Comportamento

Crianças: chegou o Natal!

Decidimos interromper nossa Série sobre “Estragos permanentes da privação Materna Judicial pela acusação de alienação parental”. Retomaremos ao tema na 1ª semana de janeiro, depois de nosso recesso de final de ano.
É Natal! Apesar de ser uma festa religiosa, o Natal contagia a todos, crentes de todos os credos, e ateus. Tornou-se uma festa da família, das famílias, da confraternização, do presentear, do saborear. Dos bons prazeres. Entre eles, o prazer da remontagem da história familiar, da história de cada um. Os afetos são aflorados com ou sem autorização. Sim, porque é a hora do carinho, mas também das histórias que suscitaram vergonhas leves. Uma espécie de catarse amorosa, uma vez por ano. Frequência, para muitos, adequada. Festa do afeto. Festa de sonhos. Festa do abraço. Festa do sorriso e da gargalhada. Festa dos sabores.
Fui criança no tempo em que me encantava ver árvores de luzes brancas, singelas, refletidas e multiplicadas nas águas dos Rios Capiberibe e Beberibe. Saíamos todos de roupinhas novas, costuradas pela mãe, dois de mãos dadas com ela, dois de mãos dadas com nosso pai. Ele sempre retornava à casa quando estávamos no portão, para uma verificação das janelas, era dito. Só alguns anos depois, descobri esta suspeita. Para colocar os presentes do Papai Noel. O sonho do Papai Noel, o bom velhinho. Na volta das imagens iluminadas, lindas e não singelas para as crianças, que se intrigavam com a mágica de colocar luzes na água, sem dar choque, tinha a ceia antecedida por reza rápida, e depois os cantos natalinos, com a mãe no violino e a irmã mais velha ao piano e, nós, pequenos, cantando, o pai, a tudo assistindo emocionado, distribuindo abraços. Éramos só nós em Recife. Mas, éramos nós. O bastante. Dormir e sonhar com tanta coisa boa junta.
Sonhar! Como é importante o sonhar para a Criança! O sonhar constrói o criar. A Noite de Natal para a criança é plena de mistérios. Como o Papai Noel colocou seu pedido na árvore de Natal na sala de sua casa? Como um bebezinho foi deitado numa manjedoura, cheia de capim de animais, e não morreu? Como seus pais não tinham casa, e se chovesse ia molhar todo o bebê? Como seus pais não tinham uma cozinha para comer? Um guarda-roupa para guardar suas vestes? Um banheiro para fazer aquelas coisas todos os dias? Em torno daquele bebezinho, o motivo da comemoração, muitas perguntas sem respostas.
Hoje, há muitas crianças, muitas, que estão sem resposta para um outro mistério, que é vivido por elas. Por que minha mãe me abandonou? Crianças que perderam as suas mães para a covid-19, e que vivem como tendo sido abandonadas pela mãe. Para essa orfandade, o mistério vai permanecer. Não há resposta plausível que acalme seu coraçãozinho. Mas, também, Crianças que foram privadas de suas mães por uma ordem judicial, que está fora de sua capacidade de compreensão cognitiva. Esta orfandade de mãe viva é sentida e ressentida pela Criança como um abandono, como se um desprezo materno o fosse. Para umas, o primeiro Natal sem a mãe. Para muitas, será mais um Natal, mais uma noite escura, mesmo que muitas luzes hajam nas decorações de onde passaram a ser obrigadas a viver. Uma noite escura, de solidão oculta, de sofrimento que não pode transparecer, um suplício da falta, uma falta que sangra por dentro, e que tem que ser escondida, porque não lhe é permitido sentir. Uma grande dissimulação.

Família celebrando o Natal (Foto: Getty Images/iStockphoto)

Neste Natal, todos, os que têm juízo e pensamento de coletividade, claro, vamos sentir a falta de alguém, muitos não vão poder se reunir, vamos sentir a falta dos abraços e beijos. Talvez, depois desta experiência de faltas, tenhamos um pouco mais de capacidade empática com estas crianças que por anos sentem falta do abraço acolhedor do colo da mãe, a que estão privados. Dimensionar a dor da privação materna compulsória, é um desafio. Quero dedicar este Natal às Crianças órfãs, de mães mortas, pela brutalidade da Covid-19 ou da violência dos Feminicídios. E às Crianças órfãs de mães vivas. Milhares. Vítimas invisibilizadas da perversidade da lei de alienação parental. A elas, toda a minha admiração e homenagem pela força que têm.
Queria ter me mantido no romance do Natal, mas não consigo fechar os olhos para a dor destas crianças. Não dá. Sermos honestos, é preciso. Feliz possível Natal para estas Crianças. Elas têm uma enorme capacidade de se adaptar, e até aproveitam o tanto que podem.

Ana Maria Iencarelli

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

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