Feminicídio: homens que matam. Adolescentes que matam o cachorro Orelha — Parte I

Onde estão os 1461 homens? O argumento é que estão sob o manto abençoado do segredo de justiça. E, se alguma mulher divulgar qualquer fragmento de seu sofrimento, quando escapou da morte, ela é punida de imediato pela justiça
Onde estão os 1461 homens que, em 2025, mataram 1461 mulheres? Até para dar a notícia, os homens são poupados. Falo dos homens que assassinaram mulheres e crianças. É a vítima que compõe a notícia na voz passiva, a mulher foi morta, e não se fala “o fulano matou”. Penso que isso faz parte do combo de proteção garantida aos homens. Já nessa formulação linguística, o homem fica oculto no primeiro momento, depois ganha o prefácio de “suspeito”, mesmo que registros hajam. Na ausência desses vídeos, a palavra da mulher perde a credibilidade, e todas as dúvidas sobre ela proliferam, levando à desqualificação de sua palavra e a rotineira desconsideração. As leis para a proteção das mulheres são ‘leis testosteronas’.
Onde estão os 1461 homens? O argumento é que estão sob o manto abençoado do segredo de justiça. E, se alguma mulher divulgar qualquer fragmento de seu sofrimento, quando escapou da morte, ela é punida de imediato pela justiça. E terá como elemento dessa penalização, um ponto de confirmação da interpretação falaciosa na sua avaliação jurídica. Não há processos em cima de fatos que ocorreram. Há livre interpretação dos fatos. Não é descritivo, é interpretativo. É uma busca contínua pelo que está por trás. E o que está à vista, o que está de frente é desprezado.
Para preencher esse caminho interpretativo, que é pavimentado por incursões em campo pseudopsicológico, sem fundamentação científica, nem mesmo o velho e razoável bom senso. Aliás, razoabilidade é um princípio inexistente nessas narrativas que acusam mulheres de serem loucas e crianças de serem mentirosas.

Estupefatos, assistimos a uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais que entendeu as relações sexuais entre um homem de 35 anos e uma criança de 12 anos como sendo a fundação de um “núcleo familiar”, com vínculo afetivo e tudo. Foi atropelado o Princípio, inscrito no ECA e no Código Penal, que reza que todo ato libidinoso praticado em menor de 14 anos, é Estupro de Vulnerável. Não importa se não teve agressão nessa prática, não cabe nenhum argumento de consentimento, nem da criança nem de seus pais ou responsáveis. Ou seja: menos de 14 anos é Estupro de Vulnerável. Confuso ver a justiça desobedecendo a Justiça.
Mas, para nos confundir ainda mais, contamos hoje com mais de 34 mil crianças vivendo maritalmente com um adulto. Muitas entre elas, já são mães. Criança sendo esposa e sendo mãe. Enquanto isso, um pai que foi buscar a filha menor numa festa é repreendido por uma Conselheira Tutelar e conduzido à delegacia. O motivo: “não é assim que se educa”. De mão dada com a filha ele explica que ela não tem idade para estar nessas festas, nem pode pegar celulares nos bolsos dos outros nem usar o que tem usado. Mas em tom ameaçador a Conselheira não escuta o cuidado do pai e reafirma que vai levá-lo para a Delegacia dizendo que ela é menina. Como se ele estivesse violando, gravemente, uma garantia de Direito da filha. Mas, como no caso da absolvição do homem que estava estuprando a menina de 12 anos, quando a Lei diz que abaixo dos 14 anos é Estupro, independente de qualquer condição, a conselheira defende o Direito da menina de 15 anos de estar em festa desacompanhada de Responsável, de fazer uso de substâncias e de furtar celulares. Não havia nenhuma atitude agressiva da parte do pai. Fica confuso ao ver o autoritarismo da Conselheira. E o pai, perdido, defendendo o seu exercício da Função de Pai, sua responsabilidade, que fica claro, é bem aceito pela filha adolescente. No entanto, sabe-se lá de onde a Conselheira tirou a inconveniência institucional, é ela que detém o Poder, arbitrariamente.

Em meio a essa desorganização promovida por agentes institucionais, somos soterrados por uma avalanche de barbáries. Cenas inimagináveis rasgam nossa virgindade do infinito das perversões humanas. As violências vão das brutais, às, meticulosamente, calculadas, em grande sofisticação. E contaminam os adolescentes que outrora quebravam bancos ou lixeiras nas calçadas como atos delinquenciais, hoje aprendem em sites de sadismo como empalar um cachorro e martelar pregos em sua cabeça, sem ter um só fio de compaixão para terminar de matá-lo. E o abandonam, moribundo, entregue ao sofrimento extremo.
Os dados trazidos pelos órgãos da comunicação, sobre as Organizações Criminosas Internacionais, levantaram sobremaneira o sarrafo. Depois desse festival de horrores, os atos libidinosos vão ser mais minimizados ainda, até desaparecer do campo das preocupações e cuidados. Penso que essa é uma estratégia intencional. Afinal, agora se fala em mais de três milhões de documentos. Em 2019 foram conhecidos 250 mil. Depoimentos de vítimas foram expostos. 2019. Nada aconteceu.
E ainda, não me parece ser uma tentativa de “corrigir” um comportamento aberrante. Penso que se trata muito mais de uma ameaça velada, de uma demonstração de Poder, de Força, de Dominação.




