Política

Pacote de estímulos não gera efeito nas pesquisas e Lula ativa “modo desespero”

“Pacote de bondades” não traz retorno eleitoral esperado, e Lula articula nova rodada de apostas na área econômica

Por Rose Amantéa

A aposta do governo Lula em colher dividendos eleitorais com um “pacote de bondades” implementado nos últimos meses não trouxe, até o momento, os ganhos esperados à popularidade do petista neste ano eleitoral. Após investir na expansão do crédito, no reforço de programas sociais e em estímulos fiscais — principalmente na isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil — como forma de sustentar o consumo e garantir respaldo nas urnas, a estratégia não projetou Lula à frente nas pesquisas.
Em pesquisa do AtlasIntel divulgada em 25 de março, o petista lidera os cenários em primeiro turno, mas perderia no segundo turno para Flávio Bolsonaro (PL), Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Michelle Bolsonaro (PL). Já um levantamento mais recente, do Paraná Pesquisas, divulgado em 30 de março, mostra Lula e Flávio empatados no primeiro turno, dentro da margem de erro. Na simulação de segundo turno, novamente o filho de Jair Bolsonaro venceria o petista.
A alta do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio, a inflação resistente, o endividamento elevado das famílias e o desgaste político interno com os escândalos do INSS e do Banco Master formam uma combinação de fatores que pode comprometer os planos de Lula a poucos meses da eleição.

Em reação, o governo articulou uma nova rodada de apostas na área econômica, como ações sobre crédito rotativo, regulamentação do trabalho por aplicativosfim da escala 6×1 e até mesmo um estudo para dar fim ao imposto cobrado sobre produtos importados em sites como Shein, Shopee e AliExpress — a chamada “taxa das blusinhas”, imposta pela atual gestão em 2024.
Especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, apontam que há um descompasso, e os efeitos reais talvez não cheguem a tempo. Além disso, as medidas tendem a trazer efeitos colaterais à economia, o que pode colocar em xeque os ganhos eleitorais esperados. Em paralelo, a polarização persistente e o cenário político conturbado prometem contaminar o debate eleitoral para além da economia. “Nada indica que Lula terá vida fácil até outubro”, avalia João Mário de França, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV).

Inflação em alta e “efeito Biden”
Pressionado pelas pesquisas, Lula tem procurado se descolar da ameaça inflacionária, que tem potencial de alterar ainda mais o humor do eleitor. O mandatário endureceu o discurso contra distribuidoras e postos de gasolina, sinalizando que não aceitará aumentos considerados “injustificados” nos preços. E incumbiu seu novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, da tarefa de impedir que a alta do petróleo chegue ao bolso do consumidor.
A movimentação ocorre em meio a um temor que já entrou no radar de marqueteiros e aliados: o chamado “efeito Biden”, apontado pela Bloomberg em artigo de opinião publicado na última quinta-feira (26). No texto, o colunista Juan Pablo Spinetto afirma que Lula corre o risco de repetir o erro político do ex-presidente norte-americano Joe Biden em 2024, ao insistir na reeleição em meio a desgaste crescente. Analistas ressaltam que a economia também foi fator decisivo para a derrota do democrata.

Estímulos não sustentam popularidade de Lula
Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o plano de Lula de subir pela quarta vez a rampa do Palácio do Planalto enfrenta novos obstáculos, mesmo com indicadores positivos como baixo desemprego e crescimento econômico. Além da ampliação do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), programas como o Desenrola, para renegociação de dívidas; o Acredita, voltado ao microcrédito; e o Pé-de-Meia, que paga mensalmente a estudantes de baixa renda para permanecerem matriculados, criaram um ambiente favorável ao consumo que tem sustentado o crescimento do PIB, ainda que em desaceleração.

As medidas ajudam a explicar a manutenção do consumo mesmo com juros altos”, diz Alex Agostini, economista-chefe da Austin Ratings. “Em outro contexto, pareceria contraditório”.

O efeito colateral, porém, foi o avanço do endividamento. Hoje, ele está em 49,7% da renda, segundo o Banco Central. Já o comprometimento da renda — que inclui juros e amortizações — alcança 29,2%, um dos níveis mais altos do mundo.

Isso ocorre porque o crédito é caro e de curto prazo, muitas vezes via cartão de crédito com juros elevadíssimos”, explica Roberto Dumas, que vê nos números parte da explicação para a deterioração da percepção econômica.

Outro fator central é a inflação. Em março, os preços ao consumidor subiram 0,44%, acima da expectativa de 0,29%, segundo o Banco Central. No acumulado em 12 meses, a alta é de 3,9%. “Ainda é um patamar elevado”, diz o economista do Ibre-FGV. “Isso gera sensação de perda de poder aquisitivo e mantém o mal-estar econômico, mesmo com ganhos como isenção de IR, benefícios sociais e melhora no mercado de trabalho”, prossegue França.
A inflação persistente, somada à alta do petróleo, também tem limitado a queda da taxa de juros Selic, mantendo o crédito caro e reduzindo o efeito das medidas de estímulo.

Guerra no Irã desgasta governo Lula
As incertezas em relação à continuidade da guerra EUA-Israel-Irã e a perspectiva de novos aumentos no preço do petróleo já acenderam o sinal amarelo no governo. “Quanto mais tempo a guerra durar, mais difícil fica o cenário eleitoral”, resume Dumas. “Mesmo sem culpa direta, o governo sofre o desgaste”. Agostini avalia que o desafio será calibrar a comunicação sobre o preço do petróleo.

Parte não é culpa do governo, mas sempre haverá a leitura de que ele poderia agir — até porque a Petrobras é controlada pelo Estado”, diz. “Lula não pode simplesmente atribuir tudo ao conflito externo”.

De fato, existem instrumentos. O petista acenou com um pacote de medidas que inclui subsídios ao diesel, zeragem de tributos federais e pressão sobre os estados para reduzir o ICMS, numa tentativa de conter o impacto imediato para o consumidor e evitar efeitos em cadeia sobre frete e alimentos. A iniciativa, porém, enfrenta resistência dos governadores, que rejeitam dividir os custos e acusam o governo federal de transferir o ônus político da medida.

É uma questão fiscal”, diz Agostini. “O governo não está em posição confortável para sustentar esse tipo de desoneração. Pode até fazer, mas terá que compensar depois”.

Contas no vermelho
A deterioração das contas do governo também entra no radar. A dívida pública subiu sete pontos percentuais no governo Lula, e projeções do Banco Central indicam que ela pode se aproximar de 85% do PIB em 2027, ano limite para o ajuste fiscal, segundo analistas econômicos. Para Dumas, Lula errou o timing ao utilizar seu arsenal eleitoral. “O ideal seria ter poupado mais em tempos de estabilidade para gastar em momentos de crise, como agora”, afirma. “Como isso não ocorreu, o espaço agora é limitado”.
Além das restrições orçamentárias, França destaca que há limites impostos pelo calendário eleitoral para o governo recorrer à política fiscal expansionista. “Medidas populistas não podem ser tomadas com a mesma liberdade”, lembra.
Procurada pela Gazeta do Povo, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República não respondeu aos questionamentos.

Fonte: Gazeta do Povo

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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