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Ação dos EUA na Venezuela eleva risco de fuga de traficantes para o Brasil

Se EUA mantiverem ações contra narcotráfico na Venezuela, criminosos podem fugir para o Brasil

Por Juliet Manfrin

Especialistas em segurança pública e pesquisadores do crime organizado veem risco de fuga, para o Brasil, de criminosos ligados a facções criminosas transnacionais que operam na Venezuela, após a operação militar dos Estados Unidos que retirou do poder o ditador Nicolás Maduro, no último sábado (3). A avaliação é de que grupos que se viam protegidos pelo regime podem deixar o país com medo de serem dizimados pelas forças americanas, uma vez que a principal justificativa da Casa Branca para a ação foi combater o narcotráfico que exporta drogas para os EUA.
O coronel da reserva da Polícia Militar e advogado Alex Erno Breunig, integrante da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares, avalia que o governo federal não dispõe, hoje, de capacidade operacional para impedir o ingresso ilegal de criminosos pela fronteira com a Venezuela. Segundo ele, a atuação do Estado brasileiro se concentra basicamente na triagem e no acolhimento de refugiados que entram de forma regular, sobretudo pela ponte internacional de Pacaraima, em Roraima, sem alcançar de maneira efetiva os fluxos clandestinos.
Para Breunig, conter uma eventual fuga de criminosos exigiria um esforço logístico e operacional que o país não consegue mobilizar, com recobrimento permanente da fronteira terrestre, monitoramento contínuo dos rios e vigilância do espaço aéreo. O coronel alerta que o risco mais sensível não está na entrada de criminosos comuns, mas na possível “importação” de líderes de organizações criminosas, que contam com redes de relacionamento e recursos financeiros suficientes para ingressar no Brasil de forma “discreta e confortável”, seja em aeronaves particulares, seja em embarcações de luxo, inclusive com escalas em outros países.

Já o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, ameniza os riscos. Ele declarou que a fronteira segue aberta e sob controle e destacou que o efetivo disponível é considerado adequado para garantir a segurança da região. De acordo com ele, desde o fim de semana há cerca de 200 militares posicionados diretamente na fronteira, além de aproximadamente 2.300 em Roraima e um contingente total de dez mil homens distribuídos pela Amazônia.
O ministro avaliou que, neste momento, “não há necessidade de reforçar o efetivo na área fronteiriça”. Múcio afirmou ainda que a situação é de tranquilidade e que as forças armadas acompanham o cenário com atenção, “em meio a informações divergentes que circulam sobre os desdobramentos do caso”.

Para o investigador aposentado das forças federais de segurança Sérgio Leonardo Gomes, a fronteira amazônica brasileira exige vigilância redobrada, já que historicamente é explorada por organizações criminosas estrangeiras em razão da extensão territorial e das dificuldades de fiscalização permanente. Para ele, o caminho mais eficaz para conter eventuais fugas passa por um trabalho intenso de inteligência, capaz de antecipar movimentos e identificar rotas utilizadas por criminosos. Gomes ressalta, no entanto, que a efetividade dessas ações depende diretamente do grau de interesse e do empenho do governo brasileiro em impedir a entrada no país tanto de líderes do narcotráfico venezuelano quanto de eventuais integrantes do alto escalão militar ligados ao regime de Nicolás Maduro.

Risco para o Brasil aumenta se EUA intensificar operações na Venezuela
Apesar de ainda não haver evidências de que a ação militar dos Estados Unidos para capturar Maduro já tenha provocado uma debandada de membros de cartéis e facções para países da América do Sul, analistas avaliam que isso possa ocorrer no médio prazo, conforme as ações americanas se intensificarem contra o narcoterrorismo na Venezuela. Para o Brasil, esse caminho seria facilitado porque se tratam de grupos criminosos venezuelanos já identificados em território brasileiro e que oferecem preocupações estruturais anteriores à captura de Maduro, especialmente na região da Amazônia.

Se houver uma debandada, ela pode ocorrer nos capítulos seguintes das ações dos Estados Unidos em solo venezuelano e especificamente contra os cartéis e traficantes. São pelo menos três rotas prováveis de fuga: Colômbia, Guiana Francesa e Brasil”, alerta o sociólogo e especialista em segurança pública Marcelo Almeida.

Outro item de atenção é que a organização criminosa conhecida como Tren de Aragua, a principal da Venezuela, é apontada por autoridades e relatórios de segurança como já presente em Boa Vista (RR) e envolvida em tráfico de drogas, contrabando, exploração sexual e chegou a estabelecer ligações com organizações brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), ampliando sua atuação muito além de suas próprias fronteiras.
Fontes ligadas às investigações de fronteira relataram, sob condição de anonimato à Gazeta do Povo, que relatórios de inteligência indicam que rotas transfronteiriças já vêm sendo usadas por esse e outros grupos regionais há anos para escoamento de cocaína, armas e outros ilícitos, aproveitando a fronteira porosa e a complexidade geográfica da Amazônia, o que demandaria uma vigilância contínua das forças de segurança brasileiras.

O que efetivamente não temos e o Estado não se mostra capaz de oferecer”, reforça Breunig.

Estruturas de facções não foram afetadas
Outra avaliação feita por especialistas é que, por ora, a estrutura de poder dessas organizações dentro da Venezuela permaneceu praticamente intacta, sem perda efetiva de controle territorial ou institucional. As facções venezuelanas não foram alvos explícitos da operação do fim de semana e elas têm conexões consolidadas com grupos colombianos. Uma eventual debandada mais significativa para o Brasil tenderia a envolver seus membros se houver uma intensificação a partir de agora dos Estados Unidos contra o núcleo de controle desses criminosos que vão além de embarcações no mar do Caribe e de portos por onde sairiam as drogas.

Seria preciso atacar o sistema logístico, operacional e financeiro e então veríamos esses criminosos que não forem presos buscarem desesperadamente refúgios regionais”, analisa Almeida.

Após meses de pressão dos Estados Unidos sobre o governo de Nicolás Maduro, o presidente Donald Trump ordenou uma operação militar contra a Venezuela, no fim de semana, e justificou a ação pela acusação de que Maduro e integrantes de seu círculo teriam participado de uma conspiração de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e outros crimes graves, com base em uma denúncia federal apresentada em 2020 no Distrito Sul de Nova York e intensificada por Washington nos últimos anos.

Maduro foi capturado pelas forças americanas em Caracas e levado sob custódia dos Estados Unidos para Nova York, onde já compareceu perante um tribunal federal para enfrentar acusações que incluem tráfico de drogas e terrorismo, com possibilidade de prisão perpétua, caso seja condenado. “Porém, o narcotráfico tem uma base estruturada e deve seguir operante se nada for feito contra ela”, destaca Gomes.
De acordo com essa avaliação, um cenário de fuga de criminosos só se tornaria provável diante de uma ação ampla e profunda dos Estados Unidos, capaz de atingir a infiltração dessas redes criminosas no Estado venezuelano.

Até agora, a ofensiva americana se voltou à captura de Nicolás Maduro, acompanhada de sinais de que acordos e termos poderiam ser mantidos com quem permaneceu no poder. A possibilidade de fuga em massa de criminosos está diretamente ligada a uma eventual perda do controle situacional dessas organizações, algo que ainda não apresenta indícios concretos, embora isso pode ocorrer no curto ou médio prazo”, avalia Marcelo Almeida.

(Foto: iStock)

Fonte: Gazeta do Povo

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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