Meio ambiente

Ave desaparecida há mais de 100 anos volta a nascer na Caatinga

Reprodução da ave periquito-cara-suja em reserva entre Ceará e Piauí é vista como um marco histórico para a conservação ambiental brasileira

Por Felipe Sales Gomes

Uma ave rara do Brasil voltou a nascer em liberdade na Caatinga após mais de 100 anos sem qualquer registro confiável na região. O reaparecimento do periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus) na Reserva Natural Serra das Almas, entre os estados do Ceará e Piauí, está sendo celebrado por pesquisadores como um dos episódios mais importantes da conservação ambiental brasileira nos últimos anos.
Os filhotes nasceram no dia 17 de março de 2026 e representam a primeira reprodução natural da espécie naquela área em mais de um século. O acontecimento foi resultado de um projeto de reintrodução iniciado em 2024 por organizações ambientais em parceria com instituições de preservação da fauna nordestina.
Conhecido popularmente como periquito-cara-suja por causa da mancha escura no rosto, o pássaro é uma espécie endêmica da Caatinga, ou seja, só existe naturalmente naquele bioma brasileiro. Pequeno, de plumagem verde e peito acinzentado, ele vivia originalmente em áreas serranas do Ceará, mas sofreu um colapso populacional ao longo do século XX devido ao desmatamento, à fragmentação do habitat e ao tráfico ilegal de animais silvestres.
Durante décadas, praticamente não houve registros da ave na região da Serra das Almas. O desaparecimento levou pesquisadores a tratarem a espécie como localmente extinta naquela área da Caatinga. A reversão desse cenário começou com o projeto Refaunar Arvorar, desenvolvido pela Associação Caatinga, pela ONG Aquasis e pelo Parque Arvorar, ligado ao complexo turístico Beach Park.

Antes de serem soltas, as aves passaram por uma longa preparação. Muitos dos exemplares utilizados no programa haviam sido resgatados do tráfico ilegal e precisaram reaprender comportamentos fundamentais para sobreviver na natureza, como reconhecer alimentos nativos, fortalecer o voo e reconstruir vínculos sociais dentro dos bandos. Além disso, a reserva ganhou viveiros de aclimatação e caixas-ninho artificiais que simulam cavidades naturais de árvores.
O sucesso do projeto começou a aparecer em fevereiro deste ano, quando pesquisadores encontraram os primeiros ovos nas caixas-ninho instaladas na mata. Ao todo, foram identificados 33 ovos — número considerado acima das expectativas da equipe. Semanas depois, nasceram os primeiros filhotes em vida livre.
Hoje, cerca de 23 indivíduos adultos vivem soltos na reserva, e os pesquisadores acreditam que a população pode dobrar ainda em 2026 caso as condições ambientais permaneçam favoráveis. Mesmo assim, os cientistas alertam que os desafios continuam grandes. Os filhotes ainda enfrentam ameaças naturais, como predadores e chuvas intensas, além do risco permanente representado pela destruição da vegetação nativa da Caatinga.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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