Indústria

Comprada pela Toyota em 1934, prensa Komatsu de 700 toneladas atravessou mais de 90 anos de produção

Imagem ilustrativa representa uma prensa industrial de 700 toneladas semelhante ao equipamento adquirido pela Toyota em 1934, restaurada e novamente instalada no Japão após décadas de utilização na indústria automotiva

Por Felipe Alves da Silva

Poucas máquinas industriais conseguem atravessar praticamente toda a história de uma montadora e continuar trabalhando. Uma prensa mecânica Komatsu de 700 toneladas comprada em 1934 é uma dessas raridades. O equipamento foi encomendado por Kiichiro Toyoda quando a Toyota Motor Corporation ainda sequer existia. Naquele momento, a fabricação experimental de automóveis acontecia dentro do departamento automotivo da Toyoda Automatic Loom Works, empresa originalmente ligada à produção de teares. Mais de nove décadas depois, a enorme prensa continua operacional.
Ela acompanhou a formação da indústria automobilística japonesa, mudou de fábrica, cruzou o oceano para trabalhar durante mais de 60 anos no Brasil e, após o encerramento de sua longa passagem por São Bernardo do Campo, foi desmontada, enviada novamente ao Japão e restaurada. A Toyota adotou para ela um conceito que chama de “conservação funcional”: preservar a importância histórica do equipamento sem transformá-lo em uma máquina imóvel destinada apenas à exposição.

A prensa começou a trabalhar antes de a Toyota existir como montadora
A história começa em 1934. Kiichiro Toyoda, que depois seria reconhecido como fundador da Toyota Motor Corporation, encomendou à Komatsu uma prensa mecânica capaz de exercer 700 toneladas de força. A dimensão do equipamento chama atenção até hoje, mas seu contexto histórico é ainda mais significativo. A Komatsu havia sido fundada em 1921 e também era uma companhia relativamente jovem quando aceitou construir uma máquina daquele porte.
Naquele período, o Japão buscava ampliar sua própria capacidade industrial, reduzindo a dependência de equipamentos estrangeiros. Para a nascente operação automotiva da família Toyoda, contar com uma prensa japonesa de grande capacidade representava muito mais que simplesmente comprar outra máquina para uma fábrica. Era infraestrutura necessária para fabricar automóveis em escala.
A Toyota Motor Corporation seria criada apenas em 1937. Isso significa que a prensa já fazia parte da operação automotiva aproximadamente três anos antes do nascimento formal da empresa que acabaria se transformando em uma das maiores fabricantes de veículos do planeta.

Em 1938, a máquina acompanhou a expansão da produção de automóveis
A prensa não permaneceu muito tempo em seu primeiro endereço. Em 1938, quando a fabricação de automóveis foi transferida da instalação experimental de Kariya para a fábrica de Koromo, atual Honsha Plant, o equipamento também precisou ser deslocado.
Mover uma máquina industrial desse tamanho já era uma operação logística significativa naquela época. Instalada em Koromo, ela passou a trabalhar diretamente nos primeiros anos da produção automobilística da Toyota, participando justamente do período em que a companhia estruturava suas técnicas, instalações e processos industriais.
É esse passado que explica por que executivos da própria Toyota tratam o equipamento de maneira diferente de uma máquina antiga comum. Mitsuru Kawai, veterano da companhia, chegou a descrevê-la como uma espécie de testemunha viva de toda a história da Toyota.

Prensa Komatsu de 700 toneladas adquirida pela Toyota em 1934 atravessou mais de nove décadas de história industrial, passou mais de 60 anos em operação no Brasil e retornou ao Japão ainda capaz de produzir componentes (Foto: Divulgação)

Depois veio uma viagem muito maior: a prensa foi enviada ao Brasil em 1962
A etapa mais longa da vida operacional da máquina começou décadas depois e a milhares de quilômetros do Japão. Em 1962, a prensa foi transferida para a fábrica da Toyota em São Bernardo do Campo, em São Paulo. A unidade brasileira possui enorme peso histórico para a montadora. Foi a primeira fábrica da Toyota instalada fora do Japão, marcando uma das etapas iniciais de sua internacionalização industrial. A prensa de 700 toneladas acompanhou esse movimento.
No Brasil, passou a fabricar componentes e permaneceu trabalhando por mais de seis décadas. Segundo a própria Toyota, quando a história do encerramento da fábrica brasileira começou a ser preparada, a máquina acumulava aproximadamente 89 anos produzindo peças.
É difícil encontrar um contraste maior dentro da indústria automotiva moderna: enquanto fábricas passaram pela eletrônica, robótica, digitalização e automação avançada, uma máquina concebida quando a produção automobilística japonesa ainda engatinhava continuou exercendo mecanicamente a função para a qual havia sido construída.
Com o encerramento das atividades da histórica instalação de São Bernardo do Campo, a Toyota precisava decidir o destino do equipamento. Uma alternativa óbvia seria preservá-lo simplesmente como objeto histórico. A companhia escolheu outro caminho. Após discussões que envolveram a direção da empresa e Akio Toyoda, decidiu-se devolver a prensa ao Japão e realizar sua chamada conservação funcional.

O objetivo não era somente preservar sua aparência. A máquina deveria continuar capaz de trabalhar. A prensa deixou o Brasil e chegou novamente à fábrica Honsha, em Toyota City, em junho de 2024, mais de 60 anos depois de ter partido para São Bernardo do Campo. Esse detalhe também corrige uma impressão provocada por matérias que voltaram a circular em 2026: a viagem de retorno não ocorreu agora. Trata-se de uma história recuperada recentemente, mas o equipamento já estava de volta ao Japão havia mais de dois anos.
Restaurar uma máquina com aproximadamente nove décadas de utilização trouxe problemas que dificilmente apareceriam em um equipamento moderno. Um deles estava literalmente escondido sob a tinta. Durante sua vida industrial, a prensa recebeu diferentes pinturas. No Brasil, chegou a operar com acabamento branco e amarelo. Para aproximá-la novamente de sua aparência original, os responsáveis pela restauração removeram sucessivas camadas de tinta até localizar vestígios do acabamento utilizado na década de 1930.

Fotografias antigas pouco ajudavam nesse ponto: as imagens disponíveis daquela época eram em preto e branco. O trabalho revelou o tom cinza histórico, que acabou recuperado durante a restauração. Mas restaurar a estética nunca foi o objetivo final. A parte mais incomum da história é justamente o que aconteceu depois.
Em maio de 2025, a Toyota reuniu funcionários, antigos trabalhadores e representantes ligados à história do equipamento em sua fábrica Honsha para celebrar a conclusão do projeto. Entre os participantes estavam Akio Toyoda e pessoas ligadas à Komatsu e à operação da máquina ao longo das décadas. Ela não foi colocada atrás de uma barreira de museu.
A prensa permanece preparada para produção e treinamento industrial. A Toyota informou que o equipamento continuaria sendo utilizado para fabricar peças e também poderia apoiar a capacitação de trabalhadores em atividades como manutenção de matrizes. Há ainda uma mudança tecnológica difícil de imaginar quando o equipamento foi construído. Depois de participar da fabricação convencional de automóveis por décadas, a prensa passou a ser utilizada na produção de componentes relacionados a módulos de células de combustível de hidrogênio. Uma máquina concebida em 1934, portanto, acabou encontrando espaço dentro de uma tecnologia automotiva que seus primeiros operadores dificilmente conseguiriam imaginar.

De máquina de produção a registro vivo de quase toda a história da Toyota
A trajetória da Komatsu de 700 toneladas percorre praticamente as mesmas etapas que transformaram a Toyota. Ela estava presente quando a fabricação de automóveis ainda era apenas uma divisão dentro de uma empresa de teares. Acompanhou a criação da montadora. Mudou para uma das primeiras grandes fábricas da companhia. Depois cruzou o planeta para participar da expansão internacional da marca no Brasil.
Mais de 60 anos depois, fez o caminho inverso. A diferença é que retornou para uma indústria completamente diferente daquela que deixou em 1962. A decisão de mantê-la funcionando transforma a prensa em algo raro: ao mesmo tempo uma ferramenta industrial e um documento físico da evolução da manufatura japonesa. Enquanto continuar tecnicamente apta a produzir, a Toyota pretende preservar exatamente essa característica. A máquina de 1934 não precisa apenas mostrar como a empresa fabricava peças no passado. Ela ainda pode fabricá-las.

Fonte: Click Petróleo e Gás

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *