Petróleo, Gás & Energia

Vale, CSN e Samarco estão entre os compradores do primeiro leilão de gás natural da União

Mineração, metalurgia e siderurgia arrematam um terço da oferta do leilão de gás natural da PPSA

Por Nelson Valencio

Cinco empresas do segmento de mineração, metalurgia e siderurgia fazem parte da lista de 23 companhias vencedoras do primeiro Leilão de Gás Natural da União, realizado no último dia 22, de forma on-line. São elas: Vale, CSN, Gerdau, Samarco Mineração e Ternium Brasil. As cinco arremataram 29,1% de todo o gás natural leiloado pela Pré-Sal Petróleo (PPSA), constituindo a segunda maior fatia do certame, atrás apenas do setor químico/petroquímico. Em volume, o segmento vai consumir 320 mil m³/dia, dos 1,1 milhão de m³/dia ofertados pela Pré-Sal Petróleo PPSA.

Veja, a seguir, as cotas dos outros quatro segmentos contemplados:
🔹Químico e petroquímico: 35 lotes, totalizando 350 mil m³/dia.
🔹Ceramista: 20 lotes, com consumo de 200 mil m³/dia.
🔹Fertilizantes: 13 lotes, com 130 mil m³/dia.
🔹Vidreiro: 10 lotes, com consumo de 100 mil m³/dia.

Precificação dos lotes
A precificação obtida no leilão garantirá ao segmento uma redução de 46% no custo do gás natural em relação às tarifas médias do mercado tradicional. Como o gás é um insumo térmico essencial para processos intensivos como altos-fornos, pelotização e processamento de aço, essa economia reduz o custo de produção e apoia a agenda de transição energética das indústrias pesadas. O certame inédito comercializou a totalidade dos 110 lotes ofertados, gerando um faturamento estimado de R$ 377 milhões para a PPSA.
A fórmula de precificação do leilão considerou 115% do valor de referência do Henry Hub + prêmio/adicional ofertado no certame. O preço médio final da molécula foi estimado em US$ 5,83 por MMBtu, gerando uma redução de 38% a 57% em relação às tarifas vigentes praticadas pelas distribuidoras e pela Petrobras (que variam de US$ 10 a US$ 15/MMBtu).
As empresas fecharão contratos de fornecimento de dez meses, válidos entre março e dezembro de 2027. Já o ponto de entrega será a saída da Unidade de Tratamento de Gás (UTG) de Itaboraí/Complexo de Energias Boaventura da Petrobras (RJ), cabendo aos compradores a contratação do transporte.

Por que o leilão é inédito?
Historicamente, toda a parcela de gás natural pertencente à União, oriunda dos contratos de partilha de produção do pré-sal, era vendida diretamente para a Petrobras no próprio ponto de extração (“boca do poço”) por meio de acordos antigos e a preços fixados. A Petrobras atuava como intermediária exclusiva, reprocessava e comercializava o combustível com o mercado nacional.
O leilão de 2026 é completamente inédito porque, pela primeira vez na história do país, o governo federal comercializou a sua cota de gás do pré-sal diretamente com os consumidores industriais finais, sem a intermediação da Petrobras. Essa mudança estrutural simboliza a quebra prática do monopólio comercial da estatal no setor e marca o início de uma nova fase para o Mercado Livre de Gás no Brasil. Ao disponibilizar 1,1 milhão de m³/dia em disputa aberta e eletrônica, o certame permitiu que o mercado descobrisse publicamente quanto a indústria brasileira está disposta a pagar pela molécula, criando uma referência de preço transparente para o setor.

Foco na indústria de base
A decisão governamental de direcionar 100% dos lotes deste primeiro leilão para a indústria de base responde a fatores econômicos e produtivos como:
🛢️Intensidade no consumo de energia
Os segmentos contemplados são os maiores consumidores térmicos de gás do país. Para setores como o químico, petroquímico e de fertilizantes, o gás natural não é apenas combustível para gerar calor, mas matéria-prima indispensável para a síntese de amônia, ureia e resinas plásticas.

🛢️Perda de competitividade e capacidade ociosa
As indústrias brasileiras pagavam tarifas entre US$ 10 e US$ 15 por MMBtu junto às distribuidoras estaduais e à Petrobras. Esse custo, até cinco vezes superior ao praticado em mercados como o norte-americano, provocava ociosidade nas fábricas nacionais e forte perda de espaço para produtos importados.

Efeito multiplicador na economia
Por estarem no início da cadeia produtiva (upstream e midstream), a redução no custo do gás para esses cinco setores reduz a pressão inflacionária sobre insumos essenciais da construção civil, do agronegócio e da manufatura, estimulando novos investimentos e a geração de empregos qualificado.

Operação do leilão
A viabilização do leilão envolveu a atuação conjunta de três órgãos e entidades principais:
• PPSA:
empresa estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia encarregada da gestão dos contratos de partilha de produção e da comercialização do petróleo e gás da União. A PPSA atuou como a organizadora e agente vendedora oficial do certame.
• MME e CNPE: o Ministério de Minas e Energia (MME) desenhou as diretrizes da nova política de comercialização do gás da União, que foram formalmente aprovadas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em julho de 2026. A iniciativa integrou os objetivos do programa federal Gás para Empregar, voltado a ampliar a oferta nacional e reduzir a reinjeção do insumo nos poços.
• CCEE: a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica forneceu a infraestrutura tecnológica e operacionalizou a plataforma eletrônica onde ocorreram as ofertas e lances dinâmicos dos participantes. Foi a primeira vez que a entidade atuou em um processo competitivo fora do ambiente de energia elétrica.

A expectativa do mercado é que o segundo leilão da PPSA deve acontecer em 2027. O certame do ano que vem ofertará 1,8 milhão de m³/dia para entrega em 2028, um aumento superior a 60% no volume disponibilizado nesse ano.

Fonte: Radar Mineração

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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