Ciência Comportamento & Equilíbrio

Treino pode fazer o cérebro realizar duas tarefas ao mesmo tempo

Pesquisadores identificaram que o treino intenso move o processamento de tarefas do córtex pré-frontal para o córtex temporal, permitindo execução simultânea de atividades e desafiando a teoria de alternância de atenção

Pesquisadores da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, identificaram como o cérebro se reorganiza fisicamente ao longo da prática intensiva de uma habilidade, permitindo que tarefas bem treinadas sejam executadas de forma automática e simultânea a outras atividades. O estudo desafia a ideia consolidada de que humanos não são capazes de realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo, mas apenas alternam a atenção entre elas em alta velocidade.
Os resultados foram publicados no Journal of Cognitive Neuroscience. A descoberta pode ampliar o entendimento sobre como hábitos se formam, por que certos comportamentos são difíceis de abandonar e como sistemas de inteligência artificial poderiam aprender de forma mais eficiente a partir de conhecimentos já adquiridos.

Como o treino muda os circuitos cerebrais
No experimento, voluntários foram instruídos a classificar imagens de carros com variações sutis em duas categorias. Cada participante completou mais de 30 mil tentativas de classificação ao longo de cinco a 10 semanas, usando um aplicativo no celular desenvolvido em formato de jogo. A equipe realizou exames de fMRI e EEG nos participantes antes e depois do período de treinamento.
No início do processo, a tarefa ativava principalmente o córtex pré-frontal, região associada ao planejamento, ao raciocínio e às decisões conscientes. Por processar predominantemente uma demanda cognitiva por vez, essa área é considerada um dos principais limitadores da multitarefa. Após semanas de prática, o padrão de ativação havia mudado. A classificação das imagens passou a ser processada principalmente pelo córtex temporal, região ligada à memória e ao reconhecimento de objetos complexos.

Estudos anteriores mostraram que partes do córtex temporal podem ser ativadas por categorias específicas de objetos em observadores experientes, pássaros, carros, até Pokémon, mas uma limitação de todos esses estudos é que eles só observaram as pessoas depois que já se tornaram especialistas. O ponto forte deste estudo é que ele é longitudinal. Medimos antes e depois do treinamento, então podemos ver que o treino extensivo essencialmente criou uma área seletiva para a categoria no lobo temporal que não existia antes”, afirmou Patrick Cox, doutor em psicologia e primeiro autor do estudo, hoje professor assistente na Universidade Lehigh, nos EUA, ao Science Daily.

Multitarefa real e implicações práticas
Os pesquisadores constataram que as informações processadas na nova área seletiva do córtex temporal conseguiam contornar o córtex pré-frontal e chegar diretamente às regiões do cérebro responsáveis por gerar respostas. Quanto mais a tarefa de classificação era “transferida” para fora do córtex pré-frontal, melhor os participantes desempenhavam uma segunda atividade ao mesmo tempo.

A experiência remodela o cérebro para contornar esse gargalo frontal. O córtex pré-frontal fica livre para o que mais você quiser fazer, aumentando sua capacidade”, explicou Maximilian Riesenhuber, doutor em neurociências, professor da Georgetown University School of Medicine e codiretor do Center for Neuroengineering.

Um radiologista que classifica massas em um raio-X como benignas ou malignas de forma quase automática, sem deliberação extensa, exemplifica o mecanismo identificado no estudo. A habilidade, após anos de treinamento, migra para circuitos menos dependentes do controle consciente.
Esse mesmo mecanismo ajuda a explicar por que hábitos indesejados são tão difíceis de abandonar. “O primeiro passo para desaprender algo é entender onde isso está acontecendo no cérebro”, declarou Riesenhuber. “Isso mostra por que estratégias como dizer a alguém para pensar em outra coisa não funcionam de verdade, porque a pessoa não tem o comportamento sob controle consciente”.

Próximos passos da pesquisa
A equipe pretende investigar quais sinais cerebrais determinam a migração do aprendizado de uma região para outra e quais tipos de tarefas podem eventualmente ser realizadas em paralelo.

Uma questão realmente interessante é que tipos de tarefas podem ser aprendidas bem o suficiente para serem feitas em paralelo”, afirmou Cox. “Podemos andar e mascar chiclete ao mesmo tempo, mas olhar para o celular para enviar mensagens enquanto dirigimos nunca será seguro, porque tiramos os olhos da estrada. Tudo se resume a conseguir treinar circuitos neurais completamente separados para que duas tarefas se tornem compatíveis”.

Fonte: Giz Brasil

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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