Os oceanos estão se enchendo de petroleiros abandonados

Crise silenciosa nos mares ganha escala em 2025 com 410 petroleiros abandonados confirmados pela ITF
Por Caio Aviz
No ano passado, o abandono de petroleiros e embarcações comerciais atingiu nível recorde. Segundo relatório divulgado em dezembro de 2025 pela Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF), foram registrados 410 navios abandonados no mundo. Em comparação, em 2016 haviam sido contabilizados apenas 20 casos. Assim, o crescimento tornou-se expressivo e documentado.
Além disso, conforme dados consolidados pela ITF ao longo de 2025, mais de 6.000 marinheiros foram diretamente afetados. Consequentemente, a crise deixou de ser pontual e passou a configurar tendência global no transporte marítimo. Primeiramente, o abandono não envolve apenas a embarcação. Pelo contrário, envolve trabalhadores deixados sem salários, suprimentos e assistência jurídica. De acordo com a ITF, os marinheiros indianos representam o maior grupo afetado, com mais de mil casos registrados em 2025.
Por exemplo, em novembro de 2025, um chefe de convés identificado como Ivan relatou à BBC escassez de alimentos básicos a bordo. Segundo o depoimento, faltaram carne, grãos e peixe durante semanas. Além disso, o navio permaneceu fora das águas territoriais chinesas, sem autorização para atracar. Paralelamente, ganhou força a expressão “navios fantasmas”, também chamados de “navios zumbis”. Esses petroleiros operam com estruturas societárias opacas. Assim, conseguem contornar restrições financeiras e regulatórias.
Desde fevereiro de 2022, quando começou a guerra na Ucrânia, formou-se um mercado paralelo para transporte de petróleo de países sob sanções, como Rússia, Irã e Venezuela. Consequentemente, embarcações antigas tornaram-se ativos estratégicos. Em geral, tratam-se de petroleiros com cerca de duas décadas de uso, próximos do desmanche. Portanto, são adquiridos para operações rápidas, sem investimentos estruturais. Além disso, muitos não contam com cobertura integral de Clubes de P&I, o que amplia riscos financeiros e ambientais.

Além disso, conforme a própria ITF, 82% dos abandonos registrados em 2025 ocorreram sob bandeiras de conveniência. Nesse modelo, o proprietário registra o navio em país diferente do seu para obter regulamentação mais flexível. Entre os principais Estados estão Panamá, Libéria e Ilhas Marshall, responsáveis por 46,5% da frota mercante global. Entretanto, a Gâmbia chamou atenção em 2023 ao passar de zero para 35 embarcações registradas sob sua bandeira.
Segundo relatórios recentes da Organização Marítima Internacional (IMO), muitos desses países terceirizam inspeções técnicas. Portanto, a fiscalização pode se tornar limitada, sobretudo em embarcações mais antigas. Enquanto isso, o caso citado por Ivan ilustra a dimensão do risco. O navio transporta 750 mil barris de petróleo russo, avaliados em cerca de US$ 50 milhões. A embarcação partiu do Extremo Oriente russo no início de novembro de 2025.
Desde então, permanece próxima ao destino final, sem atracar. Assim, especialistas alertam para o potencial de vazamento ambiental. Além disso, estatísticas consolidadas indicam que mais de 80% dos acidentes marítimos envolvem erro humano. Em dezembro de 2025, a ITF interveio para providenciar salários atrasados, alimentação e iniciar planejamento de repatriação.
Embora existam iniciativas pontuais, o fenômeno permanece global. Por exemplo, a Índia incluiu 86 navios estrangeiros em lista negra por abandono de tripulantes e violação de direitos trabalhistas. Ao mesmo tempo, alguns Estados pressionam países que operam sob bandeiras de conveniência. Contudo, especialistas defendem maior harmonização regulatória internacional.
Fonte: Click Petróleo e Gás





