Cacau, o doce fruto que impulsiona a economia capixaba
Principal matéria-prima usada na fabricação de chocolate, na panificação, na confeitaria e confecção de sobremesas, o cacau é uma das estrelas econômicas e gastronômicas do Espírito Santo
O cacau é um fruto que apresenta grande importância econômica, sendo utilizado na alimentação humana e também nas indústrias farmacêutica e cosmética. E, no Espírito Santo, ele é muito apreciado na fabricação do chocolate. De acordo com a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), o Estado é o terceiro maior produtor de cacau do Brasil com expressiva produção em 45 municípios capixabas. Linhares se destaca como maior produtor e concentra 70,7% da produção estadual.
A produção de cacau também fortalece a economia capixaba, assim como seu principal produto derivado, o chocolate, segundo Maíra Welerson, empresária e presidente do Sindicato da Indústria de Produtos de Cacau, Balas, Doces e Conservas Alimentícias do Estado do Espírito Santo (Sindicacau).
Mesmo não sendo considerada de necessidade básica, a indústria cacaueira exerce um papel estratégico no Espírito Santo, especialmente pela sua contribuição para a geração de empregos e para o fortalecimento da economia local. Para ficar por dentro deste e outros tópicos pertinentes ao setor cacaueiro capixaba, acompanhe a entrevista exclusiva concedida à Alimentos & Negócios.

Cacau e chocolates
< Qual o volume de produção e a importância do Espírito Santo no cenário nacional de cacau?
O movimento de produção de chocolate artesanal e fino vem ganhando mais espaço no Estado. Os dados mostram uma curva de crescimento no número de marcas registradas. O que antes tínhamos apenas como referência em plantio e comercialização do fruto, amêndoa, agora estamos percebendo um crescimento da industrialização do fruto.
Em 2020, estima-se que o Estado contava com cerca de 25 marcas. Em 2025, levantamentos indicam cerca de 47 marcas de chocolate capixabas registradas. O que tem por trás dessa crescente é a lógica da agregação de valor. Enquanto a amêndoa bruta é vendida como commodity (aprox. R$ 25/kg), o chocolate processado alcança valores de R$ 200,00 a R$ 300,00 por kg. Para o produtor rural, transformar sua amêndoa em chocolate significa multiplicar sua receita bruta por dez, capturando a margem que antes ficava apenas com a indústria, além de diversificar suas fontes de comercialização.
< Quais são as principais empresas do setor de cacau no Estado?
Garoto, Espírito Cacau, Le Chocolatier, Cacau Show (que tem uma unidade fabril em Linhares), Cacau em Cor (Emir Filho), dentre outras.
< Existe alguma certificação ou diferencial na produção de cacau capixaba?
Existe. Indicação de Procedência (IP), Selo de Rastreabilidade, Modelo mais robusto de cultivo do fruto, voltado ao alto valor agregado. Observa-se, ao analisar os últimos anos, que o Estado migrou do fornecimento de amêndoas bulk (comuns) para a produção de cacau fino de aroma e chocolates de origem.
Doces, balas e conservas
< Qual o panorama da indústria de doces e conservas no Espírito Santo?
Hoje, cerca de 21% da mão de obra empregada no setor — que abrange as indústrias com Código Nacional de Atividade Econômica (CNAE) convergentes com o Sindicacau — são geradas pelas indústrias de doces e conservas.
A maior parte formada por empresas de pequeno e médio portes. Em 2024, o valor estimado das exportações de fabricação de conserva de frutas foi de US$ 2,3 milhões. Estes valores mostram um setor que, apesar do modo de operar ainda artesanal, tem uma representatividade grande no segmento.
< O setor possui contrato de competitividade com o governo do ES?
Sim. Temos o Programa de Incentivo ao Investimento no Espírito Santo (Compete-ES), um programa de incentivos fiscais do Governo do Estado que oferece benefícios no Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para empresas que se instalam ou operam no Estado e o Programa de Incentivo ao Investimento no Espírito Santo (Invest-ES), que tem como proposta atrair e expandir negócios, oferecendo incentivos fiscais para setores produtivos como indústria, comércio e importação.
< Quais os principais desafios e oportunidades para a indústria de doces e conservas no ES?
A indústria de doces e conservas do Espírito Santo, apresenta-se como um setor maduro, que soube capitalizar sobre suas limitações geográficas — a maioria está situada em zona rural do Estado. E, ao contrário da sua limitação regional, na maioria dos casos, ser um entrave, trouxe uma positividade, que foi o conceito de produção artesanal, atrelado ao turismo. Dando ainda mais visibilidade às marcas.
O maior desafio é continuar com as características acima citadas e com alta produtividade, para que alcance cada vez mais o mercado, tanto em âmbito nacional quanto internacional.

Eventos e Inovação
< Existem eventos que promovem os produtos do setor no Estado?
Existem diversos eventos, muitos apoiados e subsidiados por entidades governamentais pelos quais é possível a participação de empresas do setor como: feiras públicas nas cidades e encontros gastronômicos. Além dessas feiras destinadas ao público final (o consumidor), temos outras feiras destinadas à comercialização e divulgação entre os comércios e distribuidores, como a Associação Capixaba de Supermercados (ACAPS).
Vale ressaltar a importância de ambas para a divulgação e comercialização dos produtos. Como a grande maioria das indústrias do setor são formadas por micro e pequenas empresas, tais feiras são cruciais para a divulgação, contatos e comercialização dos produtos, tendo em vista que na maioria há subsídio para que essas empresas participem. Dando, assim, viabilidade e visibilidade ao setor, que é tão importante.
< Qual a função principal do Sindicacau e as expectativas das empresas representadas pela associação para 2026?
O Sindicacau tem como finalidade servir de base para a união e fortalecimento das pautas importantes para o setor. Dando voz a todas as indústrias, independente do porte, trazendo fortalecimento para que consigam ser competitivas tanto no cenário local quanto no cenário nacional e internacional. Trabalhamos incansavelmente para fazer com que nossas indústrias tenham voz, sejam ativas, produtivas e gerem riqueza, assim ganham todos: a indústria, os colaboradores e a comunidade em torno.
Quanto à expectativa para 2026, a indústria é sempre positiva, mas, o mais realista possível, olhando o mercado e trabalhando com projeções reais. O ano que vem teremos Copa do Mundo, muitos feriados e eleição e, é claro, que todo cenário econômico precisa ser levado em consideração. O principal é saber como se pode trabalhar faturamento em ganhos de escala, aproveitando, principalmente, as duas oportunidades. Teremos a Copa do Mundo e os feriados, onde normalmente o consumo é maior, e as pessoas tendem a buscar produtos sazonais.
< Como as empresas podem se associar ao sindicato e se a instituição negocia convenções coletivas de trabalho?
A associação ao Sindicato pode ocorrer via contato direto com a Instituição, seja via e-mail, telefone ou no próprio prédio da Federação da Indústria (FINDES), onde est amos situados. Quanto às convenções coletivas, temos encontros e assembleias diretas para discutir e escutar de forma ativa todos os associados.
Hoje, o Sindicacau participa 100% das negociações coletivas do setor, não só com a presença da presidência, como também com apoio jurídico, para que a negociação aconteça de forma clara, transparente, justa e dentro da lei.
(Foto de capa: Gerada por IA)












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