Educação

Por que devemos abolir o termo ‘judiar’ do nosso vocabulário?

A origem antissemita da palavra nos leva de volta a um dos momentos mais sombrios da humanidade

Conforme evoluímos como sociedade, práticas que antes eram vistas como normais e aceitáveis, hoje já são encaradas de modo hostil. Nessa lista de atitudes politicamente incorretas, não podemos esquecer alguns termos e expressões que ‘envelheceram mal’.
Assim como a palavra ‘denegrir’, fortemente associada à depreciação dos negros, não é tão bem aceita em tempos atuais, outras peças do nosso vocabulário, que parecem inofensivas, carregam com si uma origem, no mínimo, controversa.

Devemos abolir a palavra ‘judiar’

O dicionário brasileiro define ‘judiar’ como: maltratar, atormentar, zombar, fazer sofrer. A princípio, para muitos, o termo pode parecer banal como outro qualquer, mas devemos olhar mais a fundo. A palavra é composta por ‘judeu’ e o sufixo ‘iar’, trazendo consigo uma carga ofensiva que nos remonta a um período sombrio do século 20.
Apesar de não ter nascido no século 20 e, muito menos, na Segunda Guerra, de fato o antissemitismo se tornou mais forte e popular nessa época. O preconceito contra judeus levou à morte de milhões de pessoas, nos terríveis campos de concentração da Alemanha Nazista, como o de Auschwitz.
Basta uma pequena análise para notar que a palavra ‘judiar’ faz referência ao tratamento desumano que os judeus sofreram durante o Holocausto. Logo, alguém que judia de outro ser humano está tratando esta pessoa como os judeus foram tratados.
Muito antes da implosão da guerra, o tratamento feroz contra os judeus já estava estabelecido em meio aos povos de diferentes partes do mundo.

Entrada de trem de Auschwitz (Foto: Getty Images)

“O mais terrível são as versões das acusações de assassinato ritual, ofensa fantasiosa em que judeus continuam a crucificar versões de Cristo, depois disseminadas na Idade Média. Começou cedo a apresentação dos judeus como vampiros religiosos, que têm de torturar crianças, crucificá-las e despejar seu sangue. Isso persiste”, disse Simon Schama, historiador britânico, em entrevista ao site Época em 2005.
Dentre muitas minorias, no entanto, os judeus se destacavam por suas heranças e vidas economicamente promissoras, algo visto como uma ameaça. Hannah Arendt, filósofa alemã, explica que “o antissemitismo alcançou o seu clímax quando os judeus haviam, de modo análogo, perdido as funções públicas e a influência, e quando nada lhes restava senão sua riqueza”.
Reproduzir o termo ‘judiar’ é perpetuar uma ideia errônea de que um povo deve sofrer por conta de suas crenças religiosas. Assim, maltratar alguém é saudar os momentos de horror a que milhões foram submetidos.
A melhor solução talvez seja substituir a expressão por outras que possuem um significado semelhante: ao invés de ‘judiar’, use sinônimos. Prefira ‘maltratar’, ‘importunar’, ‘provocar’. Gestos simples que ajudam a manter a memória de um tempo marcado pela intolerância e o respeito pelas vidas ceifadas no passado.

Fonte: Aventuras na História

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