Ciência

Estrelas ‘inativas’ podem esconder centenas de exoplanetas, revela estudo

Estudo mostra que estrelas com baixa atividade magnética têm maior chance de abrigar exoplanetas, o que pode tornar as buscas espaciais menos aleatórias

Por Éric Moreira

Pesquisadores desenvolveram uma abordagem que pode facilitar a identificação de estrelas que abrigam planetas fora do Sistema Solar. O método se baseia na análise de sinais específicos presentes na luz emitida pelas estrelas e pode tornar menos aleatória a busca por exoplanetas, segundo um estudo recente conduzido por uma equipe internacional de cientistas.
A técnica parte da observação de que estrelas com níveis aparentemente baixos de atividade magnética podem ser candidatas promissoras a hospedar planetas em órbita próxima. A partir dessa hipótese, os pesquisadores analisaram dados de várias estrelas e já conseguiram identificar novos mundos que ainda não haviam sido detectados. Utilizando o novo método, a equipe identificou meia dúzia de planetas até então desconhecidos. No entanto, os autores do estudo ressaltam que esses mundos provavelmente não são habitáveis, pois orbitam muito perto de suas estrelas hospedeiras.
Grande parte dos mais de seis mil exoplanetas já catalogados está localizada em órbitas extremamente próximas das estrelas. Essa proximidade expõe os planetas a radiação intensa, capaz de desgastar suas superfícies e gerar correntes de detritos que podem se espalhar pelo espaço. Em alguns casos, esses fragmentos formam estruturas semelhantes a caudas de cometas.
Um exemplo desse tipo de objeto é o exoplaneta K2-22b, que foi analisado pelo Telescópio Espacial James Webb em 2025. Os detritos liberados por esses mundos podem permanecer durante milhões de anos orbitando a estrela ao redor da qual o planeta gira. Paradoxalmente, esse material pode ajudar na identificação de novos planetas. Os detritos são compostos principalmente por gases que absorvem parte da luz da estrela em frequências específicas do espectro visível, criando assinaturas detectáveis pelos instrumentos astronômicos.

Essa absorção poderia fazer com que a estrela parecesse artificialmente [magneticamente] menos ativa”, disse Matthew Standing, pesquisador do Centro Europeu de Astronomia Espacial da Agência Espacial Europeia em Madri e principal autor do novo estudo, ao Live Science por e-mail.

Em outras palavras, estrelas magneticamente inativas são alvos potencialmente interessantes na busca por exoplanetas próximos e em processo de desintegração. Caso a hipótese seja confirmada por pesquisas adicionais, a descoberta pode ajudar a orientar futuras expedições de busca por planetas, tornando o processo mais direcionado.

Detalhes do estudo
Para testar a ideiaStanding e seus colaboradores selecionaram inicialmente 24 estrelas com níveis aparentemente baixos de atividade magnética. A seleção foi feita no contexto do Projeto Planeta de Matéria Dispersa (DMPP), que já havia analisado algumas dessas estrelas em um estudo anterior realizado em 2020. Em seguida, os cientistas coletaram espectros de luz visível dessas estrelas — registros que mostram como a intensidade da luz varia em diferentes comprimentos de onda perceptíveis ao olho humano. As observações foram realizadas com telescópios instalados no Observatório Espacial Europeu, localizado no Chile.
Cada estrela foi observada ao menos dez vezes ao longo de um período que chegou a duas semanas. Durante essas medições, os pesquisadores procuraram sinais de oscilações no movimento das estrelas. Essas variações podem ocorrer quando a gravidade de um planeta em órbita exerce influência sobre a estrela, fazendo com que ela se mova ligeiramente. Esse método é conhecido como técnica de velocidade radial.

Depois da coleta de dados, os cientistas aplicaram um algoritmo computacional para verificar se as variações observadas nas curvas de luz poderiam ser explicadas pela presença de até quatro planetas em cada sistema estelar analisado. A ferramenta também permitiu estimar a sensibilidade do levantamento e avaliar com que frequência planetas próximos aparecem em torno de estrelas com baixa atividade magnética.
Os resultados da pesquisa foram publicados em 28 de fevereiro no periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. A análise revelou que 14 das estrelas estudadas abrigavam um total de 24 exoplanetas. Entre eles, sete mundos ainda não haviam sido identificados anteriormente e foram encontrados em cinco sistemas planetários distintos. Além disso, os pesquisadores calcularam que a frequência de exoplanetas nas estrelas analisadas é entre oito e dez vezes maior do que a observada em levantamentos tradicionais baseados na técnica de velocidade radial. Esse resultado reforça a hipótese de que estrelas aparentemente pouco ativas magneticamente têm maior probabilidade de hospedar planetas próximos e altamente irradiados.

O estudo também indicou que o levantamento foi bastante abrangente. Segundo a análise, quase 95% dos exoplanetas com massa superior a dez vezes a da Terra e que completam uma órbita em até cinco dias foram identificados durante a investigação.
Com base nesses resultados, os pesquisadores expandiram sua análise para a vizinhança cósmica próxima do Sistema Solar. A equipe compilou uma lista de aproximadamente 16 mil estrelas localizadas a até 1.600 anos-luz de distância. Entre elas, 241 apresentaram sinais semelhantes de baixa atividade magnética.
Considerando a proporção de planetas encontrada no estudo, os cientistas estimam que essas estrelas possam abrigar cerca de 300 exoplanetas ainda não descobertos, repercute o Live Science. Standing destaca que o potencial da técnica ainda precisa ser confirmado com mais dados, mas demonstra otimismo quanto ao método.

Se confirmado com amostras maiores, esse método poderá ajudar a tornar as buscas por exoplanetas mais eficientes”, afirmou.

Segundo o pesquisador, o próximo passo será ampliar o número de estrelas analisadas e continuar monitorando os dados de velocidade radial em busca de novos sinais de planetas em órbita.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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