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Plástico, o aliado muito injustiçado do desenvolvimento sustentável

O anúncio de um interessante investimento da Fibrasa (empresa capixaba que é uma das principais produtoras de embalagens plásticas do país) foi, de fato, bastante relevante no final de maio de 2026 (https://www.folhavitoria.com.br/folha-business/fibrasa-projeta-faturar-r-700-milhoes-com-embalagens-mais-sustentaveis/), não só pelo alto valor envolvido, mas pelo objetivo traçado de oferecer à sociedade um produto de mesma qualidade a um custo industrial (e ambiental) significativamente menor.
Isto permite trazer à reflexão um elemento bastante conhecido da comunidade dos profissionais de Química de todo o planeta: os plásticos, em sua miríade de versões, na forma de filmes, películas e utensílios que, indo além, alcançam estruturas rígidas de maior ou menor intensidade, em uma infinita combinação de aplicações são, de fato, grandes injustiçados do desenvolvimento sustentável.
Esta dificuldade de compreensão do plástico como aliado do desenvolvimento tem origem no fato de que a poluição, em suas diversas formas, é um dos grandes desafios sociais de nosso tempo, e o fato de que, nos locais onde se depositam resíduos urbanos, seu tempo bastante longo de decomposição aparentam, de forma inequívoca, que tais materiais simplesmente não deveriam existir.

Aliado a isso a imagem de sacolas abandonadas ao vento, nas ruas de qualquer cidade, ou vagando pelos mares ameaçando a fauna aquática corroboram a imagem de vilã dos tempos modernos, o mal a ser combatido. Entretanto, nada mais falso. Vejamos alguns argumentos.
As presas dos elefantes (marfins) eram arrancadas destes animais para confeccionar bolas de bilhar em todo o planeta, além de outros objetos diversos como adornos de decoração. Felizmente, em 1869, o americano J.W. Hyatt aprimorou a invenção de A. Parkes, que criou sete anos antes a Parkesina, o primeiro material plástico semissintético, feito à base de celulose e projetado para ser uma alternativa barata ao marfim. A inovação de Hyatt, aprimorando a fórmula de Parkes, nos deu a celuloide, um substituto perfeito do marfim e usado, desde então, para a confecção de bolas de bilhar e congêneres. A propósito, convido o leitor a pesquisar sobre como materiais à base de celuloide cercam nosso cotidiano.

(Foto: Pixabay)

Imaginemos, agora, que uma lei planetária abolisse a produção de sacolas plásticas. Sacolas de papel então ocupariam essa função e, portanto, problema resolvido? Não. Uma tonelada de plástico equivale a cerca de 10 vezes mais sacolas do que uma tonelada de papel, devido à diferença de peso e espessura. Portanto, substituir uma tonelada de sacolas plásticas, derivadas do petróleo, por sacolas de papel equivaleria a fabricar uma quantidade de papel que exigiria o corte de 20 a 50 árvores adultas (fonte: Guia Politicamente Incorreto do Meio Ambiente, Leandro Narloch). E este foi o objetivo pelos quais foram originalmente criadas nos anos 1950, pelo engenheiro sueco S.G. Thulin, exatamente como uma alternativa ecológica às sacolas de papel.

(Foto: Gerada por IA)

Infelizmente, algo não previsto, como a cultura do descartável, fez as pessoas passarem a tratar as sacolas plásticas de uso único como descartáveis, principalmente por serem muito baratas, permitindo sua acumulação como lixo em aterros e nos oceanos. Aliado a isso, seu impacto fóssil também é significativo, por ser derivado do petróleo, sendo seu descarte incorreto ou incineração causador de liberação de gases de efeito estufa e poluidor do solo por centenas de anos. Ou seja, um produto excelente tratado como lixo deveria ser tratado como um problema de educação individual e ambiental e não um problema do próprio produto.
E para encerrar esta breve lista, temos as tartarugas, ou melhor seus cacos, usados para diversos fins como, por exemplo, aros de óculos, pentes e coisas do gênero. Os óculos de tartaruga originais, feitos com cascos reais de tartarugas, foram substituídos, principalmente, pelo acetato de celulose. Este material é um polímero semissintético feito a partir da celulose da madeira ou do algodão, valorizado pelo seu baixo custo, transparência e origem renovável, sendo utilizado também na indústria têxtil, em embalagens e curativos médicos, dentre outras aplicações.
Poderíamos tecer muitas outras aplicações de materiais plásticos que auxiliam o desenvolvimento humano e de nossa civilização, e para isso sugiro a leitura do excelente livro de Matt Ridley, jornalista especializado em ciência e autor do livro Otimista Racional, que aborda esse e outros temas.

(Foto: Gerada por IA)

Por fim, a matéria-prima dos plásticos, o petróleo, também deve ser lembrado pelo seu papel sustentável. Antes de sua popularização, o óleo extraído da gordura de baleias-franca e dos cachalotes era a principal fonte de energia para a iluminação pública, residencial e lubrificação de máquinas industriais. A descoberta e o refino em larga escala do querosene e de outros derivados do petróleo tornaram o óleo animal obsoleto, poupando os cetáceos da extinção.
A demanda por óleo de baleia, entre os séculos XVIII e XIX, para o crescimento das cidades e da industrialização exigiu grandes quantidades de energia. A gordura e o espermacete (óleo localizado na cabeça dos cachalotes) eram altamente valorizados porque queimavam de forma limpa, brilhante e serviam como lubrificantes excepcionais para máquinas. Desta forma, estima-se que, em apenas quatro décadas, cerca de 300 mil baleias foram mortas para suprir este mercado. (Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2023/01/30/petroleo-salvou-as-baleias-antes-oleo-do-animal-era-usado-ate-em-armas.htm)
Demonizar os plásticos é fácil com base em falácias simplórias, entretanto, é extremamente difícil imaginar o mundo atual sem estes materiais, onde o verdadeiro desafio é proporcionar qualidade de vida, conforto e desenvolvimento real para bilhões de seres humanos.

Robson Valle

Engenheiro químico, vice-presidente da Associação Profissional dos Químicos do ES (Aproquimes) Página pessoal: https://rvalle.com.br/eqes/

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