Meio ambiente

Espécie com comportamento semelhante ao do extinto dodô é descoberta no Brasil

Nova espécie de ave encontrada na Amazônia brasileira foi descrita pela primeira vez em um estudo divulgado no dia 2 de dezembro

Por Giovanna Gomes

A recente descoberta de uma nova espécie de ave na Serra do Divisor, localizada no extremo oeste da Amazônia brasileira, surpreendeu a comunidade científica. A ave, denominada tinamu-de-cara-cinzenta ou tinamu-de-máscara-ardósia (Tinamus resonans), foi descrita pela primeira vez em um estudo divulgado na última terça-feira, 2, na revista Zootaxa. O novo tinamu impressiona por seu comportamento dócil e pela ausência de medo em relação aos humanos, características que lembram o extinto dodô (Raphus cucullatus).
A descoberta foi realizada por uma equipe de pesquisadores das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Federal de São Carlos (UFSCar), em colaboração com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Acre. As investigações tiveram início em outubro de 2021, durante uma expedição na floresta, quando os cientistas ouviram um canto profundo e prolongado, característico dos tinamus, mas com uma sonoridade peculiar que reverberava pelo sub-bosque.

Os cientistas enfrentaram diversos desafios ao longo de três anos, tentando rastrear a origem desse canto misterioso. O grande avanço ocorreu em novembro de 2024, quando uma gravação digital do canto da ave conseguiu atrair dois exemplares da espécie, permitindo a confirmação de que se tratava de uma nova descoberta.

Semelhança com o dodô
Diferentemente dos tinamus comuns, que possuem plumagem discreta, o tinamu-de-máscara-ardósia exibe uma coloração vibrante, com tons que variam do canela ao ruivo e uma faixa escura que atravessa seus olhos, justificando o nome “máscara”. Apesar das semelhanças com o dodô, é importante ressaltar que não há relação evolutiva direta entre as duas aves.

Comportamentalmente, essa nova espécie se destaca por sua aproximação espontânea aos seres humanos, caminhando tranquilamente em direção aos pesquisadores. Esse comportamento inocente pode ter sido prejudicial para o dodô no passado, quando a chegada dos colonizadores neerlandeses à Ilha Maurício resultou na extinção da espécie.

A distribuição geográfica do tinamu-de-máscara-ardósia é extremamente restrita; ele habita apenas áreas acima de 300 metros de altitude na Serra do Divisor, uma formação descrita como uma “ilha celeste”, cercada por vastas planícies amazônicas. Essa configuração geográfica propicia um ambiente ideal para espécies altamente especializadas, mas também impõe riscos à sobrevivência do tinamu, cuja população é estimada em apenas 2.106 indivíduos.

Embora a região seja remota e pouco habitada, as pressões externas sobre seu ecossistema têm aumentado. A caça não é comum nas áreas habitadas pelo tinamu; no entanto, há registros de captura em regiões vizinhas para consumo humano. Isso representa um risco adicional se o acesso humano à área aumentar.

Ave semelhante ao dodô (Foto: Divulgação)

Situação é alarmante
O doutorando Luís Morais, principal autor do artigo sobre a nova espécie e membro do Museu Nacional do Rio de Janeiro, destacou a precariedade da situação: “mesmo que a área seja praticamente desabitada e em grande parte intacta, a sobrevivência da espécie em longo prazo está longe de ser garantida. Espécies restritas a faixas de altitude estreitas também são altamente sensíveis às mudanças climáticas”.

A descrição formal da nova espécie baseou-se em três espécimes observados e extensos registros coletados durante o campo. Contudo, análises genéticas ainda são necessárias para entender sua evolução e classificação taxonômica. A pesquisa é especialmente relevante devido à escassez de estudos sobre os tinamídeos amazônicos.

No entanto, Morais alerta que o futuro do tinamu-de-máscara-ardósia depende urgentemente de decisões políticas eficazes: “tudo isso me faz pensar que a espécie não terá um futuro fácil. Estamos trabalhando arduamente para garantir que isso seja reconhecido antes que essas políticas avancem ainda mais”.

(Foto de capa: Wikimedia Commons/Reprodução)

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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