Meio ambiente

Expedição passa 19 dias na Serra do Aracá, a 1.265 metros, e coleta 15 lagartos e anfíbios candidatos a espécies novas

Material coletado no Amazonas seguirá para DNA e análise morfológica em coleções científicas, enquanto a confirmação pode levar de quatro a cinco anos

Por Natália Santos

Durante 19 dias, uma equipe científica trabalhou em dois níveis da Serra do Aracá, no norte do Amazonas, e voltou com 15 espécies de lagartos e anfíbios potencialmente novas para a ciência. No platô, a base foi instalada a 1.265 metros de altitude. A segunda ficou a 850 metros, no Aracazinho, uma elevação vizinha. A diferença entre os dois pontos permitiu reunir amostras de ambientes situados em altitudes distintas dentro do mesmo conjunto montanhoso. O resultado incluiu nove espécies de lagartos, das quais cinco provavelmente ainda não foram descritas, e 18 espécies de anfíbios, com dez potencialmente novas. Entre os lagartos, uma das formas coletadas pode representar até mesmo um gênero novo, hipótese que ainda depende de análises detalhadas.
A expedição foi coordenada por Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Participaram pesquisadores da USP, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, do Instituto Federal do Amazonas, da Universidade Federal de São Carlos e de instituições da França, Espanha, Estados Unidos e Noruega. O Exército Brasileiro ofereceu apoio logístico, e a Fapesp financiou o trabalho. A missão foi encerrada em 12 de setembro de 2026. Ao comentar os resultados à Agência Fapesp, Rodrigues afirmou que eles superaram em muito as expectativas e que todos os grupos colaboraram com resultados que classificou como espetaculares.
A Serra do Aracá é um tepui, formação de arenito que se eleva acima da floresta e funciona como uma ilha de altitude. Esse tipo de relevo cria uma separação física entre os ambientes do topo, das encostas e das áreas mais baixas. Ao longo de milhões de anos, populações de animais e plantas podem permanecer restritas a esses espaços, com pouco contato com grupos que vivem em outras montanhas ou no entorno da serra. Em répteis e anfíbios, a combinação entre relevo, umidade, temperatura e disponibilidade de abrigo ajuda a definir onde cada espécie consegue sobreviver. Por isso, áreas isoladas podem concentrar linhagens com distribuição muito limitada.

O isolamento, porém, não transforma automaticamente toda população em uma espécie diferente. Para reconhecer uma espécie, os pesquisadores precisam comparar características externas, medidas do corpo, escamas, coloração, estruturas anatômicas, vocalizações no caso dos anfíbios e informações genéticas. A comparação com espécies próximas é essencial porque diferenças de aparência podem ocorrer dentro de uma mesma espécie. No caso da Serra do Aracá, os exemplares serão estudados com análise morfológica e sequenciamento de DNA. Só depois dessa etapa será possível estabelecer quais grupos correspondem a espécies novas e se a forma de lagarto representa de fato um gênero ainda não reconhecido.
Os lagartos e anfíbios foram apenas parte do material obtido na serra. A equipe registrou cerca de 20 espécies de mamíferos e reuniu 80 espécimes. Também coletou 80 espécies de aves, representadas por 200 espécimes, além de mais de 300 amostras de invertebrados. Esses grupos ocupam funções diferentes no ambiente. Mamíferos e aves participam da dispersão de sementes, da polinização e do controle de populações de outros animais. Lagartos podem atuar como predadores de pequenos invertebrados e também servir de alimento para espécies maiores. Anfíbios dependem de condições específicas de umidade e reprodução, o que faz deles componentes importantes das comunidades associadas a cursos d’água, folhas, bromélias e outros microambientes.

A botânica também produziu um volume expressivo de material. Foram preparadas 2.000 exsicatas de plantas a partir de 400 números de coleta, e dezenas dessas amostras são potencialmente novas para a ciência. Exsicatas são exemplares prensados, secos e identificados que passam a integrar coleções científicas. A expedição ainda reuniu 100 amostras de parasitas sanguíneos, além de solo e água destinados à análise de DNA ambiental. Testemunhos de solo serão usados em estudos de pólen antigo. Em conjunto, esse material permite comparar a biodiversidade atual com sinais preservados no solo e entender como plantas, animais, microrganismos e condições ambientais se distribuem na serra.
Os exemplares e amostras seguirão para coleções da USP, do Inpa e de jardins botânicos. Nesses locais, os pesquisadores vão organizar, preservar e comparar o material com exemplares já conhecidos. O sequenciamento de DNA poderá revelar relações de parentesco que não aparecem apenas na aparência. A análise morfológica, por sua vez, vai verificar se os indivíduos compartilham combinações consistentes de características que os distinguem de espécies próximas. O processo também inclui a preparação de descrições científicas, a escolha de exemplares de referência e a publicação dos resultados em trabalhos especializados.
A confirmação e a publicação das possíveis espécies novas devem levar de quatro a cinco anos. Até lá, os grupos permanecem sem nome científico definitivo, mesmo quando os primeiros indícios apontam para uma distinção em relação a espécies conhecidas. Essa cautela protege a qualidade da classificação e evita que uma variação local seja registrada prematuramente como uma nova espécie. A serra, com sua Cachoeira do El Dorado e seus platôs de arenito, mostra assim que a descoberta não termina quando a equipe deixa o campo. Ela continua nas coleções, nos laboratórios e nas comparações que transformam uma amostra retirada da floresta em conhecimento verificável.

Fonte: Revista Amazônia

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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