Transporte, Infraestrutura & Logística

ANTT aprova projeto da Motiva para implantar eletromobilidade na Rodovia Dutra

Dutra vai virar laboratório para um corredor logístico conectado ao Porto de Itaguaí, com caminhões elétricos, pontos de recarga e integração entre estrada e porto

Por Valdemar Medeiros

A decisão saiu de uma reunião da diretoria da ANTT e colocou uma das estradas mais movimentadas do país no centro de um teste que pode influenciar o futuro do transporte de cargas brasileiro. Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em 28 de setembro foi aprovado o resultado do processo que selecionou a Motiva RioSP para implantar um Corredor Logístico Sustentável de Transporte Multimodal na Rodovia Presidente Dutra.
O projeto combina recarga para veículos elétricos e híbridos, eletrificação gradual da frota da concessionária, integração da estrada com o Porto de Itaguaí e ações nos municípios atravessados pelo corredor. A ideia não é apenas colocar carregadores à margem da rodovia. A Dutra passará a funcionar como um ambiente real de testes, com caminhões, automóveis, operações rodoviárias e cargas circulando enquanto a ANTT acompanha o que funciona e o que precisa mudar.
Na reunião de 28 de setembro, a ANTT analisou o processo aberto pelo Edital de Sandbox Regulatório n.º 02/2025. A proposta da Motiva RioSP recebeu 145 pontos, bem acima dos 80 pontos mínimos exigidos, e atendeu aos 15 critérios usados na avaliação. A Motiva foi a única proponente. Com a aprovação, o projeto segue para a fase de autorização temporária e implantação do ambiente experimental acompanhado pela agência. Isso significa que a tecnologia não será testada apenas em laboratório, planilha ou simulação. Ela entrará em contato com uma rodovia que recebe tráfego pesado, transporte de passageiros e grandes fluxos de mercadorias entre Rio de Janeiro e São Paulo.
A Agência iNFRA informou que a proposta deverá alcançar aproximadamente 366 quilômetros da Rodovia Presidente Dutra. O trecho está dentro da concessão administrada pela Motiva RioSP e passa pelo principal eixo econômico entre Rio e São Paulo. É nesse caminho que veículos de serviço, transportadoras e operadores logísticos convivem diariamente com congestionamentos, acidentes, paradas operacionais e custos elevados de combustível. O corredor usa justamente esse movimento como campo de teste. Em vez de criar uma rota artificial para demonstrar novas tecnologias, o projeto coloca as soluções no meio de uma operação que já existe.
A transformação não começa com a substituição imediata dos caminhões que circulam pela Dutra. O compromisso divulgado pela ANTT é mais específico. A Motiva prevê a eletrificação progressiva de sua frota operacional e administrativa. São veículos usados nas atividades da concessionária, que poderão servir como uma primeira base para medir consumo, autonomia, recarga e comportamento em serviço.

Iniciativa prevê eletrificação da frota, infraestrutura de recarga e integração com o Porto de Itaguaí (Divulgação: ANTT)

Ao mesmo tempo, serão instalados carregadores para veículos elétricos e híbridos em bases operacionais e outros pontos considerados estratégicos. Essa infraestrutura cria uma rede que poderá ajudar a testar como a eletromobilidade se comporta em viagens mais longas e operações logísticas. Um veículo elétrico depende de algo que a rodovia brasileira ainda oferece de forma irregular: locais de recarga bem distribuídos e capazes de atender uma operação previsível.
É nesse ponto que o projeto tenta avançar. Os carregadores não aparecem como estruturas isoladas. Eles fazem parte de um corredor no qual a ANTT poderá observar demanda, localização, tempo de recarga e uso diário. Para o transporte de cargas, essa questão ganha peso. Um veículo comercial parado precisa voltar à rota dentro de uma janela operacional. A localização dos carregadores passa a interferir diretamente no planejamento da viagem, no tempo de entrega e no custo da operação.
O projeto não termina na pista da Dutra. Uma das três frentes apresentadas pela Motiva é justamente a integração entre diferentes modais logísticos, com atenção especial para a ligação com o Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro. A carga que chega a um porto não nasce no cais. Antes de embarcar, ela percorre fábricas, centros de distribuição, terminais e rodovias. No sentido contrário, produtos desembarcados precisam deixar a área portuária e seguir para seus destinos. Ao incluir Itaguaí no projeto, o corredor passa a observar essa viagem de forma mais ampla. Estrada e porto deixam de ser tratados como duas operações completamente separadas.

A escolha ganha peso porque Itaguaí movimenta grandes volumes de carga. Dados divulgados pela PortosRio mostram que o porto movimentou 60,7 milhões de toneladas em 2024, crescimento de 8,8% sobre o ano anterior. Somente o minério de ferro chegou a 54,1 milhões de toneladas. O porto também trabalha com contêineres e outras cargas que dependem de uma extensa cadeia terrestre antes ou depois da passagem pelos terminais. Colocar esse fluxo na discussão sobre um corredor sustentável permite avaliar a eletrificação onde a pressão logística é real. Não basta fazer um veículo elétrico rodar. É preciso encaixá-lo em horários, rotas, carregamentos e operações portuárias.
A proposta aprovada pela ANTT foi organizada em eletromobilidade, integração entre modais logísticos e desenvolvimento territorial sustentável. A primeira reúne eletrificação e infraestrutura de recarga. A segunda busca aproximar a operação rodoviária das cadeias que chegam ao porto. A terceira leva o projeto para fora do asfalto, alcançando municípios localizados na área de influência da Dutra. Isso amplia o tamanho do experimento. O corredor não foi desenhado apenas como um teste de veículos. A ANTT pretende acompanhar também efeitos sobre segurança viária, inovação tecnológica, integração logística, redução de emissões e desenvolvimento das áreas cortadas pela concessão.

O experimento pode movimentar cerca de R$ 116 milhões
Segundo a Agência iNFRA, o projeto apresentado pela Motiva está orçado em aproximadamente R$ 116 milhões. O valor dá uma dimensão da diferença entre instalar alguns carregadores e criar um corredor experimental completo. A iniciativa envolve infraestrutura, veículos, operação, tecnologia, ações territoriais e acompanhamento dos resultados.
O investimento também transforma a Dutra em uma vitrine para um problema maior. Se o transporte rodoviário quiser ampliar o uso de eletricidade e outras fontes de menor emissão, será preciso criar infraestrutura ao longo das rotas, e não apenas aumentar a oferta de veículos.
O mecanismo usado pela ANTT é chamado de sandbox regulatório. Em palavras simples, é um ambiente de teste supervisionado. A agência permite que uma empresa experimente soluções novas durante determinado período, enquanto acompanha os resultados. Algumas regras podem receber tratamento específico para que a inovação seja testada sem que o regulador precise mudar toda a norma antes de saber se a solução funciona.

No caso dos corredores logísticos, a ANTT quer reunir evidências reais. Consumo, operação, infraestrutura, segurança e integração poderão ser avaliados durante o funcionamento do projeto. Depois, esses dados podem ajudar a construir regras para outros trechos rodoviários. A duração prevista para esse tipo de sandbox é de até 24 meses. As regras da ANTT ainda permitem prorrogação por mais 12 meses em determinadas situações.
Isso cria uma janela longa o suficiente para observar o corredor em diferentes condições. Uma rodovia muda conforme horário, clima, período de férias, safra, fluxo portuário e atividade industrial. Testes muito curtos podem esconder problemas que aparecem apenas depois de milhares de quilômetros percorridos. Dois anos permitem observar manutenção, desgaste, disponibilidade dos carregadores e comportamento operacional dos veículos. A própria Agência iNFRA informa que o projeto da Motiva foi estruturado para ser desenvolvido durante aproximadamente 24 meses.

A proposta será executada em aproximadamente 366 quilômetros da Dutra (Foto: DNIT)

A conta da eletrificação será testada junto com a tecnologia
Colocar um veículo elétrico na estrada é apenas parte do desafio. A operação precisa fechar economicamente. Distância entre carregadores, tempo parado, disponibilidade de energia e utilização diária interferem no custo por quilômetro. Para frotas comerciais, pequenas diferenças se multiplicam por centenas de viagens ao longo do ano. Na Dutra, esses fatores poderão ser observados em condições de tráfego real. O corredor também cria espaço para avaliar onde os pontos de recarga precisam ficar e como devem conversar com bases operacionais, centros logísticos e acessos portuários.
A decisão da ANTT não significa que a Dutra amanhecerá coberta de carregadores ou com toda a frota eletrificada. A aprovação encerra uma etapa e abre outra. A Motiva ainda entra no processo de autorização temporária e implementação do ambiente experimental. É nessa fase que o planejamento precisa se transformar em infraestrutura e operação. A rede terá de conviver com uma rodovia que não pode parar para virar laboratório. Os veículos continuarão passando, as cargas continuarão chegando aos seus destinos e o porto continuará recebendo e despachando mercadorias.

A ANTT não criou o sandbox apenas para resolver uma necessidade da Motiva RioSP. O objetivo declarado é produzir evidências que possam ajudar no aperfeiçoamento da regulação e na criação de futuros corredores logísticos sustentáveis. Se determinadas soluções funcionarem, elas poderão fornecer referências para outros contratos e outras regiões. Se apresentarem problemas, o próprio experimento permitirá identificar os obstáculos antes de uma expansão maior. A agência já trabalha com a ideia de corredores sustentáveis em outros trechos do país. A Dutra acrescenta uma característica difícil de reproduzir em pequena escala: liga duas das maiores regiões metropolitanas brasileiras e se conecta a uma cadeia portuária de grande porte.

Fonte: Click Petróleo e Gás

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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