7 de Setembro dá protagonismo a Mendonça às vésperas de dias decisivos no STF

Boneco inflável de André Mendonça na Avenida Paulista no 7 de Setembro: protagonismo
As tradicionais manifestações de 7 de Setembro oscilaram de tamanho nos últimos anos e, por vezes, falharam em encontrar uma pauta única que catalisasse o sentimento popular. Mas, em 2026, os atos do Dia da Independência parecem ter encontrado uma mensagem clara: apoio a André Mendonça como a figura que, enfim, colocou Alexandre de Moraes em uma situação de fragilidade. As pessoas que encheram parte da Avenida Paulista e da Esplanada dos Ministérios expressaram o apoio ao ministro do Supremo Tribunal Federal, talvez por acreditarem que, pela primeira vez, Alexandre de Moraes encontrou um desafiante que tem não apenas a disposição de contestar os seus abusos mas também o poder constitucional para fazê-lo em pé de igualdade.
Mendonça ganhou até o seu próprio boneco inflável ao lado do Museu de Arte de São Paulo (MASP), ao centro de um protesto que ocupou quatro quarteirões em uma tarde fria e chuvosa. As faixas, que até agora exibiam dizeres contra o STF e contra Lula, agora encontraram uma causa a favor: a atuação de Mendonça.
Os protestos em São Paulo e em outras cidades do Brasil não tiveram a dimensão dos atos pelo impeachment de Dilma Rousseff. Mas o saldo é o de que a causa do “Fora, Moraes”, encontrou um fôlego novo. Se a pressão das ruas, as sanções do governo americano e a ameaça de impeachment foram incapazes de fazê-lo, talvez a atuação de Mendonça possa finalmente começar a por fim aos excessos do ministro mais autoritário do Supremo.
Novo fôlego para a causa contra Moraes
Dias depois de virem à tona mensagens demonstrando a intimidade entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro — em uma investigação presidida por André Mendonça — o caso esteve no centro das manifestações. Um dos principais organizadores dos atos na Avenida Paulista nos últimos anos, o pastor Silas Malafaia centrou seu discurso nas revelações recentes envolvendo a relação de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
O pastor citou o contrato entre o banqueiro e a mulher de Moraes, Viviane Barci, como “uma prova da compra do poder da influência desse ditador (Moraes)”. Em um dos momentos de mais entusiasmo do público, Malafaia pediu que Edson Fachin afaste Alexandre de Moraes do STF: “vai aqui o meu pedido ao excelentíssimo senhor presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin: pelo bem da Suprema Corte, afaste Alexandre de Moraes”, apelou.
Malafaia afirmou que Moraes acusou André Mendonça “para sair da lama em que está envolvido”. O pastor também afirmou que os demais ministros do STF devem ficar alertas porque, se nada for feito, Moraes pode se voltar contra eles no futuro. Além de Brasília e São Paulo, os atos desta segunda-feira mobilizaram pelo menos outras 14 cidades.
Candidatos à Presidência participam de atos
Além das revelações sobre Moraes, um fator ajudou a reforçar os atos do 7 de Setembro: a proximidade das eleições. PL E NOVO apoiaram formalmente as manifestações, e quatro candidatos à Presidência se pronunciaram sobre o STF. Flávio Bolsonaro (PL) esteve no ato da Avenida Paulista, e adotou contra Moraes um tom mais incisivo do que havia mantido até pouco tempo. Em busca de votos na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro se juntou ao coro de “Fora, Moraes”. “Eu vou indicar cinco ministros para o Supremo Tribunal Federal, porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou Flávio, em um discurso do alto do carro de som.
Romeu Zema (NOVO) também esteve na Avenida Paulista e, em suas redes sociais, divulgou um vídeo em que critica o STF. Sua campanha também providenciou um banner com os dizeres “Chega de Intocáveis”. Augusto Cury (Avante), por sua vez, participou de um ato de campanha no Rio de Janeiro. Sobre um trio elétrico, ele iniciou seu discurso mandando “um abraço” a Mendonça. Renan Santos, candidato da Missão, participou de um ato separado “contra o STF e os traidores da nação”, em frente ao Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo.
O deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) afirmou que o ato desta segunda-feira incomodou a esquerda de forma especial.
Eu venho para a Paulista desde 2018. Essa foi a primeira vez que a esquerda se mobilizou para atrapalhar a nossa mobilização”, disse ele, afirmando ter visto um ônibus com militantes pagos chegar ao local com o objetivo de tumultuar o ato de direita.
Outro sinal do protagonismo de Mendonça foi o fato de o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, ter distribuído camisetas de apoio ao ministro do STF. Integrante do MDB, uma sigla que historicamente evitou confrontos com outros poderes, Nunes tem atuado de forma mais direta contra Alexandre de Moraes.
As consequências práticas
Em tese, o apoio popular não deveria afetar a atuação do STF. O órgão foi desenhado para agir independentemente do clamor popular. Na prática, a mobilização popular e a pressão política podem fazer, em meio à guerra conflagrada entre ministros, uma pressão crescente pelo impeachment de Alexandre de Moraes, que alcançou o apoio de pelo menos 38 senadores mas ainda está represado pelo presidente do Senado, David Alcolumbre (União Brasil-AP).
Na semana passada, o próprio Mendonça gravou um vídeo em que pede orações e agradece o apoio e as orações de evangélicos. “Meus irmãos e minhas irmãs, minha palavra se dirige a vocês essencialmente para agradecer tantas mensagens de oração e de carinho. Estejam certos que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família”, disse ele.
O caso vai ter desdobramentos nos próximos dias. O presidente Edson Fachin vai decidir se leva a plenário um relatório de Moraes que acusa Mendonça de ter conduzido a investigação de forma imprópria e agido com parcialidade no processo ao pedir que a Polícia Federal investigasse o próprio Moraes.
No domingo (6), Mendonça liberou para julgamento no plenário as apurações sobre o celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Três dias antes, Moraes havia pedido que Mendonça fosse investigado no Inquérito das Fake News por suposto abuso de autoridade ao devassar mensagens de membros do STF. Edson Fachin, entretanto, rejeitou o pedido de Moraes contra Mendonça e unificou o caso. O presidente da corte deu prazo até sexta-feira (11) para que Moraes, Mendonça, a PGR e a Polícia Federal se manifestem.
Em volume de manifestantes, a mobilização deste 7 de Setembro esteve longe dos atos pelo impeachment de Dilma Rousseff, decisivos na queda da petista. Mas, ao contrário do que aconteceu em outros temas, como a prisão de Bolsonaro, é improvável que os atos desta segunda sejam respondidos por manifestações a favor de Moraes na sua constrangedora relação com o banqueiro Daniel Vorcaro. O ministro mais poderoso — e autoritário — do STF nunca esteve numa situação tão frágil.
Fonte: Gazeta do Povo








