PF e Moraes ampliam pressão sobre Flávio a poucos dias do 2.º turno

Alexandre de Moraes é sorteado relator em inquérito contra Flávio Bolsonaro
Por Juliet Manfrin
A poucos dias do segundo turno, a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal ocupam novamente o centro da disputa. O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) é alvo de uma nova investigação, dessa vez com suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz, amigo do parlamentar. O inquérito é conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes e por isso gera entre apoiadores de Flávio o temor de que se transforme em uma nova tentativa de interferência do STF no resultado do pleito.
Momentos depois da investigação ser tornada pública no domingo (18), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lançou um desafio a Flávio para que ambos abram seus sigilos telefônico e bancário. Assessores de comunicação do petista formalizaram nesta terça-feira (20) um desafio para que Flávio abra seu sigilo bancário citando especificamente sua relação com Willer Tomaz durante uma entrevista coletiva. As ações seguidas passaram a levantar questionamentos entre críticos do governo de que o processo no STF esteja sendo instrumentalizado pela campanha de Lula, que diz que abrirá seu sigilo somente se Flávio também o fizer.
O caso que subiu ao STF e envolve Tomaz e Flávio foi distribuído por sorteio ao ministro Moraes, o mesmo responsável pela condenação de centenas de pessoas pelos atos do 8 de janeiro e a prisão de Jair Bolsonaro e um grupo ligado a ele pela suposta tentativa de golpe. Até o momento não há evidências consistentes contra Flávio, que tenham vindo a público. Mas o fato de Moraes ser o relator vem causando apreensão no PL e entre apoiadores. A tensão só não está mais alta porque a lei eleitoral impede que candidatos sejam presos desde o último dia 10 até 48 horas após o fim do segundo turno.
A nova apuração contra Flávio se soma ao inquérito do financiamento do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Sob a relatoria do ministro André Mendonça, o procedimento investiga recursos associados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro que foram destinados ao filme. Na sexta-feira (16), a PF solicitou mais 90 dias para concluir a investigação, que ainda depende de perícias e de informações financeiras do exterior. Para o constitucionalista Alessandro Chiarottino, a proximidade das eleições torna inevitável o questionamento sobre os efeitos políticos da nova investigação sob responsabilidade de Moraes.
Certamente, tudo indica que o objetivo é esse: o regime se protegendo”.
O especialista pondera que é difícil prever uma medida judicial capaz de alterar diretamente o resultado eleitoral até o encerramento da campanha. Na avaliação dele, o principal efeito será o desgaste político da existência de um inquérito envolvendo o candidato. O fato pode ser explorado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O criminalista Márcio Nunes destaca que a abertura da investigação não comprova prática de crime. Também não é prova de que exista uma operação destinada a interferir na eleição. Mas, segundo ele, o desgaste político e eleitoral em uma disputa acirrada é inegável. “Cada voto conta e cada peso desfavorável pode influenciar”, reforça.
O que a PF investiga na relação entre Flávio e Willer Tomaz
A investigação tem origem em uma apuração da PF no Rio Grande do Sul sobre suspeitas de crimes financeiros envolvendo plataformas de pagamento digital e o mercado de apostas esportivas. A suspeita é que Willer Tomaz seria sócio de ao menos duas empresas de apostas tipo Bet. Elas eram legalizadas, mas poderiam ter sido usadas para lavar dinheiro de outra origem (não descoberta pela PF). Arquivos de computador e registros encontrados em uma operação de busca realizada contra Tomaz identificaram uma possível ligação dele com Flávio. A defesa do senador diz que Flávio e Tomaz são amigos.
Um dos documentos achados seria um e-mail que indicaria que uma conta bancária ligada a uma empresa no exterior teria sido usada de forma conjunta entre Tomaz e Flávio no passado. O e-mail, enviado por uma funcionária de Tomaz a um banco em 2025, pede que o nome de Flávio seja retirado da conta. O senador e o advogado negam ter compartilhado uma conta bancária ou mantido relação financeira irregular. As defesas sustentam que os registros não demonstram existência de sociedade ou operações ilícitas.
Também haveria entre os arquivos encontrados com Tomaz registros de viagens internacionais, mensagens, documentos pessoais e informações bancárias. A PF identificou viagens feitas entre Flávio e Tomaz em 2025 e registros que indicariam que empresas ligadas ao advogado intermediaram pagamento de passagens para o senador e seus familiares. A PF não encontrou indícios de que Flávio tenha dado qualquer tipo de contrapartida a Tomaz.
Por que o caso foi parar no STF
O envio ao Supremo decorre do foro privilegiado de Flávio Bolsonaro, que é senador. Quando a PF identificou elementos que poderiam envolver o parlamentar, a apuração foi encaminhada à Corte. O procedimento foi distribuído por sorteio ao ministro Alexandre de Moraes.
O constitucionalista André Marsiglia pondera que, embora Moraes não tenha instaurado o inquérito de ofício nem escolhido pessoalmente investigar Flávio Bolsonaro, chama a atenção o fato de o ministro também relatar outros processos envolvendo pessoas próximas e da própria família Bolsonaro. Para Marsiglia, essa circunstância suscita questionamentos sobre uma possível atuação de caráter político-eleitoral, sobretudo a poucos dias do segundo turno.
Especialistas reforçam que a chegada ao gabinete de Moraes teria significado político. Marsiglia reconhece que a combinação entre inquérito, proximidade do segundo turno e relatoria de um magistrado que enfrenta forte oposição do grupo político de Flávio cria um cenário de alta tensão institucional.
Defesa acusa motivação eleitoral e nega irregularidades
A defesa de Flávio tem sustentado que sua relação com Tomaz é de amizade, sem vínculo financeiro irregular. A assessoria do senador afirmou que qualquer tentativa de atribuir irregularidades à relação entre as famílias seria uma inferência sem fundamento. Sobre a conta bancária, a defesa negou que Flávio tenha mantido conta compartilhada com Tomaz ou com empresas ligadas ao advogado.
A defesa de Tomaz rejeitou as acusações. Em nota, o advogado afirmou que a relação se limita à amizade, sem vínculo comercial ou financeiro. Também contestou as informações sobre viagens e declarou que sua atuação profissional respeita as prerrogativas da advocacia. A nova investigação foi divulgada no domingo (18), pouco antes do debate presidencial da Band.
Juristas veem potencial de desgaste político
O constitucionalista Alessandro Chiarottino avalia que a divulgação de investigação contra Flávio pode funcionar como desgaste eleitoral. Para ele, o episódio reforça a percepção de que o STF permanece envolvido no ambiente político. Chiarottino considera difícil que Moraes tome nesta semana alguma medida capaz de influenciar diretamente o resultado da eleição e que o efeito mais provável é de propaganda.
Juristas também foram questionados sobre a possibilidade de o novo procedimento colocar em risco a posse do senador caso ele vença. Marsiglia e Chiarottino afirmam que isso dependeria de uma condenação definitiva, não da existência de investigação, e que uma eventual condenação levaria meses ou anos.
O inquérito, por si só, não impediria a posse de Flávio. Marsiglia acrescentou que, caso Flávio assuma a Presidência, eventuais processos relacionados a fatos estranhos ao exercício do cargo estariam sujeitos às regras constitucionais que preveem limitações à responsabilização criminal do chefe do Executivo durante o mandato por atos sem relação com suas funções, além de estabelecer condições à instauração de processos criminais.
Garantias processuais em investigações do STF
O especialista em Direito Penal Gauthama Fornaciari faz uma crítica mais ampla à condução de investigações no Supremo. Ele afirma que, em procedimentos anteriores, entre eles casos que ficaram conhecidos como “fake news”, “atos antidemocráticos” e “milícias digitais”, houve problemas relacionados à delimitação do objeto das investigações, ao acesso das defesas às provas e à adoção de medidas cautelares. Ele também critica a prolongada restrição de direitos sem observância às garantias processuais.
Na avaliação do penalista, essas questões precisam ser consideradas quando se examina a atuação do STF em investigações de grande repercussão. Ele sustenta que o devido processo legal, a separação entre investigar, acusar e julgar e o direito de defesa não podem ser relativizados em razão da gravidade das suspeitas ou da identidade dos investigados.
Investigação vira elemento da disputa política
A divulgação de dois procedimentos envolvendo o candidato do PL ocorre em um momento de forte polarização. No debate de domingo (18), Lula e Flávio trocaram acusações sobre corrupção, relações com empresários e suspeitas envolvendo familiares. A nova investigação contra o senador amplia o material que promete ser explorado nos últimos dias da campanha. Segundo a campanha do senador, a proximidade entre a divulgação dos casos e a eleição reforça a narrativa de perseguição.
A repercussão de denúncias depende da credibilidade das informações, da reação dos candidatos e da maneira como os eleitores interpretam a atuação das instituições. Uma investigação pode gerar desgaste, mas também mobilizar apoiadores que considerem o procedimento injusto”, avalia Marsiglia.
Para Chiarottino, a possibilidade de exploração política é concreta, mas uma decisão judicial capaz de alterar o resultado eleitoral ou impedir a posse exigiria fundamentos jurídicos específicos, que não dependem da abertura de um inquérito. Até o momento, não há denúncia contra o senador, condenação, nem elemento que permita afirmar que a investigação tenha sido aberta com o propósito comprovado de interferir na eleição.
O que existe é uma nova frente de apuração, sob relatoria de Moraes. Ela amplia a pressão sobre Flávio na reta final colocando o STF em xeque, mais uma vez”, reforça Nunes.
Fonte: Gazeta do Povo












