Desenvolvimento industrial no Espírito Santo: desafios, oportunidades e esperança para o futuro

Por Claudio Denicoli
Desde 2003, quando o Espírito Santo iniciou um processo profundo de reorganização de suas contas públicas e de recuperação da capacidade de planejamento e investimento do Estado, o ambiente econômico capixaba passou por uma transformação significativa. Estudos do próprio governo do Estado e do Instituto Jones dos Santos Neves registram que, naquele período, as finanças estaduais enfrentavam elevado comprometimento e dificuldades de curto prazo, e que o ajuste iniciado em 2003 alterou esse cenário.
Ao longo de mais de duas décadas, a construção de um ambiente institucional mais equilibrado, associada à responsabilidade fiscal e à capacidade de planejamento, contribuiu para criar condições favoráveis à atração de investimentos e à expansão da atividade econômica. Essa trajetória não significa que todos os problemas tenham sido resolvidos, mas demonstra que organização, equilíbrio fiscal e capacidade de investimento podem produzir resultados concretos quando transformados em políticas de Estado.
Nesses últimos 20 anos, o desenvolvimento industrial estadual salta aos olhos e ocupa posição estratégica na economia capixaba. A indústria é um dos principais caminhos para ampliar a renda, gerar empregos qualificados, atrair investimentos e fortalecer a arrecadação pública. Mais do que isso, possui um efeito multiplicador sobre a economia: cada novo empreendimento industrial movimenta uma extensa cadeia de fornecedores, prestadores de serviços, transportadores, empresas de engenharia, comércio e tecnologia.

Os números ajudam a dimensionar essa importância. Em 2023, o Produto Interno Bruto do Espírito Santo alcançou R$ 209,8 bilhões, segundo o IBGE. Naquele mesmo ano, enquanto a produção industrial brasileira cresceu apenas 0,2%, a indústria capixaba avançou 11,1%, um crescimento impressionante.
O resultado mostra a força e a importância da indústria na economia estadual destacando-se, principalmente, a mineração, o petróleo e gás, a siderurgia e a celulose.
O futuro é promissor. Apesar das dimensões territoriais relativamente pequenas, o Espírito Santo possui uma localização geográfica privilegiada, está entre os mais importantes centros econômicos do país e próximo de grandes mercados consumidores. A expansão da infraestrutura portuária, com projetos como o complexo portuário da Imetame, em Aracruz, e o Porto Central, em Presidente Kennedy, amplia as possibilidades de inserção do Estado nas cadeias logísticas nacionais e internacionais, aumentando significativamente nossa competitividade.

Da mesma forma, os investimentos e projetos de melhoria da infraestrutura rodoviária, incluindo a duplicação da BR-101 e as perspectivas para a BR-262, também são fundamentais. Uma indústria precisa de energia, trabalhadores e fornecedores, mas também de infraestrutura para colocar sua produção no mercado de maneira eficiente e eficaz.
É justamente nesse ponto que o Espírito Santo precisa olhar para os próximos anos, pois o crescimento industrial não acontece isoladamente. Quando uma indústria se instala ou amplia sua produção, o impacto ultrapassa os limites de seus muros, além de envolver empresas de construção, manutenção, engenharia, transporte, alimentação, segurança, tecnologia e serviços especializados. Os trabalhadores recebem salários, consomem no comércio local, movimentam restaurantes, supermercados, escolas e serviços. Os municípios arrecadam mais e podem ampliar sua capacidade de investimento.
Por isso, discutir indústria é discutir desenvolvimento.
Mas não há espaço para um crescimento a qualquer custo, deve-se aliar potencial com desenvolvimento sustentável e isso exige enfrentar obstáculos importantes. A sustentabilidade deverá ocupar espaço cada vez mais crescente nessa agenda. A indústria que chegará às próximas décadas precisará ser competitiva não apenas pelo preço de seus produtos, mas também pela eficiência energética, pela redução de emissões, pelo uso racional dos recursos naturais e pela capacidade de incorporar tecnologias mais limpas.

Outro grande desafio e um dos principais é o chamado Custo Brasil, expressão que reúne uma série de fatores que encarecem a produção nacional e reduzem a competitividade das empresas. Burocracia, complexidade tributária, custos logísticos, insegurança regulatória, dificuldades de infraestrutura e custo do capital estão entre os elementos que podem influenciar a decisão de uma empresa entre investir, ampliar sua produção ou direcionar recursos para outra região.
Para um Estado que pretende disputar investimentos industriais com outras unidades da Federação, reduzir esses custos deve ser prioridade permanente.
Outra dificuldade que começa a ganhar dimensão cada vez maior é a escassez de mão de obra qualificada. A indústria do futuro será cada vez mais automatizada e tecnológica. Profissionais precisarão dominar ferramentas digitais, inteligência artificial, robótica, automação, análise de dados, manutenção avançada, engenharia e novos processos produtivos.
Não basta, portanto, criar empregos. É preciso preparar pessoas para ocupá-los.
Nesse aspecto, a aproximação entre empresas, poder público, universidades, escolas técnicas e instituições de formação profissional será decisiva. Uma política permanente de qualificação, especialmente voltada aos jovens, pode transformar o crescimento industrial em uma oportunidade de mobilidade social e de aumento da renda das famílias capixabas.
Também será necessário estimular a diversificação. O Espírito Santo já possui competências consolidadas em setores tradicionais, mas pode avançar em segmentos de maior valor agregado, inovação, tecnologia, economia verde, energias renováveis, logística, indústria de transformação e serviços especializados associados à atividade industrial.

Outro fator fundamental para o crescimento econômico são as eleições gerais deste ano. O início de uma nova gestão costuma trazer expectativas de maior previsibilidade e de um melhor planejamento, além da possibilidade de maior estabilidade política. A redução das incertezas tende a melhorar a confiança dos agentes econômicos e pode contribuir para o aquecimento do mercado.
No campo estadual, o Espírito Santo chega a esse ciclo eleitoral com uma história de avanços, que não pode ser quebrada.
Havendo continuidade no diálogo entre setor público e iniciativa privada, responsabilidade fiscal e visão estratégica, a indústria poderá continuar sendo uma das principais forças de transformação econômica do Espírito Santo.
O Estado já demonstrou e é exemplo nacional de equilíbrio fiscal, planejamento e capacidade de investimento. Portanto é imprescindível haver continuidade sem existir continuísmo. Essa performance e experiência adquirida pode nos levar para um futuro ainda mais promissor, estabelecendo uma agenda mais ousada, capaz de atrair mais investimentos, diversificar a economia, qualificar trabalhadores e incorporar inovação aos processos produtivos. E a indústria será peça central nessa trajetória. Caberá à próxima gestão definir qual o caminho a seguir para fortalecer o que já foi conquistado e alcançar o posto de Estado brasileiro mais competitivo, inovador, sustentável, equilibrado e excelente para se viver.

Claudio Denicoli
Eng. Civil, especialista em Engenharia Sanitária e Ambiental



