Inflação estoura a meta pela 5.ª semana consecutiva e mercado cobra Banco Central

O Brasil caminha para fechar 2026 com inflação acima do teto da meta. Pela quinta semana consecutiva, os agentes financeiros elevaram suas projeções para o IPCA no Boletim Focus, e a mediana saltou de 4,36% para 4,71% — rompendo o limite máximo de 4,5% fixado pelo Conselho Monetário Nacional. Não é uma oscilação pontual. É uma deterioração consistente das expectativas que coloca o Banco Central numa posição cada vez mais difícil às vésperas de um ano eleitoral.
A escalada das projeções ganhou força depois que o IBGE divulgou, na sexta-feira 10 de abril, que a inflação acumulada em 12 meses até março chegou a 4,14%, com alta mensal de 0,88% — acima do que o próprio mercado esperava. O número surpreendeu economistas e acendeu um alerta direto: o Banco Central precisa ser mais conservador no ciclo de corte de juros. Em outras palavras, o mercado está pedindo para o BC frear antes de frear demais.
O próprio Banco Central já havia admitido em março que a probabilidade de a inflação ultrapassar o teto da meta era de 30%. Agora, com a mediana do Focus perfurando esse teto para 2026 pela primeira vez no ciclo atual, essa probabilidade deixou de ser uma estimativa técnica e passou a ser a expectativa majoritária do mercado financeiro.
A sequência de revisões para cima no Focus não é acidental. Reflete uma combinação de fatores que se acumularam ao longo dos últimos meses: a resistência da inflação de serviços, o câmbio pressionado acima de R$ 5,00, o mercado de trabalho aquecido e, mais recentemente, a incerteza gerada pelo conflito no Oriente Médio. Cada um desses fatores, isolado, seria administrável. Juntos, formam um cenário que o mercado já precifica como fora de controle dentro da meta. Para 2027, a mediana da inflação também subiu, de 3,85% para 3,91%, indicando que o problema não se resolve sozinho com a virada do ano. O mercado projeta que a pressão inflacionária se estende além do ciclo imediato.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tem repetido que é preciso “tempo para entender” os impactos do conflito no Oriente Médio antes de definir os próximos passos da política monetária. Citou a necessidade de “movimentos mais seguros” num período de incerteza, mas ponderou que o Brasil tem uma “gordura” por ter mantido os juros elevados ao longo de 2025.
A ata do Copom foi direta ao afirmar que os próximos passos dependerão da duração do conflito. O BC alertou que o prolongamento da guerra poderá ter impacto “significativo e duradouro”, com dois efeitos simultâneos sobre a economia: enfraquecimento da atividade e alta da inflação — a combinação mais temida por qualquer banco central, por não ter solução simples de política monetária.
Na última reunião, o Copom cortou a Selic de 15% para 14,75% ao ano. O mercado manteve em 12,50% ao ano a mediana para a taxa básica ao fim de 2026, sinalizando que o ciclo de cortes ainda tem espaço, mas com margem cada vez mais estreita. Para 2027, a Selic esperada é de 10,50% ao ano.
O dólar recuou levemente nas projeções, de R$ 5,40 para R$ 5,37 em 2026, e de R$ 5,45 para R$ 5,40 em 2027. As estimativas de crescimento do PIB não foram alteradas: 1,85% para 2026 e 1,80% para 2027.Cinco semanas de alta seguida na inflação esperada, um IPCA mensal acima das estimativas, um conflito externo sem data para terminar e um Banco Central que cortou juros na semana passada. O mercado já fez sua leitura — e ela aponta para uma inflação que não caberá mais dentro da meta.
Fonte: Hora Brasília





