Comportamento

Injustiça e Ecolalia: Jeferson, Lúcia, Regina… Para não dizer que não falei de flores — Parte II

Não estou me referindo à criatividade linguística, à arte de fabricar metáforas, às invenções poéticas, que tanto nos ajudam na dureza da vida. Estou tocando nos desvios que baseiam os casos dos Jefersons, das Lúcias, das Reginas, e tantos outros, vítimas de inversões de propósito

Está ocorrendo um fenômeno que se torna cada vez mais enlouquecedor à medida que vai se alastrando e se banalizando. É um ataque ao pensamento, aos argumentos e, quando se trata de tema técnico, somos surpreendidos por uma espécie de ecolalia, sintoma frequente nos quadros psicopatológicos da ordem do grupo das psicoses. Mas, essa ecolalia do discurso corrente não se refere a indício de psicopatologia. As falas, em especial as que se pretendem “teóricas”, estão cada vez mais parecidas com uma colcha de retalhos onde a linha do pensamento muda de critério sem a menor cerimônia. Além da mudança de critério, há mudança de significado, neologismos são criados, por vezes, sem nenhuma preocupação com a etimologia. Você brincou na infância de “remendar”, como chamávamos, o colega? Era uma brincadeira que irritava, mas que exigia muita atenção para pegar uma palavra mal pronunciada, ou uma pergunta que conseguia quebrar a repetição monótona trazendo uma resposta e, assim, inverter o jogo. Quem brincou lembra como era irritante ter o outro a ecoar tudo o que era dito. Como todas as brincadeiras, talvez tenha outros nomes em outros cantos do Brasil. Mas o que está acontecendo não é brincadeira.

Na formação do caráter de uma Criança é preciso que seja bem nítida a diferença entre mentira e verdade (Foto: Getty Images/iStockphoto)

A Deturpação Semântica ataca o pensamento lógico que assola a comunicação com um arremedo do que é o seu eco. Teses nascem sem nenhum compromisso com a lógica, apesar de imitá-la num copiar/colar que prima pelo caráter de pseudo. Mas, reivindica o lugar científico. Um mosaico de cacos tirados da tese de outros campos que estudaram, pesquisaram, seguiram os rigores dos critérios científicos. Como se uma maquiagem de pseudociência fosse. No entanto, propagada como se fosse de verdade.
Aliás, mentira e verdade têm hoje tamanha proximidade que se tornaram, praticamente, uma equação, embalada pela superficialidade vazia, ou pela desonestidade intelectual. Aqui também, temos dificuldade em distinguir quem repete teses absurdas por desconhecimento, por ignorância, de quem repete por má-fé. Outra equação de difícil discernimento.
Não estou me referindo à criatividade linguística, à arte de fabricar metáforas, às invenções poéticas, que tanto nos ajudam na dureza da vida. A arte de fazer pinturas com letras, nos salvam em momentos agoniantes. Estou tocando nos desvios que baseiam os casos dos Jefersons, das Lúcias, das Reginas, e tantos outros, vítimas de inversões de propósito.
Quando falamos em desonestidade, logo associamos àquela monetária. Mas a desonestidade intelectual é, igualmente, nociva, principalmente quando se trata da formação de Criança. Na formação do caráter de uma Criança é preciso que seja bem nítida a diferença entre mentira e verdade. O mundo virtual oferece o imediatismo, anulando os processos que trazem as etapas, o tempo. Este foi abolido, e não reduzido. É um click que leva a tempos e espaços sem que haja intervalo. Esta é uma mentira que deve ser corrigida para que a criança aprenda a esperar, a percorrer os diversos processos da vida. No entanto, há um tempo injusto com a criança: o tempo judicial. A infância acaba e os processos de família continuam, não dando crédito à voz da criança, escrita como Sujeito de Direito, mas, na realidade, recebendo a alcunha de mentirosa.

Na formação do caráter de uma Criança é preciso que seja bem nítida a diferença entre mentira e verdade (Foto: Getty Images/iStockphoto)

Encontramos mentiras em vários pontos a que submetemos nossas Crianças. Afirmações maldosamente inventadas para encobrir a verdade de crimes contra a Criança, ou Sofismas que induzem ao erro de conclusão por conta de operadores de justiça pouco ou nada comprometidos com a Criança e com a verdade. Além da mudança de critério, encontramos mudança de posicionamento técnico que deixa transparecer, talvez, um motivo financeiro mais promissor, apontando para a falta de coerência. Mas isso não é notado.
Assim como também não é notado que se afirme consequências impossíveis de ocorrer, porquanto pertencem a outra esfera. Refiro-me aqui às consequências da prática de alienação parental da mãe, por exemplo, que foram usurpadas da lista de comportamentos resultante de estudos científicos, que consta da Cartilha “Abuso Sexual — Mitos e Realidade”, publicada pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia, 2002). Também a afirmação de que a “implantação de falsas memórias” foi provada por pesquisas não corresponde à verdade. Não há pesquisa sobre falsa memória sobre a ocorrência de abuso sexual na infância, pelo óbvio. Não é possível infligir um sofrimento, o convencimento de que aconteceu um abuso, só para medir a ocorrência. E, por ser um tema específico, não é científico fazer uma generalização a partir de um convencimento de um passeio ou um sorvete diferente. Estas tentativas de implantar uma falsa memória com uma história do cotidiano, não ultrapassam os 15% como resultado, demonstrando que a Criança apresenta uma resistência ao convencimento de falsa memória.
A corrupção intelectual está se banalizando. Em um vale tudo desenfreado, assistimos formas silenciosas de violências perpetradas contra a Criança. Não é correto. Nem possível para o pleno desenvolvimento saudável de nossas Crianças. A invasão de Ecolalia argumentativa é uma retórica vazia, desconectada de sentido. Uma arma contra o pensamento lógico construtivo.

Ana Maria Iencarelli

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

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