Comportamento & Equilíbrio

TRG: a terapia que está mudando a forma de compreender a dor emocional — Parte 7

Por que repetimos o que nos fere: a lógica oculta dos padrões emocionais

Por Michel JC Brugnoli

Uma das dores mais frustrantes da experiência humana
não é apenas sofrer.
É repetir.
Repetir o vínculo que machuca.
Repetir a escolha que fere.
Repetir a reação que sabota.
Repetir o medo que limita.
Repetir o padrão que aprisiona.
E talvez nada seja tão desconcertante quanto perceber que, muitas vezes, a pessoa sabe.
Sabe que aquilo faz mal.
Sabe que aquele vínculo adoece.
Sabe que aquela reação destrói.
Sabe que aquela escolha cobra caro.
Sabe.
E ainda assim repete.
É nesse ponto que nasce uma das formas mais cruéis de sofrimento, não apenas a dor do que se vive, mas a culpa de continuar vivendo o que se reconhece como nocivo.
“Por que eu faço isso de novo?”.
“Por que eu volto para o que me machuca?”.
“Por que eu repito aquilo que me destrói?”.
“Se eu sei, por que não mudo?”.
Essas perguntas não nascem de ignorância.
Nascem de exaustão.
E para respondê-las com seriedade, é preciso abandonar uma leitura simplista a de que repetição é apenas falta de força, de consciência ou de vontade.
Quase nunca é tão simples.
A repetição não é ausência de inteligência.
É excesso de programação.
Esse é um dos pontos mais importantes da clínica.
Pessoas não repetem apenas porque não aprenderam.
Frequentemente, repetem porque aprenderam demais.
Aprenderam:
o que esperar,
o que temer,
o que tolerar,
o que evitar,
o que merecem,
o que precisam suportar para manter vínculo,
o que significa amor,
o que significa segurança,
o que significa pertencimento.
E aquilo que o sistema aprende cedo, especialmente em contextos emocionalmente intensos, tende a deixar de operar como escolha e passar a operar como padrão.
É por isso que tantas repetições não parecem decisão.
Parecem destino.
Mas não são destino.
São automatização emocional.
O familiar nem sempre é seguro.
Mas quase sempre parece reconhecível.
Essa é uma das razões mais profundas pelas quais seres humanos repetem padrões que os ferem.
O sistema nervoso não busca apenas o que é bom.
Busca, antes de tudo, o que reconhece.
E o que é reconhecível costuma ser confundido com o que é seguro.
Esse é um dos enganos mais silenciosos da vida emocional.
Nem sempre escolhemos o que nos faz bem.
Muitas vezes, escolhemos o que nos parece familiar.
E o familiar, quando foi aprendido cedo, pode carregar:
instabilidade,
rejeição,
• imprevisibilidade,
ausência,
crítica,
tensão,
abandono,
insegurança,
hipervigilância,
esforço para merecer afeto.
Ainda assim, o sistema reconhece.
E o que reconhece, tende a reproduzir.
Não porque deseja sofrer.
Mas porque aprendeu a chamar aquilo de normal.

Repetição é, muitas vezes, tentativa de resolução
Esse é um dos paradoxos mais importantes da clínica profunda.
Nem toda repetição é autossabotagem no sentido simples.
Muitas são tentativas inconscientes de resolução.
O psiquismo retorna, com frequência, a padrões antigos não apenas por compulsão cega, mas por tentativa de reorganizar, corrigir, dominar ou finalmente resolver aquilo que um dia permaneceu em aberto.
Sigmund Freud chamou isso, em formulação clássica, de compulsão à repetição a tendência de o psiquismo reeditar, em novas formas, conteúdos não elaborados.
Décadas depois, diferentes abordagens clínicas ampliaram essa compreensão, o sistema não repete apenas porque falha em aprender.
Frequentemente, repete porque tenta concluir.
O problema é que tenta com os mesmos registros, as mesmas defesas, as mesmas respostas, e por isso frequentemente recria o sofrimento em vez de encerrá-lo.
A repetição, nesse sentido, não é apenas insistência.
É tentativa de resolução com ferramentas antigas.
O padrão não se mantém porque faz sentido.
Mas porque faz circuito
Essa é a lógica central.
Padrões emocionais não se sustentam apenas por crença consciente.
Sustentam-se por circuito.
Eles se tornam:
vias preferenciais,
• respostas treinadas,
associações reforçadas,
mapas internos de vínculo,
previsões emocionais automatizadas.
O sistema aprende, repete, reforça e automatiza.
Com o tempo, aquilo deixa de parecer uma reação.
Passa a parecer identidade.
“Eu sou assim”.
“Eu sempre faço isso”.
“Eu sempre estrago tudo”.
“Esse é meu jeito”.
“Eu nasci assim”.
Na clínica, essa é uma das confusões mais dolorosas quando a pessoa confunde padrão com essência.

O que a TRG busca reorganizar nos padrões repetitivos
Na TRG, a repetição não é lida apenas como erro de escolha.
É lida como resposta condicionada sustentada por registros emocionais e circuitos de repetição.
Isso muda profundamente a forma de tratar.
O foco terapêutico deixa de ser apenas: “por que você faz isso?”.
E passa a ser: “o que, em você, ainda aprende que precisa fazer isso para sobreviver, pertencer, se proteger ou ser aceito?”.
Essa mudança é decisiva.
Porque o objetivo não é apenas interromper comportamento.
É reorganizar o circuito que o torna provável.
Na prática, isso significa acessar:
registros emocionais,
padrões de vínculo,
respostas condicionadas,
associações afetivas,
mecanismos de defesa,
e repetições internalizadas que continuam operando como lógica automática.
Quando esse circuito começa a ser reprocessado:
a repetição perde força,
o impulso automático reduz,
o vínculo deixa de ser compulsão,
a escolha recupera espaço,
e o sujeito volta a diferenciar familiaridade de segurança.
Esse é um dos momentos mais profundos da mudança clínica, quando a pessoa percebe que não era “seu jeito”.
Era seu padrão. E padrão pode ser reorganizado.

Relato clínico (identidade preservada)
“Eu sempre dizia que meu problema era azar com pessoas.
Depois percebi que não era azar.
Era repetição.
Eu mudava os rostos, mas vivia a mesma história.
A mesma ansiedade.
A mesma insegurança.
A mesma necessidade de provar valor.
Na TRG, eu não entendi só por que eu repetia.
Eu entendi o que em mim ainda chamava aquilo de amor”.
▶ Relato de cliente, 41 anos (repetição afetiva e vínculo disfuncional)

O ser humano raramente repete o que quer.
Repete, quase sempre, o que aprendeu.
E enquanto isso não for compreendido com profundidade, muita gente continuará chamando de destino
aquilo que, na verdade, é memória emocional em repetição.
No próximo capítulo, entraremos em uma das perguntas mais importantes desta jornada: como acontece, na prática, uma sessão de TRG, e o que o paciente vivencia dentro do processo terapêutico.

Fontes, autores e base teórica
Sigmund Freud (1856–1939)
Neurologista austríaco, fundador da psicanálise.
Conceito central: compulsão à repetição.
Obra: Além do Princípio do Prazer (1920).
John Bowlby (1907–1990)
Psiquiatra e psicanalista britânico. Referência em apego e padrões de vínculo.
Obra: Attachment and Loss.
Jeffrey Young (1950–)
Psicólogo norte-americano. Referência em esquemas emocionais e padrões repetitivos.
Obra: Schema Therapy.
Bessel van der Kolk (1943–)
Psiquiatra e pesquisador do trauma. Referência em memória emocional e repetição traumática.
Obra: The Body Keeps the Score (2014).

Nota de rigor científico
A formulação apresentada integra psicanálise, teoria do apego, esquemas emocionais e modelos de reprocessamento clínico. O objetivo é explicar, em linguagem acessível, como padrões emocionais se consolidam, se repetem e podem ser reorganizados terapeuticamente.

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *