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Como as Guerras do Ópio e o crime moldaram a antiga Xangai

De vila de pescadores a metrópole global, Xangai viveu expansão marcada pelo comércio de drogas e conflitos políticos

Por Éric Moreira

A transformação de Xangai de uma vila de pescadores situada próxima à foz do rio Yangtzé em uma metrópole com mais de três milhões de habitantes desdobrou-se entre os séculos 19 e 20, impulsionada por disputas geopolíticas, expansão do capital financeiro, proliferação do tráfico de entorpecentes e conflitos ideológicos sangrentos. A gênese desse processo remonta a 1842, quando a assinatura do Tratado de Nanquim encerrou a Primeira Guerra do Ópio e forçou a China a abrir diversos portos ao comércio internacional.
O acordo permitiu a fixação de comerciantes europeus na localidade e a subsequente criação das chamadas concessões — enclaves territoriais autônomos geridos por britânicos, franceses, norte-americanos e, posteriormente, japoneses. A consolidação desses territórios estrangeiros, somada ao fluxo contínuo de refugiados da Rebelião Taiping e de judeus em fuga durante a Segunda Guerra Mundial, alçou Xangai à condição de polo comercial, financeiro e industrial estratégico na Ásia.
Embora a população ocidental permanecesse minoritária — contabilizando cerca de 150 mil indivíduos no início dos anos 1940 —, sua presença moldou a infraestrutura local. A marca dessa influência destacou-se no Bund, distrito histórico situado às margens do rio Huangpu. Na área da Alfândega, encimada por um relógio inspirado no Big Ben de Londres, ergueram-se edifícios como o Banco da China, projetado em 1937 originalmente para ter 18 andares, mas cujos planos sofreram alterações após objeções apresentadas por Sir Victor Sassoon, arquiteto responsável pela Sassoon House, edificação mais tarde rebatizada como Peace Hotel.

Fotografia de Xangai entre os séculos 19 e 20 (Foto: Getty Images)

A convivência nas áreas concedidas introduziu novos padrões de sociabilidade. Residentes estrangeiros implementaram as primeiras casas noturnas destinadas ao lazer com bebida e dança. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, dezenas de estabelecimentos foram inaugurados, contratando músicos da Europa e dos Estados Unidos. A população chinesa incorporou rapidamente aos seus hábitos ritmos como o jazz, o foxtrote e o Charleston, acompanhados pelo consumo de champanhe e uísque. Para atender aos frequentadores desacompanhados — inicialmente a maioria do público —, os clubes disponibilizavam dançarinas contratadas que trocavam por dinheiro os ingressos repassados pelos clientes a cada música.
A quebra de tradições morais avançou entre as elites locais a partir da década de 1920. Em 1923, Suzanne Tsang, filha do comissário de reconstrução de Xangai, gerou repercussão ao frequentar um baile no Carlton Café, sendo imitada por outras jovens nos anos seguintes. A adoção de estilos de vida ocidentais por mulheres abastadas manifestou-se na recusa à prática tradicional de atar os pés e no abandono de preceitos morais do confucionismo relativos à piedade filial, evidenciados pelo uso de cabelos cortados curtos.
A transformação do vestuário consolidou-se com a popularização do qipao, vestido justo ao corpo cujos modelos variavam de versões conservadoras a peças com fendas verticais reveladoras, como as trajadas pela atriz Ruan Lingyu. Sobre a mudança comportamental, um jornalista americano registrou em 1935 que “no início, as moças chinesas iam timidamente aos bailes. Agora, elas circulam livremente pela cidade, fumam, bebem e dirigem seus próprios carros”.

Pessoas dançando em café em Xangai em cena de filme (Foto: Getty Images)

A economia do ópio e as redes do crime organizado
A expansão econômica de Xangai durante o século 19 esteve umbilicalmente associada ao comércio de entorpecentes. Por meio dos conflitos armados das Guerras do Ópio, os britânicos impuseram à China a legalização do tráfico de substâncias entorpecentes, transformando o porto local em entreposto central de desembarque e distribuição de toneladas de ópio.
O consumo do produto, apelidado de “arroz preto”, disseminou-se por diferentes camadas sociais. Registros de um guia turístico publicado no final do século 19 sintetizam a ambivalência da situação na cidade: “o veneno do ópio circula na China há muito tempo, dos literatos aos carregadores; quase ninguém escapa ileso”, pondera a publicação, complementando que “os fumadouros de ópio de Xangai são os melhores do mundo”.
Em 1918, as autoridades decretaram a proibição formal do comércio do ópio e de derivados sintéticos como morfina e heroína. Contudo, as operações mantiveram-se ativas sob o controle da Gangue Verde, organização criminosa liderada por Du Yuesheng, conhecido como o “Rei do Ópio“.
A rede operava sem interferências na Concessão Francesa, aprofundando o abismo socioeconômico entre a classe trabalhadora, a elite chinesa e os residentes estrangeiros. Durante o período de ocupação japonesa, a circulação das drogas foi reativada, estendendo-se até a derrota do Japão em 1945 e a subsequente proclamação da República em 1949, quando campanhas governamentais de repressão erradicaram o tráfico nas décadas seguintes.

Fotografia de homens fumando ópio em Xangai em 1910 (Foto: Getty Images)

Conflitos políticos e a eclosão da Guerra Civil
O crescimento financeiro acelerado conviveu com tensões sociais e movimentos trabalhistas. Em 30 de maio de 1925, a polícia municipal britânica disparou contra manifestantes chineses, desencadeando ondas de protestos anti-imperialistas. Nesse cenário, duas forças políticas locais disputavam a hegemonia: o Partido Comunista Chinês, fundado na própria cidade em 1921, e o Kuomintang, de orientação nacionalista e de direita. A polarização intensificou-se em 1927, quando as forças do Kuomintang derrotaram o senhor da guerra Sun Chuanfang, que exercia o domínio sobre a cidade, e assumiram o controle administrativo.
Diante da possibilidade de um levante contra o Assentamento Internacional e a Concessão Francesa, as potências ocidentais deslocaram reforços militares para a região. O avanço das tropas do Kuomintang, liderado por Chiang Kai-shek, direcionou-se, contudo, contra a militância de esquerda. Em aliança com a Gangue Verde, o grupo promoveu um expurgo sangrento contra membros e simpatizantes do Partido Comunista, resultando em milhares de mortes no episódio que marcou o início da Guerra Civil Chinesa.

Soldados a serviço de Sun Chuanfang (Foto: Getty Images)

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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