Esses locais costumavam possuir paredes altas, apenas um portão de acesso e áreas internas destinadas a armazenamento de mercadorias, estábulos, dormitórios e espaços de oração. Se realmente foi um caravanserai, a fortaleza teria desempenhado papel fundamental nas antigas rotas comerciais do Saara. Viajar pelo deserto era extremamente perigoso. Além das temperaturas escaldantes e da falta de água, caravanas precisavam lidar com tempestades de areia e o risco constante de ataques. Nesse contexto, um ponto seguro como Ksar Draa seria valioso para qualquer viajante.
Abrigo para comunidades judaicas?
Existe ainda uma hipótese ligada à perseguição religiosa. Alguns pesquisadores suspeitam que a fortaleza possa ter servido de abrigo para comunidades judaicas perseguidas durante períodos de instabilidade no Norte da África. No século 15, o estudioso islâmico Muhammad al-Maghili liderou campanhas contra populações judaicas na região, forçando muitas famílias a fugir. É possível que algumas delas tenham buscado refúgio em lugares isolados no meio do deserto — e nossa cidadela poderia ter sido um desses locais. Mas nenhuma dessas teorias foi comprovada.
Fonte: Aventuras na História





