Geral

Moraes teria editado contrato de R$ 131 milhões de Viviane com Vorcaro

Metadados de documento apontam edição atribuída ao ministro do STF em contrato com o escritório de sua mulher

Por Guilherme Grandi

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria aberto e editado uma versão do contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o liquidado Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e o escritório de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, de acordo com apurações publicadas nesta terça-feira (1.º) pelos jornais Estadão e O Globo. A informação consta dos metadados do documento extraído do celular de Vorcaro e foi confirmada pelo próprio escritório de Viviane, que afirmou que o ministro acessou e editou o arquivo.
As investigações da Polícia Federal apontam que o escritório de Viviane Barci foi contratado para defender os interesses do Banco Master “onde for necessário” sempre que solicitado. Inicialmente, era previsto um pagamento de R$ 129 milhões, valor aumentado agora com o andamento da apuração. Em nota, o escritório Barci de Moraes afirmou que Moraes foi procurado pelo setor de compliance para prestar informações sobre possíveis impedimentos legais à contratação da banca pelo Banco Master.
“Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”, pontuou a nota (veja na íntegra mais abaixo). A Gazeta do Povo procurou também a própria defesa de Vorcaro e o gabinete de Moraes no STF e aguarda retorno.

Como foi a edição do contrato por Moraes
Segundo as apurações, o contrato começou a ser discutido em janeiro de 2024, quando Viviane enviou uma minuta a Vorcaro pelo WhatsApp. “Prezado Daniel, boa tarde. Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise”, escreveu a advogada em 11 de janeiro. Quatro dias depois, Vorcaro devolveu o documento com alterações, afirmando que “foi incluída apenas a cláusula I.3. Por favor, nos indique se está adequada”. “Caso estejam de acordo, combinamos a assinatura!”, afirmou o banqueiro.
Essa é a versão que, segundo os metadados extraídos pela investigação, foi posteriormente aberta e modificada em uma conta do Office 365 identificada como “Ministro Alexandre de Moraes”. A alteração aparece registrada às 23h04 de 15 de janeiro, cerca de uma hora e 40 minutos depois de Vorcaro devolver o arquivo a Viviane. Os metadados são informações técnicas armazenadas dentro do próprio documento e podem registrar dados como autor, datas e horários de alterações. Na versão analisada, o administrador do escritório Barci de Moraes, Guilherme de Toledo Benazzi, aparece como autor original do arquivo. O acordo previa 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório de Viviane, totalizando R$ 108 milhões líquidos. Como o contrato estabelecia que os valores seriam livres de impostos, o desembolso bruto previsto chegava a R$ 131,2 milhões.

Escritório recebeu R$ 80 milhões
Os pagamentos começaram em 2024 e foram interrompidos após a primeira prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando supostamente viajaria para os Emirados Árabes Unidos para vender parte do Master a investidores. Documentos enviados à CPI do Crime Organizado apontaram que o escritório de Viviane Barci recebeu R$ 80,2 milhões do Master entre 2024 e 2025. Foram realizados 22 pagamentos de aproximadamente R$ 3,6 milhões cada entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. Antes da edição atribuída a Moraes, a equipe jurídica de Vorcaro havia feito alterações no contrato conduzidas pelo advogado Leonardo Palhares, alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero, em março deste ano.

● Esta fase da operação abrangeu a suposta corrupção de servidores do Banco Central para atuarem como informantes e consultores de Vorcaro em assuntos internos.
● Foi também nesta terceira fase que Daniel Vorcaro foi preso pela segunda vez e, desde então, segue detido.
● O ex-banqueiro já ofereceu duas propostas de delação premiada sobre todo o esquema, mas que foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por não avançarem em informações que a investigação já apurou.
Relembre quais foram todos os alvos da Operação Compliance Zero em suas 10 fases até o momento.

As apurações apontam que, em 17 de janeiro de 2024, Viviane enviou a versão final do contrato a Vorcaro mantendo o acordo de 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos. “Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço”, escreveu. Em 23 de janeiro, o contrato foi efetivado e Viviane, que estava fora do Brasil, orientou Vorcaro a encaminhar as vias físicas para Benazzi “em um envelope lacrado e confidencial. Obrigada”. O documento foi assinado pelo ex-banqueiro no mesmo dia e encaminhado digitalmente em 24 de janeiro para que as partes concluíssem a assinatura eletrônica.

STF sob pressão
Desde que as primeiras informações sobre o contrato foram tornadas públicas, Moraes e o STF como um todo passaram a ser fortemente pressionados para darem uma resposta plausível sobre o envolvimento no caso Master. Além do magistrado, o ministro Dias Toffoli também foi tragado para a investigação, com a descoberta de que era sócio dos irmãos em um resort no interior do Paraná que teve cotas acionárias negociadas pelo pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como operador financeiro do esquema de fraude bilionária cometida através do Master.
Os dois casos, principalmente, levaram o ministro Edson Fachin, presidente da Corte, a tentar implementar um código de ética para restringir as relações dos magistrados com entres privados. A proposta, no entanto, enfrenta forte resistência justamente de Moraes e Toffoli, que afirmam que as atuais regras já são suficientes.

O que dizem os citados
Veja abaixo o que disse o escritório Barci de Moraes sobre a apuração:
Em virtude da abrangência do pedido de contratação de prestação de serviços advocatícios pelo Banco Master ao BARCI DE MORAES, o setor de compliance do escritório, como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações ao Ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente.
Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados.

Fonte: Gazeta do Povo

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *