Comportamento & Equilíbrio

TRG: a terapia que está mudando a forma de compreender a dor emocional — Parte 12

O sofrimento pode marcar sua história. Não precisa continuar definindo seu destino

Por Michel JC Brugnoli

Há dores que mudam uma vida.
Algumas chegam de forma abrupta.
Outras se instalam devagar.
Algumas ferem em silêncio.
Outras se repetem até parecerem normais.
Há dores que atravessam a infância, atravessam vínculos, atravessam perdas, atravessam rejeições, atravessam medos, atravessam o corpo, atravessam anos.
E quando permanecem tempo demais, deixam de parecer apenas experiências.
Passam a parecer identidade.
A pessoa já não diz apenas: “eu vivi isso”.
Ela começa a dizer:
Sou isso.
Sou ansioso.
Sou quebrado.
Sou difícil.
Sou instável.
Sou fraco.
Sou assim.
E talvez esse seja o efeito mais cruel do sofrimento prolongado, não apenas ferir.
Mas convencer.
Convencer o sujeito de que sua dor não foi algo que aconteceu.
Foi algo que ele se tornou.
É nesse ponto que o sofrimento deixa de ser apenas dor.
E se torna destino.
Mas não precisa.
Essa é, talvez, a ideia mais importante de toda esta jornada.
O sofrimento pode marcar.
Mas marcar não é o mesmo que definir.
Essa distinção muda tudo.
Sim, experiências deixam marcas.
Sim, vínculos ferem.
Sim, traumas reorganizam respostas.
Sim, a dor muda o corpo, o medo, a forma de perceber, reagir e se proteger.
Negar isso seria ingenuidade.
Mas absolutizar isso é desistir cedo demais.
Ser marcado não significa ser condenado.
Ser ferido não significa ser definido pela ferida.
Ter sofrido não significa estar destinado a repetir eternamente a lógica do que feriu.
Essa é a fronteira entre memória e destino.
E é justamente aí que a transformação se torna possível.
A dor pode explicar muito.
Mas não precisa continuar governando tudo.
Esse talvez seja o ponto mais importante de maturidade emocional.
Compreender a própria dor é importante.
Nomeá-la é importante.
Reconhecê-la é importante.
Honrá-la, também.
Mas há uma diferença entre reconhecer o que doeu e continuar vivendo como se isso ainda precisasse comandar tudo.
Muitas pessoas passam anos tentando provar que sua dor é legítima.
E ela é.
Mas, depois de um tempo, a pergunta mais importante deixa de ser: “isso me feriu?”.
E passa a ser: “isso ainda precisa continuar governando quem eu me torno?”.
Essa é a pergunta que abre o futuro.
É aqui que a TRG encontra seu sentido mais profundo.
No fim, a TRG não se propõe apenas a reduzir sintomas.
Ela se propõe a devolver mobilidade.
Mobilidade emocional.
Mobilidade interna.
Mobilidade de resposta.
Mobilidade de identidade.
Mobilidade de futuro.
Ela devolve ao sujeito algo que a dor prolongada quase sempre sequestra a possibilidade de não continuar sendo organizado apenas pelo que o feriu.
Esse é seu ponto mais profundo.
A TRG não muda o fato de que algo aconteceu.
Muda o poder que isso continua tendo.
Não apaga a história.
Mas altera sua centralidade.
Não elimina a memória.
Mas interrompe seu domínio.
Não nega a dor.
Mas impede que ela continue sendo destino.

Jair Soares e a contribuição de uma nova possibilidade clínica
Ao estruturar a Terapia de Reprocessamento Generativo, Jair Soares não propôs apenas uma técnica.
Propôs uma mudança de pergunta.
Em vez de perguntar apenas como suportar melhor a dor, sua formulação clínica reposiciona a questão: “como reprocessar aquilo que ainda mantém o sofrimento ativo?”.
Essa mudança parece sutil.
Mas não é.
Ela desloca o sujeito da adaptação ao sofrimento, para a possibilidade de reorganização.
E, em tempos em que tantas pessoas foram ensinadas apenas a administrar o peso da própria dor, essa mudança já é, por si, uma forma de esperança clínica.

O que toda dor pergunta em silêncio
Toda dor emocional, em algum nível, faz a mesma pergunta: “isso vai me definir para sempre?”.
E talvez o trabalho terapêutico mais importante não seja prometer que nada doerá novamente.
Mas permitir que, um dia, a resposta seja, não.
Isso aconteceu.
Isso marcou.
Isso doeu.
Mas isso não é mais quem me conduz.
Essa é a diferença entre carregar uma história, e continuar sendo carregado por ela.

Relato clínico (identidade preservada)
“Eu cheguei à terapia querendo parar de sentir dor.
Saí entendendo algo maior, a dor fez parte da minha história, mas não precisava continuar sendo meu destino”.
▶ Relato de cliente, 47 anos (reprocessamento de trauma, ansiedade e reconstrução subjetiva)

Algumas dores precisam ser compreendidas.
Outras precisam ser sentidas.
Outras precisam ser nomeadas.
E algumas, para finalmente deixarem de comandar uma vida, precisam ser reprocessadas.
Talvez essa seja a contribuição mais humana da TRG, não prometer uma vida sem história, mas tornar possível uma vida que já não precise continuar sendo governada pela dor.
E quando isso acontece, o sofrimento deixa de ser sentença.
E volta a ser apenas passado.


Fontes, autores e base teórica
Jair Soares
Psicólogo e terapeuta brasileiro, formulador da Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG).
Base institucional e metodológica da TRG
Formulação clínica, estrutura metodológica e aplicação contemporânea da Terapia de Reprocessamento Generativo em contexto clínico e psicoeducativo.
Viktor Frankl (1905–1997)
Psiquiatra, neurologista e fundador da Logoterapia. Referência em sentido, sofrimento e reconstrução existencial.
Obra: Em Busca de Sentido.
Antonio Damasio (1944–)
Neurologista e neurocientista.
Obras: Descartes’ Error (1994), The Feeling of What Happens (1999).

👉 Nota de rigor científico
A conclusão apresentada integra formulação clínica, neurociência afetiva, psicoterapia do trauma e estrutura conceitual da TRG em linguagem psicoeducativa. A TRG, como metodologia específica, mantém forte aplicação prática e crescente reconhecimento institucional, com necessidade ainda presente de maior validação científica formal independente.

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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