Comportamento

Velho mal-humorado: por que alguns idosos ficam tão ranzinzas?

O senhorzinho rabugento da animação “Up — Altas Aventuras” te lembra algum idoso conhecido?

Quem não conhece um idoso mal-humorado? Eles estão presentes em todos os lugares. Pode ser sua avó, um tio ou até mesmo um vizinho parecido com o senhor Wilson, do filme “Dennis, O Pimentinha”: “Por que quando todos festejam com o prazer da vida, tenho indigestão?”, diria. Ou até Carl Fredricksen, o senhorzinho ranzinza da animação “Up — Altas Aventuras”.
Natan Chehter, geriatra da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e da Beneficência Portuguesa de São Paulo, responde o que está por trás de tanta rabugice. “Quando se fala em comportamento, a gente precisa diferenciar aquilo que pertence à pessoa, que é uma característica natural dela, de uma mudança de comportamento. Há idosos que já eram um pouco ranzinzas e, agora, nessa fase avançada da vida, tendem a ficar mais”, explica.
“O que não pode acontecer é uma mudança repentina de personalidade, de comportamento, porque isso, sim, pode ser sinal de alguma doença e deve ser investigado para não prejudicar o estilo de vida da pessoa, o que inclui sua funcionalidade e suas relações”, acrescenta.

Quando o mau humor é natural

São vários os fatores não relacionados a enfermidades que levam alguém a ficar ranzinza com o passar dos anos. Na maioria das vezes, tem a ver com o fato de não se enxergar mais a necessidade de agradar aos outros como antigamente, principalmente se para a pessoa isso já era difícil, representava certa obrigação e lhe causava desconfortos e limitações.
“Por que devo agir como sempre agi se não tenho mais chefe, pais e sou viúvo?”, pode pensar o idoso. “Alguns traços da personalidade adulta tendem a se acentuar quando se fica mais de idade, principalmente se a pessoa já era do tipo crítica, controladora e reclamona e aí ela não tolera mais facilmente certas situações, ambientes, aprendizados e métodos”, afirma Denise Gobo, psiquiatra pela Santa Casa de Misericórdia de São Paula e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
Um idoso com tais características também pode agir com rispidez para esconder suas vulnerabilidades, como dificuldade em aceitar que não tem mais a autonomia de antes, que depende do cuidado de terceiros, que não compreende e não sabe interagir direito com as novas gerações. Então é normal que ele respire fundo, vire os olhos e murmure vez ou outra.

Outro lado para se prestar atenção

Agora, quando o comportamento do idoso muda completamente do que era em curto espaço de tempo, ou se ele reclama o tempo todo e é incapaz de se divertir, é sinal de que há algo errado. Num quadro anormal, os sintomas são persistentes (duram mais que semanas) e geralmente interferem nas funções fisiológicas. O idoso pode apresentar falta de apetite, insônia, cansaço e prejuízo funcional, ou seja, deixar de lado atividades e situações sociais.
Na mudança repentina e intensa de comportamento, que pode vir acompanhada ainda de irritabilidade, resistência e perda de memória e de concentração, não é raro estarem por trás processos demenciais (Alzheimer), estados depressivos e transtornos ansiosos.
“Em se tratando de depressão, a taxa de prevalência nos idosos é de 15% e está comumente associada com problemas de saúde que tiveram como infarto, AVC e até uma internação prolongada. Se está com o diabetes descontrolado, isso também pode predispô-lo a ter um quadro de depressão e, assim, o tratamento da condição clínica pode ficar até mais difícil”, aponta Célia Gallo, especialista em psiquiatria geriátrica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e do Instituto de Psiquiatria Paulista.
Já em se tratando de um mau humor constante, de anos e anos, a causa provável pode ser um transtorno psicológico chamado distimia. Observada também em adolescentes e adultos, ela atinge uma série de neurotransmissores que comandam o humor e age como um tipo leve e prolongado de depressão, causando pessimismo, senso de autocrítica excessivo, irritabilidade, desejo de isolamento social, baixa autoestima, falta de energia, de concentração e de prazer.
Os gatilhos dessa forma de mau humor podem ser fatores genéticos, hormonais e ambientais (circunstâncias da vida que são difíceis de lidar), alterações físicas e bioquímicas no cérebro, além de “comorbidades psíquicas”, isto, associadas com pânico, depressão e fobia social.

Como lidar com um idoso mal-humorado?

Inicialmente, é com conversa que o familiar ou o cuidador pode entender o motivo do mau humor. Caso o idoso não saiba explicar, é preciso então observar o seu entorno (checar medicações, alimentação, ambiente doméstico) e se parecer alterado, inclusive agressivo, o que não pode ser atribuído como sendo natural da idade, levá-lo ao médico o quanto antes.
“Investigamos com testes e exames de imagem demências, alterações de tireoide, de fígado, deficiência de certos tipos de vitaminas e doenças que podem afetar o sistema nervoso central, para então tratá-lo”, explica o geriatra Natan Chehter.
Sendo o mau humor uma característica da personalidade, dá para tentar atenuá-lo com o estímulo de alguma atividade física, preferencialmente em grupos de terceira idade, e também psicoterapia para que ele entenda os motivos de suas sensações e saiba lidar melhor com elas. Às vezes, o idoso só quer um pouco mais de privacidade, atenção da família ou se sentir útil.
Com os que são dependentes, mas não aceitam ajuda ou gostam de fazer tudo do próprio jeito, negociar pode dar certo. O responsável oferece algo que seja do interesse do idoso, para, em troca, fazê-lo cumprir com sua parte. Tem mais. Não vale a pena discutir, mesmo que ele esteja errado, nem pressioná-lo e nem colocar peso de obrigação em cima do que espera dele, isso só dificulta a relação e cria atritos.
“É preciso muita paciência e conversa. Agora, se o idoso é autônomo, capaz de tomar decisões e se cuidar sozinho e tem suas faculdades mentais todas intactas, se simplesmente decide parar de se cuidar, por mais que seja algo doloroso para a família, algo que não se aprove, a escolha é dele. O jeito é tentar convencê-lo dos riscos e dos prejuízos”, sugere Chehter.

Fonte: UOL

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