O ano que já aconteceu

Tenho um amigo que lê o último capítulo primeiro. Isso me intriga profundamente. Ele compra o livro, senta-se na poltrona, vai direto para o fim, lê as últimas quatro páginas e só então volta para o começo. Já discuti com ele sobre isso; disse, com toda a convicção de quem acha que está certo, que ele está estragando o livro.
Ele responde sempre a mesma coisa: “não estou estragando, estou entendendo”.
Demorei uns bons anos para admitir que ele tem razão. Quando você sabe o final, nenhuma cena do meio é neutra. Aquele jantar do capítulo três, que na primeira leitura é só um jantar, vira o momento exato em que tudo se decidiu. O livro não fica pior. Fica legível.
O que a gente reclama no spoiler é que ele tira a surpresa. Só que nem sempre a gente quer a surpresa. Às vezes a gente quer o contrário disso: quer saber qual detalhe era a dobradiça. Controle, risco zero, parâmetro de mudança de processo.
Setembro é o mês em que as empresas brasileiras abrem a planilha do ano seguinte. Nas próximas semanas, reuniões e mais reuniões vão discutir se o crescimento de 2027 é de oito ou de doze por cento, se o reajuste da equipe entra em março ou em maio, se a filial abre agora ou no segundo semestre.
Eu proponho ler o último capítulo primeiro. Um amigo me inspirou a fazer isso.
É dezembro de 2027. O ano não foi bom. A sua empresa está fechando os números e todo mundo na sala já sabe por quê, tanto que ninguém precisa dizer nada em voz alta.
O que aconteceu? Pelo que eu já vi de perto, quase nunca a resposta é um número errado.
Já me deparei com orçamentos impecáveis. Fórmulas encadeadas, cenário otimista, cenário conservador, gráfico bonito. E, sustentando tudo aquilo, uma suposição que não estava escrita em lugar nenhum: o contrato com o maior cliente seria renovado.
Ninguém errou a conta. A conta estava certíssima para um ano em que aquele contrato continuasse. Ele não continuou, e a planilha inteira caiu por causa de uma frase que nunca foi dita em voz alta. O contrato vinha se renovando havia seis anos, e o que se repete seis vezes para de parecer decisão e começa a parecer paisagem.

Por isso a pergunta de setembro não é quanto vamos crescer em 2027.
É esta: o que precisa continuar acontecendo lá fora para que este orçamento faça sentido?
A resposta mais comum a essa pergunta é “o mercado vai continuar crescendo”. E é aí que vale olhar para o vizinho.
Em julho, a indústria do Espírito Santo cresceu 12,8% sobre o mesmo mês de 2025, o maior avanço do país e o décimo quinto mês seguido de alta de dois dígitos. No mesmo julho, a indústria brasileira recuou 0,5%, e onze dos dezoito locais pesquisados pelo IBGE fecharam no vermelho.
Mesmo país, mesmo mês, leituras opostas. Dois empresários podem fechar este ano na mesma semana, um dizendo que o mercado segurou e o outro que o mercado sumiu, e os dois falarão a verdade.
Se a decisão a ser tomada depende de contexto, o planejamento para se adaptar a ele não pode ser genérico ou subjetivo. O jargão “o mercado vai continuar crescendo” nunca é um dado. É uma aposta. Legítima, muitas vezes acertada, mas que depende de qual mercado, qual região, qual cliente, qual câmbio. E aposta merece ser dita em voz alta antes de virar meta.
O problema é quem recebe a meta depois, sem ter estado na sala.
Nesse dezembro de 2027 tem um supervisor que passou o segundo semestre inteiro explicando à equipe, de pé, por que a variável não veio. Ele não participou da premissa. Respondeu por ela sozinho. E já dizia aquele meme, “é raro, mas acontece muito”. Segundo a Gallup, 70% da variação do engajamento de uma equipe está associada à qualidade da liderança imediata. Não do discurso da empresa, mas do chefe que a pessoa vê todo dia.
Tem também um fornecedor pequeno que contratou dois ajudantes porque a nossa projeção dizia que o volume dobrava. Ele nunca viu a planilha. Viu o pedido, e dimensionou a vida dele em cima de uma suposição nossa.
E tem uma vendedora que sabia, em novembro de 2026, que o cliente estava de saída. Ninguém perguntou a ela, porque reunião de orçamento é de diretoria.
Nenhuma dessas pessoas foi ignorada de propósito. É que ninguém sabia que havia uma pergunta a fazer, porque a frase nunca tinha sido escrita.

Preciso ser honesto sobre o que piorou quando comecei a levar isso a sério na minha empresa.
Na primeira vez que parei para escrever premissas, meu orçamento dobrou de tamanho e terminou sem número fechado. Comecei a enfrentar demoras em decisões. Durante alguns meses confundi prudência com adiamento, e adiar também é uma escolha, só que uma escolha que ninguém assina.
Tem ainda o risco de virar teatro. Empresa que só ensaia o fracasso para de apostar, e apostar é parte do trabalho. Imaginar dezembro perdido serve para escrever a frase, não para se acovardar diante dela.
O que funcionou, para nós, foi modesto: três a cinco premissas por ano, escritas em frase inteira, cada uma com nome de gente ao lado e um sinal combinado, uma coisa que a gente precisa ver acontecer no mundo para saber que aquela frase deixou de valer.
Agora é setembro de 2026 de novo, e o livro ainda está inteiro na sua mão.
A diferença é que você já leu o último capítulo. Sabe qual jantar do capítulo três decidiu tudo.
Resta descobrir se a sua empresa vai conseguir voltar ao começo e mudar aquela cena.
Referências
[1] ES Hoje / Observatório Findes (dados IBGE – PIM Regional). Industria do ES cresce 12,8% em julho, maior avanço do país. Disponível em: https://eshoje.com.br/economia/2026/09/industria-es-cresce-128/2026;
[2] Gallup. State of the Global Workplace 2026, citada em “Pesquisa mostra por que as pessoas estão pouco engajadas no trabalho”. Disponível em: https://www.balcaoautomotivo.com/2026/09/17/pesquisa-mostra-por-que-as-pessoas-estao-pouco-engajadas-no-trabalho/2026;
[3] AGUIAR, Lito. O risco de um planejamento matematicamente impecável para 2027. Economia SC. Disponível em: https://economiasc.com/2026/09/18/o-risco-de-um-planejamento-matematicamente-impecavel-para-2027/2026.



