60% das brasileiras não fazem exames ginecológicos preventivos, diz pesquisa

Levantamento revela lacunas na prevenção e mostra que desinformação, medo e vergonha ainda afastam mulheres dos cuidados ginecológicos
Por Isabella Bisordi
A prevenção do câncer do colo do útero ainda esbarra em uma realidade preocupante no Brasil: muitas mulheres não mantêm os exames ginecológicos de rastreamento em dia. Uma nova pesquisa mostra que 61% das brasileiras entrevistadas não realizaram o Papanicolau no último ano, enquanto 34% não se consideram parte do grupo de risco para a doença.
Os números chamam atenção principalmente porque o câncer do colo do útero está fortemente relacionado à infecção persistente por tipos de HPV de alto risco e conta com importantes estratégias de prevenção. Vacinação contra o vírus, rastreamento adequado e acompanhamento de eventuais alterações permitem identificar riscos e lesões precursoras antes que a doença avance. Ainda assim, falta de informação, vergonha, medo e até a ausência de orientação sobre os exames continuam afastando parte das mulheres desses cuidados.
Os dados fazem parte da segunda edição da pesquisa “Percepção das Brasileiras sobre Tumores Ginecológicos e Práticas de Prevenção”, realizada pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) em parceria com o Instituto Locomotiva. O levantamento ouviu 800 mulheres de 18 a 45 anos, pertencentes às classes A, B, C e D e residentes em diferentes regiões do país. O objetivo foi entender o quanto as brasileiras conhecem sobre o câncer do colo do útero e como esse conhecimento se reflete na adoção de medidas preventivas, especialmente na vacinação contra o HPV e na realização dos exames de rastreamento. Entre as participantes, 67% afirmaram já ter realizado o Papanicolau alguma vez na vida. Quando considerado apenas o último ano, porém, esse percentual cai para 39%. Já 22% disseram ter realizado o teste de DNA-HPV. Na comparação com a edição de 2025, houve algum avanço: naquele levantamento, 37% haviam feito o Papanicolau e 13%, o teste de DNA-HPV.
Os motivos encontrados pela pesquisa mostram que a baixa adesão não pode ser explicada por um único fator. Entre as entrevistadas que não realizaram os exames preventivos, 31% disseram não ter recebido solicitação médica para fazê-los. Outras 15% nem sequer sabiam que precisavam realizar esse tipo de acompanhamento. Questões emocionais também aparecem: 8% relataram vergonha, 7% disseram ter medo de sentir dor durante o procedimento e 3% mencionaram receio de descobrir alguma alteração. Outro dado chama atenção para a falta de informação: 26% das mulheres de 18 a 45 anos entrevistadas disseram não saber para que serve o Papanicolau. O exame é utilizado para identificar alterações celulares no colo do útero, inclusive lesões que podem anteceder o desenvolvimento de um câncer. Atualmente, porém, o rastreamento brasileiro passa por uma mudança importante, com a adoção do teste molecular de DNA-HPV como método primário.
Vacinação contra o HPV também enfrenta resistência
A prevenção passa ainda pela imunização. Segundo a pesquisa, 39% das entrevistadas não haviam recebido a vacina contra o HPV ou não se lembravam de ter sido vacinadas. Entre aquelas que não receberam o imunizante, um dos principais obstáculos identificados foi acreditar que a vacina não seria indicada para sua idade. Ao mesmo tempo, o conhecimento sobre a imunização aumentou. Nesta edição, 44% afirmaram conhecer muito bem a vacina contra o HPV, ante 38% na pesquisa anterior.
O contraste ajuda a mostrar que conhecer uma medida preventiva não significa necessariamente adotá-la. Dúvidas sobre indicação, idade e disponibilidade podem continuar interferindo na decisão de procurar a vacinação. O HPV está relacionado não apenas ao câncer do colo do útero, mas também a outros tumores, como os de vulva, vagina, ânus, pênis e orofaringe. Além das dúvidas sobre prevenção, existe outro obstáculo: o estigma. Como o HPV é transmitido principalmente pelo contato sexual, o diagnóstico ainda pode vir acompanhado de vergonha ou medo de julgamento. Essa associação, porém, ignora o quanto o vírus é comum.
Uma pessoa pode entrar em contato com o HPV mesmo tendo tido poucos parceiros, e a infecção pode permanecer sem provocar sintomas. Por isso, descobrir o vírus não permite concluir quando ocorreu a transmissão ou fazer qualquer julgamento sobre a vida sexual de alguém. Na maior parte das infecções, o próprio organismo consegue controlar ou eliminar o vírus. A preocupação maior está na persistência de determinados tipos de HPV considerados de alto risco, capazes de provocar alterações celulares que, ao longo do tempo, podem evoluir para lesões precursoras e câncer. É justamente aí que entram a vacinação e o rastreamento: a intenção é agir antes que a doença se desenvolva ou identificar alterações em fases nas quais há maior possibilidade de tratamento.
Brasil pode ter mais de 19 mil novos casos por ano
A prevenção se torna ainda mais importante diante das estimativas para os próximos anos. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam para aproximadamente 19,3 mil novos casos de câncer do colo do útero por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Entre as mulheres, a doença representa cerca de 7,4% dos novos casos de câncer estimados, desconsiderando o câncer de pele não melanoma. O cenário também varia bastante entre as regiões brasileiras, reforçando que acesso à vacinação, rastreamento e tratamento das lesões precursoras continua sendo uma questão importante de saúde pública. Com as mudanças recentes no rastreamento do câncer do colo do útero, é importante entender que nem todo exame ginecológico precisa ser realizado por todas as mulheres – e nem na mesma frequência.
Teste de DNA-HPV
O teste molecular procura o material genético de tipos de HPV associados a maior risco de câncer. A coleta é semelhante à realizada no exame citopatológico, mas o objetivo é identificar a presença do vírus antes mesmo que determinadas alterações celulares apareçam. No SUS, o teste de DNA-HPV passou a ser adotado como exame primário de rastreamento para mulheres e outras pessoas com colo do útero de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual. Quando o resultado é negativo, o intervalo recomendado é de cinco anos. A implantação ocorre gradualmente no país. Por isso, locais que ainda não disponibilizam o teste molecular continuam utilizando o Papanicolau.
Papanicolau
O exame citopatológico, popularmente chamado de Papanicolau ou preventivo, analisa células coletadas do colo do útero em busca de alterações. Durante muitos anos, ele foi o principal método de rastreamento da doença no Brasil e continua tendo papel importante, especialmente enquanto o teste de DNA-HPV não está disponível em toda a rede. A periodicidade não deve ser definida apenas pela ideia de fazer um “check-up anual”: ela depende do método utilizado, dos resultados anteriores e de situações específicas de saúde.
Colposcopia
A colposcopia permite observar o colo do útero, a vagina e, em determinadas situações, outras estruturas com ampliação. Diferentemente dos exames de rastreamento, ela geralmente é solicitada quando algum resultado anterior indica a necessidade de uma investigação mais detalhada. Se uma área suspeita for encontrada, o profissional também pode indicar uma biópsia.
Vulvoscopia
A vulvoscopia permite examinar detalhadamente a região da vulva com o auxílio de um aparelho de ampliação. Pode ser indicada diante de sintomas, lesões ou alterações que precisam ser investigadas. Assim como a colposcopia, não se trata de um exame que todas as mulheres precisam realizar periodicamente sem indicação.
E quem pode tomar a vacina contra o HPV?
No SUS, a vacinação contra o HPV faz parte do calendário para meninas e meninos de nove a 14 anos. A rede pública também contempla outros grupos definidos pelo Ministério da Saúde, incluindo determinadas pessoas imunocomprometidas. Na rede privada, existem opções de vacinação para homens e mulheres em outras faixas etárias, conforme a indicação do imunizante e avaliação individual.
Por isso, quem não se lembra de ter se vacinado ou acredita que “já passou da idade” não precisa simplesmente descartar a possibilidade. Vale consultar um serviço de saúde para verificar o histórico vacinal e descobrir se existe indicação no seu caso.
Mais do que realizar uma longa lista de exames todos os anos, prevenção significa seguir o rastreamento adequado para cada faixa etária e condição de saúde, manter a vacinação atualizada quando indicada e procurar atendimento diante de sintomas ou alterações. No caso do câncer do colo do útero, essa combinação tem um papel especialmente importante: a vacinação contra o HPV, o rastreamento e o tratamento de lesões precursoras permitem agir muito antes de um tumor avançado aparecer.
Fonte: Bons Fluidos








