Peste Negra: como a doença medieval continua nos infectando?

Responsável por uma das pandemias mais devastadoras da história, bactéria Yersinia pestis ainda provoca milhares de casos de peste
Os primeiros sintomas percebidos por Paul Gaylord pareciam os de uma gripe. Dois dias antes, ele havia sido mordido pelo próprio gato, que aparentava estar doente. A primeira suspeita dos médicos foi de doença da arranhadura do gato, infecção bacteriana que pode ocorrer depois de mordidas ou arranhões de felinos. Antibióticos foram prescritos, mas não surtiram o efeito esperado. A condição de Gaylord piorou rapidamente. Internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ele acabou entrando em coma. O diagnóstico revelou uma enfermidade muito mais associada ao passado do que aos Estados Unidos contemporâneos: peste.
Gaylord sobreviveu e, em 2014, relatou sua experiência ao jornal britânico The Guardian. Seu caso ilustra uma realidade pouco conhecida: embora tenha deixado de provocar catástrofes comparáveis às da Idade Média, a peste nunca desapareceu completamente. Causada pela bactéria Yersinia pestis, a peste pode atingir o organismo humano de maneiras diferentes. A forma mais conhecida é a bubônica, historicamente associada à Peste Negra. Nela, pulgas podem adquirir a bactéria ao picar roedores infectados e posteriormente transmiti-la aos seres humanos.
Depois da infecção, o microrganismo pode se multiplicar nos gânglios linfáticos, provocando inchaços dolorosos. Caso alcance diretamente a corrente sanguínea — inclusive pela mordida de um mamífero infectado — pode provocar a peste septicêmica, caracterizada por uma grave infecção sistêmica.
Há ainda a peste pneumônica, na qual o patógeno chega aos pulmões. A transmissão pode ocorrer por meio de gotículas ou aerossóis provenientes de animais ou seres humanos infectados. Essa é a forma da doença na qual a transmissão direta entre pessoas é considerada provável. Apesar de rara, a peste continua provocando casos ao redor do planeta. Segundo o Instituto Robert Koch, responsável pelo controle de doenças na Alemanha, até três mil infecções podem ser registradas anualmente no mundo.
Atualmente, algumas das áreas mais afetadas estão na África, especialmente na República Democrática do Congo, Uganda e Madagáscar. Neste último, onde ocorreu um grande surto em 2017, entre 250 e 500 pessoas são infectadas a cada ano. Casos esporádicos também são identificados no oeste dos Estados Unidos.
Os números, contudo, são incomparáveis aos registrados durante a Idade Média. Entre 1347 e 1353, aproximadamente 25 milhões de pessoas morreram durante a Peste Negra. A enfermidade deu início a uma pandemia que persistiria por cerca de cinco séculos e, em diferentes ondas, teria eliminado aproximadamente 60% da população europeia. A relação entre humanos e Yersinia pestis, porém, é ainda mais antiga. Vestígios da bactéria já foram encontrados por arqueólogos em esqueletos com mais de 5.500 anos.

Evolução da Peste
Pesquisadores procuram compreender como o microrganismo evoluiu até adquirir seu enorme potencial epidêmico. O arqueólogo e bioquímico Ben Krause-Kyora, da Universidade de Kiel, na Alemanha, investiga justamente a interação entre patógenos antigos e o sistema imunológico humano. As variantes mais antigas conhecidas de Yersinia pestis não possuíam os genes necessários para que pulgas funcionassem como vetores. Por isso, pesquisadores consideram que outras formas de transmissão podem ter existido, incluindo o consumo de roedores contaminados.
Uma transformação importante aconteceu no final da Idade do Bronze, quando a bactéria desenvolveu o chamado gene ymt. A característica possibilitou sua transmissão por pulgas e contribuiu para uma rápida transformação do patógeno, preparando o terreno para epidemias posteriores. Na Europa, os últimos casos de peste foram registrados em 1945, na ilha francesa da Córsega. Segundo o biólogo molecular Holger Scholz, do Instituto Robert Koch, uma das principais explicações para o desaparecimento da doença no continente está nas mudanças das condições de vida.
Durante a Idade Média, seres humanos frequentemente dividiam suas casas com ratos, favorecendo o contato com pulgas infectadas. Hoje, roedores portadores da bactéria geralmente não circulam pelas residências europeias. Em outras regiões do planeta, entretanto, algumas espécies de roedores desenvolveram resistência à infecção e funcionam como reservatórios naturais de Yersinia pestis. É justamente essa permanência da bactéria na natureza que ajuda a explicar por que uma doença marcada no imaginário coletivo como medieval continua, milhares de anos depois de suas primeiras infecções conhecidas, fazendo vítimas.
Fonte: Aventuras na História





