Mineração Transporte, Infraestrutura & Logística

Logística mineral é relevante, mas precisa ser aperfeiçoada

Integração entre diferentes modais será decisiva para atender novos polos de mineração no país, apontam especialistas

Por Nelson Valencio

A mineração não existe sem logística, como provam os projetos de expansão discutidos na edição mais recente da Exposibram. Os novos empreendimentos mostram que há margem para melhorias, com desafios que vão desde a movimentação de potássio da região amazônica para o Centro-Oeste até a ampliação do volume de transporte ferroviário da malha da MRS no Sudeste.
Para entender estas lacunas, o Radar Mineração falou com especialistas, que apontam em comum o fato de o Brasil já ter hubs logísticos eficientes e reconhecidos internacionalmente, mas ainda carecer de uma integração completa quando comparado a outros países mineradores, como Austrália e Canadá.

Histórico brasileiro
A infraestrutura no território brasileiro se desenvolveu historicamente por meio de corredores dedicados ao atendimento de polos produtores específicos. Entre os exemplos de sucesso em termos de eficiência e volume destacam-se as ferrovias, entre elas a Estrada de Ferro Carajás (EFC), que conecta as minas do Pará ao porto no Maranhão. No Sudeste, as operações da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e da MRS Logística são outros modelos bem-sucedidos, escoando a produção regional para os portos do litoral. Apesar dessas operações consolidadas, a ausência de uma malha integrada nacional limita o surgimento de novas conexões e exige investimentos contínuos de longo prazo para a expansão e a interligação das linhas ferroviárias existentes.

O corredor logístico da EFC movimenta dezenas de trens diariamente, desempenhando um papel fundamental no escoamento de minério, grãos e combustíveis, além de garantir o transporte de passageiros (Foto: Divulgação/Vale)

Escolha dos modais
De acordo com o diretor Executivo do DMT Group Brasil, Saulo Liberato, a escolha do modal de transporte na mineração depende diretamente do volume produzido, do valor agregado da commodity e da distância geográfica até o destino final. Para grandes volumes de baixo valor unitário, as ferrovias geralmente são o meio de maior eficiência, por apresentarem menor custo por unidade transportada e menor taxa de emissão de gases de efeito estufa por tonelada.
Já o modal rodoviário é indicado para volumes menores, pequenas distâncias ou produtos de alto valor agregado. É o caso, segundo Liberato, do transporte de nióbio pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e do escoamento de lítio no norte de Minas Gerais, realizado por empresas como a Sigma Lithium e a CBL. Elas usam esse tipo de transporte em razão da escala de produção na casa de milhares de toneladas (diferente dos milhões de toneladas geralmente ligados ao minério de ferro), o que torna essa solução economicamente viável.
O transporte rodoviário também atua como uma solução em projetos focados no mercado local, como ocorre na região de Belo Horizonte, Itatiaiuçu e Itaúna (MG), onde as distâncias de entrega de minério de ferro para as siderúrgicas locais são curtas, variando entre 100 km e 150 km. Da mesma forma, os minérios industriais, como a brita e a areia, operam em um raio de transporte similar para manter a competitividade, pois distâncias superiores inviabilizam o frete face ao baixo valor da mercadoria.
Na implantação de novos empreendimentos, o caminhão pode servir como solução inicial até que a escala de produção justifique novos investimentos. As rodovias também são alternativas para aguardar o tempo de construção de ramais ferroviários ou outras estruturas de transporte de longo prazo.

Infográfico detalha a cadeia de logística mineral no Brasil, destacando a atuação dos modais ferroviário, rodoviário, hidroviário e por minerodutos

Hidrovias e minerodutos
As hidrovias são alternativas de baixo custo operacional e baixo impacto ambiental. Contudo, sua viabilidade é restrita pelas características geográficas e naturais de cada bacia hidrográfica. O exemplo de Corumbá ilustra essa condição, onde o calado representativo do rio permite que mineradoras utilizem a hidrovia para transportar minério ao longo do Rio Paraguai até o Uruguai. Para a expansão desse modal em outras regiões brasileiras, são necessários investimentos em obras de dragagem, aumento de calado e construção de eclusas.
Outra solução de destaque na logística brasileira são os minerodutos, que apresentam baixo custo operacional e segurança contra acidentes, embora dependam de premissas topográficas, hidrológicas e ambientais específicas para sua instalação. Os minerodutos da Samarco e da Anglo American são referências de operação segura e eficiente no cenário nacional. Há também estruturas de transporte contínuo para outros minerais, como os dutos de caulim na região Norte.
Liberato destaca que novos polos de minerais críticos e terras raras estão se desenvolvendo no Brasil, com destaque para Goiás, Piauí, o norte e o sul de Minas Gerais, além do centro, norte e sul da Bahia. Nessa última área, o escoamento poderá ser beneficiado pela conclusão das obras da Ferrovia de Integração Oeste a Leste (Fiol), cuja primeira etapa, entre Caetité e Ilhéus, é o início.
Segundo o especialista, a logística desses novos projetos de minerais críticos demandará soluções integradas de transporte rodoviário na fase inicial e, futuramente, a inserção dessas cargas em fluxos ferroviários e de cabotagem, na medida que os volumes alcancem escala comercial.

Trecho final do mineroduto da Samarco, destacando a tubagem que integra a infraestrutura de transporte logístico da empresa (Foto: Divulgação/Samarco)

Próximo passo: integração
Os desafios logísticos da mineração brasileira não está necessariamente na falta de alternativas, como mostra a reportagem, mas na capacidade de integrá-las de acordo com a escala e as características de cada projeto. No Piauí, por exemplo, o transbordo em alto-mar permite viabilizar a exportação do minério de ferro enquanto a conexão ferroviária com o Porto do Piauí ainda é uma perspectiva de longo prazo (leia matéria a respeito).
Em outra frente, a cadeia do alumínio demonstra como mineroduto, transporte marítimo, ferrovia e rodovia podem funcionar de forma complementar em uma operação de grande escala (leia mais aqui). Essa integração tende a ganhar importância com o desenvolvimento de novos polos de minerais críticos e terras-raras. A expansão da produção em regiões ainda pouco conectadas aos grandes corredores de exportação exigirá soluções progressivas, começando muitas vezes pelo transporte rodoviário e avançando para ferrovias, hidrovias, cabotagem ou dutos, conforme os volumes aumentem.

Ponte da Ferrovia de Integração Oeste-Leste instalada sobre rio no trecho baiano. A infraestrutura de transporte conecta diretamente os municípios de Caetité a Ilhéus (Foto: Divulgação/ANTT)

Fonte: Radar Mineração

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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