Bauxita da Guiné pressiona logística e competitividade da mineração brasileira

Produção do país africano saltou de 10 milhões para 80 milhões de toneladas em três anos, ampliando a pressão sobre produtores tradicionais como a MRN
Por Rodrigo Conceição Santos
O avanço da produção de bauxita na Guiné mostra o desafio da logística para a mineração brasileira. O tema foi destacado por executivos da Porto Sudeste do Brasil e da Mineração Rio do Norte (MRN) durante a Exposibram 2026. Para Jayme Nicolato Corrêa, CEO do Porto Sudeste do Brasil, a logística precisa ser considerada desde as primeiras etapas de desenvolvimento de um projeto mineral. Ele citou o avanço da produção de bauxita na Guiné como exemplo da velocidade com que novos concorrentes podem chegar ao mercado.
A produção de bauxita no país africano, segundo Rogério Junqueira, da MRN, saiu da faixa de 10 milhões de toneladas anuais para 80 milhões de toneladas, em um intervalo de apenas três anos. O movimento aumenta a pressão sobre produtores tradicionais, como a MRN, que é a maior do Brasil no setor, com produção de cerca de 12,5 milhões de toneladas de bauxita por ano.
“Máquina chinesa” na bauxita da Guiné
O avanço da Guiné está associado não apenas à disponibilidade mineral na região, mas também à combinação entre capital, integração logística e velocidade de implantação – promovidos pela China. Segundo Junqueira, essa “máquina chinesa” permite que novos projetos sejam colocados em operação em um ritmo mais acelerado que o observado no Brasil.
Diante desse cenário, a estratégia da MRN está na qualidade do minério, eficiência operacional e busca por novos mercados.
O Projeto Novas Minas (PNM), no oeste do Pará, prevê a mineração de bauxita em cinco novos platôs (Rebolado, Escalante, Jamari, Barone e Cruz Alta Leste), localizados nos municípios de Oriximiná, Terra Santa e Faro. Com isso, a MRN pretende substituir gradualmente jazidas que caminham para o esgotamento.
A iniciativa mantém a capacidade de produção da empresa em 12,5 milhões de toneladas anuais e estende as operações por mais 15 anos. O projeto também prevê o aproveitamento da maior parte da infraestrutura já existente, com novas vias de acesso e estruturas operacionais, além da adoção do método de deposição de rejeito a seco em cava, de acordo com a MRN.
O fator clima
As condições climáticas são outro componente para o planejamento logístico de bauxita. A região onde a MRN atua, na Amazônia, registra cerca de 3 mil milímetros de chuva por ano, tornando o material úmido demais para ser exportado. Enquanto para atender às refinarias brasileiras o produto pode chegar com cerca de 12% de umidade, para exportação é necessário reduzir esse índice para 5%, inclusive para evitar problemas relacionados ao congelamento do produto durante o transporte para países do Hemisfério Norte.
Ao inverso, na seca, o enfrentamento é o ciclo de vazante dos rios, que influencia diretamente a capacidade de carregamento dos navios. A MRN responde por aproximadamente 30% da cadeia de alumínio brasileira e abastece unidades como Alumar e Alunorte. A operação utiliza navios preparados para navegar em condições de menor calado, mas mesmo essas embarcações enfrentam restrições durante os períodos de vazante.
Por essas várias questões, Rogério Junqueira frisou que a operação da MRN é totalmente dependente da logística fluvial. A produção é escoada pelos rios e os insumos, peças e outros materiais necessários também chegam por balsa, em uma frequência de aproximadamente uma vez por semana. Com minérios, a MRN movimenta cerca de 250 navios Panamax por ano. Durante períodos de baixa do rio, embarcações com capacidade para 50 mil toneladas podem ser obrigadas a carregar aproximadamente 28 mil toneladas, reduzindo quase pela metade a eficiência do transporte.
A alternativa, segundo Junqueira, é aumentar o número de embarcações e utilizar previsões meteorológicas e hidrológicas para antecipar os períodos de maior restrição. A empresa também concentra determinadas atividades de manutenção durante períodos de estiagem, para reduzir o risco de interrupções.
Fonte: Radar Mineração






