O papel do Estado no impulsionamento de inovações e da indústria

Por Leandro Barcellos de Passos
Quando uma revista se chama Aço 5.0, não é por razão trivial: a indústria siderúrgica é uma das mais estratégicas e estruturantes da economia. Todos os dias, o aço se faz presente em nosso cotidiano, em nossas residências, nossos eletrodomésticos, nossos meios de transporte, nos cuidados de saúde, na infraestrutura da cidade, na indústria e por aí vai.
Nas últimas décadas ouvimos que o Brasil tem passado por um processo de desindustrialização com uma queda de participação do PIB de mais de 30% para menos 15%, o que podemos atribuir a fatores estruturais como alta carga tributária, falta de políticas industriais e outros aspectos relacionados ao famoso “custo Brasil”.
A indústria siderúrgica, assim como outras, exige visão de longo prazo tanto da iniciativa privada como do setor público e a nossa indústria siderúrgica nacional, que teve um marco relevante em 1941 com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional(CSN), durante o governo de Getúlio Vargas. Uma década depois, o aço se tornou uma das bases para o desenvolvimento brasileiro com a criação de outras siderúrgicas na década de 50 como Usiminas, Cosipa, Cofavi, Acesita, CST e Açominas.
Mas há um ponto fundamental que raramente é colocado de forma direta: o que todas essas empresas têm em comum? Todas elas nasceram dentro de uma estratégia nacional de industrialização com forte participação do Estado, seja com financiamento, planejamento e até controle direto.
Com frequência o debate sobre o papel do Estado na economia caminha para rumo de viés ideológico e simplificado como se houvesse uma dicotomia entre estatização total ou ausência completa do setor público. Na prática, enquanto muitos discutem se é papel do setor privado ou do Estado buscar a inovação, vemos nações como Estados Unidos, China e países da Europa, de diferentes formas, colocando indústrias e tecnologias de pé com modelos mistos.
Um dos casos mais famosos é o da Nasa que, embora seja uma agência estatal, adota um modelo híbrido, baseado em estratégia nacional, objetivos de longo prazo, aliado a financiamentos e demandas tecnológicas. A maior parte da execução de suas tecnologias se deu por empresas privadas e universidades, criando uma cadeia privada de fornecedores imensa que é contratada pela Nasa. Hoje, várias tecnologias do nosso dia a dia surgiram a partir dessas pesquisas como o famoso “travesseiro da Nasa”, sistemas de navegação por satélite (GPS) e materiais térmicos avançados.
A SpaceX, que revolucionou e ainda revoluciona o setor aeroespacial com os foguetes reutilizáveis (acabando até com o famoso ditado de que “foguete não dá ré”), chegou a ficar à beira da falência com aposta ousada de seu fundador, Elon Musk. Nesse momento crítico, em 2008, a Nasa fechou um contrato bilionário para transporte de cargas à estação espacial internacional.
O mesmo modelo não está restrito ao setor aeroespacial, já que diversas potências industriais do mundo tiveram a participação governamental. A Alemanha, que é um símbolo e referência de engenharia mundial, reconstruiu sua indústria no período pós-guerra com forte coordenação entre governo, empresas e universidades. Empresas como a Volkswagen, Siemens e Bosch são exemplos vivos dos resultados desse modelo, baseado em financiamento à inovação, educação técnica altamente especializada e políticas industriais de longo prazo. Não por acaso, nossas instituições de ciência e tecnologia buscam parcerias com o Instituto Fraunhofer. Por fim, não podemos deixar de trazer a China para essa discussão, especialmente com um exemplo que, hoje, já se faz presente no Espírito Santo e em todo o Brasil, a BYD.
A BYD era uma empresa de baterias recarregáveis para celulares e eletrônicos, até que incentivos da China em P&D, incentivos fiscais e acesso facilitado a crédito permitiram a seu fundador almejar o mercado automobilístico até então dominado por Japão, Alemanha e Estados Unidos. Hoje a BYD está consolidando presença global com seus carros elétricos, após receber bilhões em subvenções, incentivos fiscais, incentivos por meio de contratações do governo, se tornando um competidor direto das empresas que, por décadas, dominaram a indústria automobilística. Para se ter ideia do crescimento da empresa, veja o gráfico abaixo sobre vendas de veículos da Tesla e da BYD no período de 2018 a 2025.
Precisamos ter uma leitura estratégica dessas iniciativas e tendências sem nos deixar levar pela ilusão de que o Estado precisa apoiar tudo de forma indiscriminada e irresponsável. Todas essas histórias de sucesso foram e são fortemente lideradas por empreendedores arrojados, pois a iniciativa privada majoritariamente continua sendo mais eficiente para executar, competir, inovar, assumir riscos comerciais e transformar tecnologia em escala.
O cerne da questão talvez seja que, se pensarmos em setores estratégicos, intensivos em tecnologia e de longo prazo, dificilmente grandes transformações acontecem sem algum nível de coordenação, financiamento ou impulsionamento público e acredito que esse é um dos grandes desafios do Brasil e do Espírito Santo para as próximas décadas.
Mais do que discutir modelos ideológicos extremos, o país precisa refletir sobre como criar ambientes favoráveis para que empresas, universidades, centros de pesquisa e governos consigam atuar de forma complementar em áreas estratégicas.
No Espírito Santo, iniciativas como a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) representam justamente esse tipo de mecanismo de impulsionamento, haja vista que neste ano a entidade anunciou R$ 300 milhões em investimentos para promover a inovação por meio de diversos editais. A FAPES vem se tornando cada vez mais uma referência em nosso estado e também um exemplo e inspiração para fundações de outros estados.
Ao apoiar projetos de pesquisa aplicada, inovação industrial, desenvolvimento tecnológico e interação entre empresas e instituições de ciência e tecnologia, a fundação ajuda a reduzir barreiras que muitas vezes impedem empresas locais de investir em soluções inovadoras.
O Espírito Santo conta com um Plano ES 500 anos, com uma cultura de inovação pujante e encontra um cenário político, econômico e de capital humano exemplar para o nosso país. Estamos no caminho para nos tornarmos o modelo verde e amarelo do Vale do Silício, mas com um tempero diferente, pois temos algo que eles nunca terão: a melhor moqueca do Brasil.

Leandro Barcellos de Passos
Diretor da Eficácia Consultoria




